Defensores do atacante uruguaio Cavani tentam justificar o injustificável ao desencorajar antirracismo

Alma Preta
·4 minuto de leitura
Cavani em ação pelo Manchester United. Foto: Martin Rickett, Pool via AP
Cavani em ação pelo Manchester United. Foto: Martin Rickett, Pool via AP

Texto: Juca Guimarães

Será que é possível ser racista em uma língua e em outra não? Será que é o racista que decide quando é ou não é racismo, de acordo com a própria conveniência? O futebol é um esporte que capta corações e mentes ao redor do mundo e nos últimos anos tem demonstrado um grande esforço na luta antirracismo.

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Multas, punições e campanhas contra a alienação mental e falsa ideologia de superioridade racial são a base do combate ao racismo no futebol, expressado em atitudes, gestos, ofensas e modo diferenciado de tratamento.

No futebol inglês, a Football Association multou em R$ 700 mil e deu três jogos de suspensão para o atacante uruguaio Edinson Cavani, 33 anos, da equipe do Manchester United por ter escrito “Obrigado, negrito” em resposta a um seguidor em rede social.

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A liga explicou que o comentário foi “impróprio”, “abusivo” e trouxe “descrédito” ao jogo. A equipe do jogador uruguaio também se manifestou dizendo que “apesar de sua crença sincera de que estava simplesmente enviando um afetuoso agradecimento em resposta a uma mensagem de parabéns de um amigo próximo, ele [o jogador Cavani] optou por não contestar a acusação por respeito e solidariedade à Football Association e à luta contra o racismo no futebol”.

O que poderia ser um grande aprendizado sobre as nuances do racismo estrutural e como a falsa ideia de cordialidade ainda é transpassada por preconceitos se transformou em um embate fervoroso no Uruguai para justificar o injustificável. Cavani é ídolo da seleção uruguaia e vai completar 34 anos em fevereiro. Ele joga na seleção desde 2006 e marcou mais de 90 gols.

O advogado negro Marcelo Carvalho, diretor do Observatório do Racismo no Futebol foi procurado pela imprensa estrangeira para comentar sobre o caso. “Um jornalista uruguaio perguntou a minha opinião para tentar minimizar o caso e buscar referências para que o jogador não fosse punido. Eu respondi que não há como criticar a liga inglesa. Eles julgaram de acordo com um parâmetro rígido para que os casos de racismo diminuam, pois na Inglaterra eles são muitos”, conta.

A academia de letras do Uruguai fez uma manifestação pública contestando que a língua falada no país é diferente da língua castelhana falada na Europa e a expressão “negrito” tem outros significados, um deles, por exemplo, é “querido”.

O publicitário Washington Olivetto, que mora em Londres, concorda com a tese de relativizar o contexto em que a expressão foi usada pelo atacante uruguaio. “Evidentemente ser antirracista sempre foi fundamental e é mais fundamental no mundo de hoje, mas isso não significa que para ser antirracista é preciso eliminar fenômenos culturais”, pondera.

Por outro lado, o diretor do Observatório do Racismo no Futebol lembra que a flexibilização sobre as manifestações de cunho racista coloca em xeque o propósito de erradicação do racismo no esporte.

“O pano de fundo da manifestação da academia de letras do Uruguai é a posição de pessoas brancas tentando apresentar argumentos para diminuir uma luta. Vejo pessoas brancas falando que a punição foi dura e que não é racismo, mas não vi pessoas negras dizendo que a decisão foi injusta”, avalia.

De 2014 a 2019, houve um aumento de 235% no número de casos de preconceito envolvendo jogadores de futebol brasileiros, segundo relatório do Observatório da Discriminação Racial.

Em 20 de dezembro de 2020, o jogador Gerson, do Flamengo, ouviu do meia Ramírez, do Bahia, a frase “Cala a boca, negro” em um jogo do Campeonato Brasileiro. No mesmo mês, na cidade de Caldas Novas (Goiás), Luiz Eduardo, de 11 anos, chorou após uma partida da liga infantil porque o técnico da equipe adversária gritava “fecha o preto aí, fecha o preto aí”.

Mais recentemente, tivemos o primeiro caso de racismo de 2021, quando no sábado de 2 de janeiro, pela Série C do campeonato brasileiro, um dirigente do Vila Nova chamou um atleta do Brusque FC de macaco.

No caso de Cavani, ele já cumpriu um dos três jogos de suspensão. A multa da liga inglesa para casos de racismo é muito maior do que a média dos valores aplicados como punição no Brasil, quando essas punições acontecem.

“A multa faz com que as pessoas discutam o tema. Numa sociedade extremamente racista, é uma tendência que a opinião média fique a favor do racismo. Tipo, eu sou antirracista e precisa pegar pesado para não acontecer, mas até um ponto. Então, quando tem uma punição pesada, as pessoas dizem que a luta está indo além, mas quem é que determina isso? É algo muito louco isso”, salienta Carvalho.

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