Da 'fantasia' aos 30 mil mortos: relembre o que disse Jair Bolsonaro ao longo da pandemia

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Foto: Michel Dantas / AFP. (via Getty Images)
Foto: Michel Dantas / AFP. (via Getty Images)

“Tem a questão do coronavírus também que, no meu entender, está superdimensionado o poder destruidor desse vírus. Então talvez esteja sendo potencializado até por questão econômica, mas acredito que o Brasil, não é que vai dar certo, já deu certo.”

Foi o que disse o presidente Jair Bolsonaro em 9 de março de 2020, durante uma visita ao colega Donald Trump nos EUA. 

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No dia seguinte (10/3), ele admitiu que estava diante de uma crise. Mas “uma pequena crise”. “No meu entender, muito mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propala ou propaga pelo mundo todo”.

No dia 11/3, ele voltou à carga: “outras gripes mataram mais”

Logo na sequência foi confirmado que seu secretário da Comunicação, Fabio Wajngarten, voltou ao país infectado pelo coronavírus —ao todo, 23 pessoas da delegação do presidente contraíram a doença.

Já no Brasil, Bolsonaro seguiu mudando de assunto. Disse que não poderíamos “entrar numa neurose como se fosse o fim do mundo” e que entre 2009 e 2010 houve uma crise “semelhante” mas, como era o PT que estava no poder, “a reação não foi nem sequer perto do que está acontecendo” (15/03).

Foi o primeiro dos muitos delírios persecutórios de quem afirmava que não dava para “querer jogar nas minhas costas uma possível disseminação do vírus”. Para ele, “tudo bem” que vai ter problemas, sobretudo a quem “é idoso e está com problemas ou deficiência”, mas era preciso lembrar que a doença “não é isso tudo que dizem”. (16/3).

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No dia seguinte (17/03), um paciente que estava internado em São Paulo morreu em decorrência da Covid-19. Era a primeira vítima fatal da pandemia no Brasil.

No mesmo dia, o presidente apostou que a situação no Brasil não chegaria ao que acontecia já Itália, um país que ele comparou com o bairro de Copacabana, cheio de “velhinhos mais sensíveis”, onde 400 pessoas morriam diariamente pela doença, e disse que o vírus era como gravidez: uma hora ia passar.

“Tem locais em alguns países que já têm saques acontecendo, isso pode vir para o Brasil, pode ter aproveitamento político em cima disso, a gente não quer pensar nisso daí, mas tem que ter calma. Vai passar. Desculpa aqui, é como uma gravidez, um dia vai nascer a criança. E o vírus ia chegar aqui um dia, acabou chegando.”

Ele também disse que “esse vírus trouxe uma certa histeria e alguns governadores, no meu entender, eu posso até estar errado, estão tomando medidas que vão prejudicar e muito a nossa economia”.

Três dias e 11 mortos depois, Bolsonaro desafiou: “Depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar” (20/3).

No dia 21/3, quando completou 65 anos, quem ganhou o presente foram seus seguidores. De bermuda e camiseta em uma área de lazer, Bolsonaro gravou um vídeo com os filhos para o Twitter dizendo que a possível cura da Covid-19 estava na cloroquina, medicamento que passaria a ser produzido em larga escala pelo Exército.  “Agora há pouco, os profissionais do hospital Alberto Einstein (sic) me informaram que iniciaram protocolo de pesquisa para avaliar a eficácia da cloroquina nos pacientes com Covid-19. (...) Tenhamos fé que em breve ficaremos livres desse vírus.”

Quando o Brasil se aproximava das primeiras 50 vítimas fatais, em 24/3, ele disse que, caso fosse contaminado pelo vírus, estaria salvo pelo seu “histórico de atleta”. “Não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria acometido, quando muito, de uma gripezinha ou um  resfriadinho”.

O brasileiro, para Bolsonaro, deveria ser estudado. “Ele não pega nada. Você vê o cara pulando esgoto ali. Ele sai, mergulha e não acontece nada com ele” (26/03).

Para muitos, foi uma injeção de ânimo não para pular no Tietê, mas para seguir circulando normalmente às ruas como se não corresse riscos. A garantia era o presidente.

O país não havia completado ainda os dez primeiros dias da quarentena recomendada pela Organização Mundial da Saúde.

No dia 27/3, quando o país somava 92 mortes, Bolsonaro mudou o tom e passou a desacreditar nos números divulgados sobre a doença. Para ele, “tem um estado aí que orientou por decreto que, em última análise, se não tivesse uma causa concreta do óbito, bota lá (coronavírus)”. 

O discurso estava alinhado com uma fake news espalhada por boots pelas redes, segundo a qual o amigo borracheiro de centenas de pessoas, entre elas a deputada Carla Zambelli, morreu tentando trocar o pneu de um caminhão que estourou. No atestado de óbito estava a prova da “conspiração-triste para derrubar o governo Bolsonaro”: “a maioria das pessoas que estão morrendo no estado estão colocando no laudo que é coronavírus. Eu tava lá, eu vi, o acidente foi um pneu que estourou na cara”.

Naquele dia, a Itália batia o recorde global de mortes por Covid-19 em 24h, com 919 óbitos, e chocava o mundo ao passar a marca de 10 mil vítimas fatais. O prefeito de Milão, Giuseppe Sala, tinha acabado de admitir que cometera um erro ao apoiar a campanha "Milão não para" — que, um mês antes, incentivou os habitantes da cidade a continuar com suas atividades normais.

Com os 832 mortos na Espanha, a Europa passava 20 mil mortes em razão da doença. Um restrito isolamento começava naquele que era, então, o epicentro da doença — as medidas de flexibilização iriam até meados de maio.

Enquanto isso, no Brasil, em 29/3, quando as imagens de caixões enfileirados em Manaus (AM) ainda não haviam corrido e chocado o planeta, Bolsonaro, em conversa com apoiadores, anunciou. “Vem aí a cloroquina na área. Na região norte, (a quantidade de infectados) tá pequena. Grande parte (da população) usa (cloroquina) pra malária. Está vacinada (sic)”. Antes do fim de abril, o sistema de saúde da capital amazonense, a maior cidade da região, entrou em colapso.

Do jejum ao ‘e daí?’

E então chegou abril, e, junto com as primeiras 300 vítimas da doença em todo o país, veio a ideia salvadora de Bolsonaro: juntar pastores e religiosos e “pedir um dia de jejum ao povo brasileiro em nome de que o Brasil fique livre desse mal o mais rápido possível” (2/4).

Dez dias depois (12/4), a fé na própria corrente fez efeito, e Bolsonaro afirmou que o coronavírus “parece que está começando a ir embora”. 

Naquele dia o país chegava à marca de 1.223 mortos.

Em 16/4, após semanas de fritura, caiu o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

O número de mortos dobrararia (2.575) no dia 20 daquele mês, quando Bolsonaro, diante de uma pergunta sobre o avanço da gripezinha”, declarou: “eu não sou coveiro”.

Dois dias depois, em 22/4, aconteceu a sintomática reunião com ministros em que foi aventada a possibilidade de prender prefeitos e governadores que uniam esforços para evitar aglomerações e a expansão da pandemia no país. O vídeo, divulgado um mês depois, mostrou que o presidente estava irritando com as medidas que considerava arbitrárias dos gestores estaduais e municipais e pregava a distribuição de armas, com a assinatura de um decreto que ampliou a cota de munição, para que povo lutasse contra a “ditadura”. A frase lembrava uma sentença de Benito Mussolini em agosto de 1937: “só um povo armado é forte e livre”.  

Nos dias seguintes, a pandemia praticamente desapareceu do noticiário político em meio às acusações de Sergio Moro, ministro demitido da Justiça, sobre a interferência de Bolsonaro na Polícia Federal. 

Foi no dia 28/4, quando o Brasil chegou aos 5.017 mortos oficiais por coronavírus, passando a China em número oficiais, que Bolsonaro desdenhou: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”.

Churrasco, tubaína e jet ski

O Brasil se aproximava das 10 mil mortes da pandemia quando, no dia 7/5, Bolsonaro anunciou em uma coletiva que faria um churrasco no Palácio do Alvorada no fim de semana com cerca de 30 pessoas. “Vamos bater um papo, quem sabe uma peladinha”, anunciou. 

O churrasco não aconteceu; a ele foi servido apenas um pedaço de carne enquanto passeava de jet ski em um lago da capital.

Em 16/5, um dia após a demissão do segundo ministro da Saúde, Nelson Teich, o Brasil ultrapassou Itália e Espanha em número de infectados e superou a marca dos 15 mil mortos na pandemia. No dia seguinte, Bolsonaro reuniu ministros em frente ao Palácio para saudar a multidão que se aglomerava na Praça dos Três Poderes em um protesto a seu favor. Ele jurou que o governo federal dava “todo apoio para atender às pessoas que contraíram o vírus, e esperamos brevemente ficar livre dessa questão.”

Em 19/5, o Brasil passou registrou, pela primeira vez, mais de mil mortes em um mesmo dia (ao todo, 1.170 óbitos). Horas após a divulgação dos números, o presidente apareceu sorridente em uma live com um entrevistador amigo e fez a famosa piada: “quem for de direita, tima cloroquina; quem for de esquerda, toma tubaína”.

Em 21/5, quando 20 mil pessoas já haviam morrido pelo coronavírus no país, Bolsonaro se queixou, em uma videoconferência com lideranças religiosas, que havia uma “propaganda muito forte em cima” da doença e isso levava “pavor para o seio da família brasileira”. Ele seguia afirmando que a doença causava problemas “apenas” para idosos e pessoas com outras doenças. 

“No meu entender, houve uma propaganda muito forte em cima disso. Trouxe o pavor para o seio da família brasileira. E obviamente nós sabemos da gravidade das pessoas idosas e daquelas que têm algumas doenças, uma vez sendo acometido pelo vírus”.

Quando o Brasil chegou a 25 mil mortos, em 25/05, só se falava de outra coisa no entorno presidencial. Ainda sob a tensão da divulgação do vídeo da reunião ministerial, Bolsonaro evitou a imprensa e se limitou a dizer: “No dia que vocês tiverem compromisso com a verdade, eu falo com vocês de novo”.

30 mil mortes: o destino de todo mundo

Desde o começo de março, já são quase três meses de gestos e declarações de um presidente em processo de desmoralização por ter conseguido errar todas as “previsões” a respeito da doença. As declarações, que segundo o médico e ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (o primeiro a ser ceifado do cargo por discordar das orientações médicas do presidente), mais confundiam do que orientavam a população. 

Resultado: o país ultrapassou nesta terça-feira, 3/6, os 30 mil mortos e 558 mil contaminados na pandemia, passando antigos epicentros da doença como a Espanha (27 mil) e se aproximando a passos largos da Itália (33 mil), que o presidente brasileiro comparou ao bairro de Copacabana. Os números, porém, ainda estão longe dos registrados nos EUA, com 107 mil mortes e queda nos casos de contaminação.

Diante dos índices, Bolsonaro se manifestou após uma apoiadora pedir que ele enviasse uma mensagem de conforto para as famílias em luto: “A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo”.

Morticínio acabava de mudar de nome.

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