De marxistas a entusiastas do liberalismo, entenda quem é o Cidadania

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Roberto Freire, presidente do Cidadania, durante o Congresso Extraordinário do partido, em outubro de 2019. (Foto: Divulgação/Flickr/Cidadania)
Roberto Freire, presidente do Cidadania, durante o Congresso Extraordinário do partido, em outubro de 2019. (Foto: Divulgação/Flickr/Cidadania)

De primeiro partido assumidamente de esquerda no Brasil a pretendente de ocupante do vão político entre o “Lulopetismo” e o “Bolsonarismo”, a guinada do Cidadania em sua trajetória política é escancarada.

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Sua origem em 1922 como PCB (Partido Comunista do Brasil) teve bases ideológicas no marxismo e no leninismo, e sua primeira bandeira trazia uma foice e um martelo cruzados, em amarelo, sob um fundo vermelho. Ao longo dos anos, foi colocado e retirado da ilegalidade diversas vezes pelos governantes, e justamente por isso sua história é conturbada e disputada por três partidos políticos.

A única legenda, no entanto, que tem a ‘genética’ do PCB reconhecida pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) é o PPS (Partido Popular Socialista), criado em 1992 após a dissolução da União Soviética. Tanto que herdou do PPS o número 23, utilizado hoje pelo próprio Cidadania.

A transformação do PCB em PPS e depois em Cidadania - concretizada em setembro de 2019 - não ficou apenas no nome da legenda. Em seu estatuto original, o PCB buscava a organização do proletariado “para a conquista do poder e consequente transformação política e econômica da sociedade capitalista em sociedade comunista”, conforme consta nos arquivos da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

Ao passar para PPS, os princípios do marxismo do PCB foram substituídos pela “radicalidade democrática”, uma definição relativizada do socialismo, mas com referências no humanismo. Esse passo mudava a cara do partido, que deixava de ser declaradamente comunista para se encaixar na chamada social democracia.

Agora Cidadania, a legenda flerta com o liberalismo econômico e um debate progressista no campo social. Essa reformulação encontra explicação no desgaste da “velha política” brasileira e necessidade dos partidos de se renovarem. Antes próximos de Lênin e Marx, o Cidadania reconheceu que “a agenda socialista e comunista fracassou” e agora se aproxima dos grupos políticos como o RenovaBR, Acredito, o Agora!, e o Livres.

“Nós estamos querendo dizer que é necessário uma esquerda moderna, uma esquerda que seja contemporânea do futuro. É isso que nós do Cidadania estamos buscando. Pode ser dito de centro-esquerda exatamente por que setores centristas e liberais estão se integrando nessa discussão? É. Talvez seja esse o grande instrumento para esse mundo do futuro que estamos aí vivendo. Talvez explicando muito sumariamente o que é o grande debate que há muito tempo nós do velho Partido Comunista estamos fazendo desde a mudança do PPS e da mudança agora para o Cidadania”, explica Roberto Freire, presidente do Cidadania.

Ao todo, o Cidadania possui 3 senadores (Alessandro Vieira - SE; Eliziane Gama - MA; e Jorge Kajuru - GO), 9 deputados federais (Alessandro Manente - SP; Arnaldo Jardim - SP; Carmen Zanotto - SC; Da Vitória - ES; Daniel Coelho - PE; Marcelo Calero - RJ; Paula Belmonte - DF; Fabiano Tolentino - MG; e Rubens Bueno - PR), 21 deputados estaduais, 118 prefeitos e 1.669 vereadores.

RELAÇÃO COM GOVERNOS

O PPS teve idas e vindas entre oposição e situação nos governos da Nova República.

Diante da renúncia de Fernando Collor, apoiou fielmente o governo de Itamar Franco, chegando a ter Roberto Freire como líder do PPS na Câmara dos Deputados em 1992. Posteriormente, o próprio Itamar filiou-se ao PPS, em 2009.

Foi oposição ferrenha ao governo de Fernando Henrique Cardoso, mas suavizou consideravelmente sua atuação durante o segundo mandato de FHC, quase simultaneamente ao chamado de Raul Jungmann, fundador do partido, para assumir o Ministério do Desenvolvimento Agrário.

O governo Lula começa com Ciro Gomes (então no PPS) à frente do Ministério da Integração Nacional, transformando a legenda em situação em relação ao governo. Assim permanece até 2004, quando rompe com o governo Lula, obrigando o próprio Ciro a deixar o PPS e se filiar ao PSB (Partido Socialista Brasileiro).

De volta à oposição, o PPS se une ao PFL - hoje DEM - e ao PSDB para formar um bloco que dura até hoje. As críticas ao governo Lula sobem o tom após eclodirem episódios de corrupção, como o escândalo do mensalão, e seguem ferrenhas durante o governo de Dilma Rousseff e de Michel Temer. Durante os votos do impeachment da petista, a alegação do PPS foi de que o partido era contra “os desmandos do PT”.

No governo de Jair Bolsonaro, o PPS transformou-se em Cidadania, mas manteve o caráter oposicionista. Ex-ministro da Cultura de Temer e atual presidente do Cidadania, Roberto Freire tece abertas críticas ao governo do presidente Jair Bolsonaro, principalmente pela gestão da pasta da Cultura. “Cultura para esse governo Bolsonaro é um estorvo”, disse Freire.

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