‘Ao Nordeste, meu muito obrigado’, por David Luiz

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David Luiz durante jogo do Arsenal (Foto: Reuters)
David Luiz durante jogo do Arsenal (Foto: Reuters)


Depoimento: David Luiz / Roteiro: Josué Seixas (@josue_seixas)

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Antes de chegar ao Vitória, eu passei fome - no sentido de não ter as refeições corretas no dia. Só tínhamos uma caneca de feijão na hora do almoço, e uma para jantar. Colocávamos farinha para dar mais sustância. Passamos por inúmeras coisas. Muitas delas - principalmente quando era mais novo - eu escondia dos meus pais, senão eles iam pedir que eu voltasse para casa. Mas acho que tudo isso só nos faz crescer, só nos faz valorizar ainda mais a vida. Porque, por mais que a gente passasse inúmeras dificuldades, há pessoas que estão ainda em muito piores condições que nós. 

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Eu sou eternamente grato ao Vitória e ao Nordeste, por terem me dado a oportunidade de desempenhar meu futebol, e soube sempre enxergar o esforço que todos faziam pra que esse sonho e o de tantos outros jogadores fossem realizados.

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O Vitória sempre fez o maior esforço para atender todos os atletas da melhor maneira possível e tenho muito orgulho de ter passado por lá.

Eu fui morar fora muito novo, mas com certeza foi uma das experiências mais incríveis da minha vida. Não foi uma decisão fácil sair de casa aos 14 anos e ir para o Nordeste. Eu não tinha ainda a dimensão de todas as dificuldades e também de todas as coisas positivas que poderiam acontecer. 

Fui simplesmente com um sonho de menino, com um sonho incerto de um dia poder me tornar um jogador de futebol. Depois, eu tive a experiência de aproveitar e ver como é o povo nordestino, como são alegres, como desfrutam da vida e como recebem bem as pessoas. Me senti em casa muito rápido. Tenho grandes amigos até hoje que vivem em Salvador e também no Ceará, em Fortaleza.

No começo da carreira, eu jogava no meio-campo, não só como volante, mas jogava como camisa 10. Depois, num torneio no Rio Grande do Sul, onde viajamos 72 horas de ônibus, eu estava no banco. A gente jogava no 3-4-3, 3-5-2, dois jogadores se machucaram no primeiro jogo, o treinador queria manter a mesma estrutura de três zagueiros, mas só tinha eu no banco. 

Na época, o treinador era o João Paulo,  eu falei pra ele que poderia jogar como zagueiro. Ele falou que eu nunca tinha jogado, mas me deu essa oportunidade e eu fui um dos melhores zagueiros do campeonato. Depois disso o Chiquinho de Assis e o Tiu - que era um dos olheiros que me levou para o Vitória - me encorajaram para começar a treinar como zagueiro. Depois de seis meses, nós estávamos na Holanda, eu fui campeão como zagueiro e, em menos de um ano, estreei no profissional como zagueiro. Foi dessa forma, uma das decisões mais acertadas e que mudou minha vida.

Eu tinha tudo fechado com o Anderlecht, logo após conseguirmos o acesso pra segunda divisão (Reuters)
Eu tinha tudo fechado com o Anderlecht, logo após conseguirmos o acesso pra segunda divisão (Reuters)


Sabíamos da dificuldade que encontrava com o Vitória na época, foi por isso que ele deu oportunidade para os mais jovens. Eu era muito novo e agradeço a Deus todos os dias por isso. 

Uma vez, fomos jogar em Belém do Pará contra o Tuna Luso, às 11 da manhã. Estava muito calor e, depois de três, quatro piques, o Apodi, já estava desmaiando (risos). 

Acho que foi um aprendizado muito grande. Sou grato a Deus por tudo que vivi no Vitória, no Nordeste e na terceira divisão, pois isso trouxe muita coisa para o meu futuro. 

Talvez, se o Vitória estivesse na primeira divisão, a gente não teria tido tantas oportunidades.

A negociação que ficou pelo caminho

Eu tinha tudo fechado com o Anderlecht, logo após conseguirmos o acesso pra segunda divisão. Mas ainda estávamos disputando o título contra o Criciúma e tínhamos perdido um pouco o foco - pois o nosso grande objetivo era subir para a segunda divisão. Eu já tinha tudo acertado com o Anderlecht e eles viajaram pra ver um jogo meu. Viajaram treinador, presidente, todo mundo... e foram assistir ao nosso jogo contra o Criciúma. 

Nesse dia, nada deu certo para nós. Perdemos de 5 a 0 e eles desistiram da minha compra. Eles falaram “Não é esse jogador que a gente quer”. No outro dia - lembro até hoje - o nosso treinador falou: “O barco só passa uma vez, o David perdeu a oportunidade porque vocês não estavam focados. Agora já era”.

Naquele momento, eu pensei que nunca mais teria outra oportunidade de jogar na Europa. 

 Só que fui embora muito cedo e nunca mais voltei. Mas em todos os momentos eu lembro de onde eu saí - lá de Diadema, depois fui pro Nordeste... o que eu passei no Vitória, todas as pessoas que passaram na minha vida... 

Não chegamos em lugar nenhum sozinhos, tem um leque de pessoas que me ajudaram bastante, que me ajudam até hoje e, por isso, eu sou eternamente grato. Tudo fica na cabeça! 

Quando eu ganhei a Champions, sem dúvida nenhuma, foi um momento de reflexão e gratidão na minha vida. Porque, como eu disse, não chegamos a lugar nenhum sozinhos. 

Eu, hoje, não penso em voltar pro Brasil. Não sei daqui há alguns anos, mas não é isso que eu tenho na minha cabeça. Eu tenho a meta de continuar aqui na Europa, de continuar jogando em alto nível, mas o futuro a Deus pertence.

O Arsenal é um outro grande momento da minha carreira. Sou um privilegiado por ter jogado em grandes clubes. Eu decidi sair do Chelsea antes mesmo de receber a proposta do Arsenal. Depois veio a oportunidade de rumar para outro grande clube, então eu não pensei duas vezes. 

O Arsenal é um outro grande momento da minha carreira. Sou um privilegiado por ter jogado em grandes clubes (Reuters)
O Arsenal é um outro grande momento da minha carreira. Sou um privilegiado por ter jogado em grandes clubes (Reuters)


É um clube que merece brilhar novamente. Tem uma estrutura maravilhosa, um grupo de jogadores de muito talento qualidade e um grande treinador. Então cabe a nós tentarmos encontrar nosso melhor caminho, para que possamos lutar por títulos. 

Esse é o meu objetivo - sem ambição na vida, a gente não consegue nada. Por todos os clubes que eu passei, foi sempre essa a minha visão e no Arsenal não vai ser diferente. A concorrência é sempre muito difícil. Todo mundo sabe que o campeonato mais difícil do mundo é a Premier League. 

Hoje, os grandes clubes como o Liverpool ou o City estão um degrau a frente de todo mundo, mas o futebol é imprevisível, por isso é maravilhoso. Todo dia é uma nova oportunidade.

Firmino e Jesus, atacantes de Liverpool e City

Sempre brincamos, mas depois que começa o jogo, é com muito profissionalismo, cada um defendendo as suas cores. São dois grandes jogadores, dois grandes amigos. Eu lembro muito bem do começo do Firmino na Seleção. Tentei sempre encorajá-lo para nunca desistir, para ele continuar lutando e fazendo aquilo que ele mais sabe, porque eu já via que ele era um craque, um jogador diferente.

Não foi fácil pra ele no início e hoje é prazeroso poder ver que ninguém o contesta, todo mundo sabe que é um jogador diferenciado. O Gabriel também é um outro grande jogador - muito novo - que despontou muito rápido no Brasil, se destaca também no City da melhor maneira possível e é o presente e o futuro do nosso futebol brasileiro.

O alagoano Arthur Maia, que faleceu no acidente da Chapecoense, era um amigo

O Arthurzinho, nosso Arthur Maia, que infelizmente hoje está lá do céu nos abençoando... Foi um dos meninos que eu tinha o maior carinho do mundo e que tentava ajudar da melhor maneira possível. Por ser mais velho que ele, eu já tinha passado por coisas que ele estava passando no momento. 

Lembro de ter encontrado com a família dele uma ou duas vezes e falar pra eles que eu estava ali para ajudá-lo. Infelizmente, hoje já não o temos conosco, mas era um garoto muito especial, educado... um garoto sensacional que eu vou guardar sempre no coração com essa imagem de uma criança que chegou lá, com um talento incrível e que estava sempre sorrindo.

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