Datafolha: Bolsonaro mantém base de apoio mesmo após cometa Queiroz

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Apoiador de Jair Bolsonaro durante ato em Brasília. Foto: Andressa Anholete (via Getty Images)
Apoiador de Jair Bolsonaro durante ato em Brasília. Foto: Andressa Anholete (via Getty Images)

Como uma nuvem de gafanhotos, o cometa Queiroz passou sem provocar arranhão aparente na lavoura dos eleitores que fincaram o pé e estão com Jair Bolsonaro para o que der e vier.

Para não dizer que não houve avaria, o índice dos que aprovam o presidente oscilou um ponto negativamente de um mês pra cá, de 33% para 32%, segundo uma pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira (26).

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Os que o rejeitam são 44%. E os nem fá nem fu somam 23%.

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Na margem de erro, tudo segue como dantes de um mês pra cá. Não qualquer mês. Foi um mês em que atingimos a marca de 55 mil mortos por coronavírus, que amigos e aliados do presidente foram em cana por patrocinar ou participar de atos antidemocráticos, um ministro da Educação precisou sair fugido do país e um velho conhecido da família, submerso desde que foi apanhado em estranhas transações ao fim das eleições, foi encontrado pela polícia na casa de um advogado dos Bolsonaro em Atibaia (SP).

Aqui reside um detalhe.

A aprovação de Bolsonaro despenca para 15% entre os que acham que ele sabia onde Queiroz se escondia.

Para sorte dele, só um quarto dos entrevistados (25%) diz não ter tomado conhecimento da prisão do ex-assessor Queiroz. Um em cada quatro brasileiros estava provavelmente com a TV desligada enquanto o Jornal Nacional desenhava o caminho das rachadinhas da Assembleia Legislativa do Rio até o casa de campo no interior paulista.

Não se sabe, porque não foi questionado, quantos desses eleitores tem se alimentado apenas das fontes oficiais para fugir do viés dos órgãos dispostos a fazer da cobertura do Planalto qualquer coisa, menos um release aprovado pela assessoria de imprensa bolsonarista. No Twitter dos integrantes da família, Queiroz é um homem honesto, trabalhador, perseguido e o Brasil deslanchou -- se não deslanchou, a culpa é dos Outros Poderes e da velha política.

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Nos diários oficiais eletrônicos de youtubers bem remunerados, o centrão não foi cooptado e o Ministério Público não tem nada que se assemelhe a um cometa para enterrar nos homens de bem.

Faz de conta.

A pesquisa Datafolha ajuda a entender a ojeriza do presidente e sua família pelo jornalismo profissional: quanto mais informação tem o eleitor, menos crédito tem o clã em suas lorotas oficiais.

Entre os que souberam da prisão, 64% dizem acreditar que Bolsonaro sabia onde estava Queiroz, o ex-assessor que da casa do advogado da família estudava planos de fuga e resolvia encrencas em área de milicianos, no Rio. Um deles morreu em troca de tiros com a polícia em um esconderijo na Bahia.

Quatro em cada dez (38%) acreditam que o presidente estava envolvido no esquema da “rachadinha”.

“Achar” ou não parece acessório em um processo em que cabe à polícia, ao Ministério Público e à Justiça formar convicção. Mas estes são tempos de guerra de narrativas, goste-se ou não.

Em live na quinta passada, ao ser questionado por absolutamente ninguém, Bolsonaro correu para dizer que o amigo estava em Atibaia para ficar mais perto do hospital onde se tratava de um câncer na capital. De um local ao outro são 60 quilômetros.

Ah, sim: é preciso muita fé para acreditar que Bolsonaro não sabia que, quando deputado, empregava em seu gabinete a filha do amigo Queiroz. Ela batia ponto em Brasília e trabalhava como personal trainer no Rio. A fé bolsonarista move montanhas e teletransporta quem nele crê e emprega.

A pesquisa chega num momento em que Bolsonaro sinalizou trégua contra os inimigos do bolsonarismo e celebrou uma notícia estranha, que chocaria seus eleitores caso beneficiasse qualquer adversário vestido de vermelho: Flávio Bolsonaro acaba de ganhar foro especial no processo das rachadinhas

Seu caso sairá das mãos do juiz Flávio Itabaiana, que autorizou o cerco a Queiroz e sua mulher (ainda foragida), e seguirá para o Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio. É lá que mora um pedido do agora senador para a anulação de todas as decisões e provas colhidas por ordem da primeira instância.

Lembra da campanha pelo fim do foro privilegiado que até outro dia juntava lava-latistas e bolsonaristas na mesma baia? Pois é. Desde 2018 o entendimento do Supremo Tribunal Federal é que a prerrogativa de foro só pode ser conferida para crimes cometidos durante o mandato. Suspeito de lavar dinheiro da tal rachadinha quando deputado, e não senador, Flávio virou exceção da regra.

“Nós hoje vamos comemorar”, disse Rodrigo Roca, novo advogado do senador, que substituiu Frederick Wassef, o Anjo que abrigou Queiroz por questão humanitária e se tornou uma peça de radiação que pode ou não explodir.

Em um só dia, a coluna Painel, da Folha de S.Paulo, contou ao menos cinco gestos de paz sinalizados pelo presidente -- abatido, segundo aliados e câmeras de transmissão online, desde a prisão do ex-assessor.

Bolsonaro fez discurso conciliador ao lado de Dias Toffoli, escolheu um ministro da Educação que aparentemente não xinga a mãe alheia no Twitter, fez homenagem às vítimas da Covid ao som de Ave Maria, viu a ida do seu secretário de Governo, Luiz Eduardo Ramos, para a reserva do Exército (desvinculando, assim, ao menos oficialmente, as Forças Armadas da articulação política do governo) e seu titular das Comunicações inaugurar uma fase de diálogo com a imprensa. Impensável até outro dia, o ministro Fábio Faria visitou a Redação da Folha no mesmo dia, ao lado de Fabio Wajngarten, um pit-bull do bolsonarismo até outro dia.

Grifo meu, as novas regras para o saneamento básico, aprovadas pelo Congresso e a um passo da sanção presidencial, podem também amarrar de volta os que imaginavam ganhar muito dinheiro na esteira de desmontes e privatizações prometidas pelo governo e ameaçavam abandonar o barco. 

Só que bandeira branca vinda de quem dizia que só uma guerra civil daria jeito no Brasil é sempre alvo de desconfiança. Sinal de paz, muitas vezes, é só cessar-fogo até a temperatura baixar.

Bolsonaro pode ter mantido os 32% de aprovação, mas ainda é o presidente mais mal avaliado em seu primeiro ano de mandato.  

Apenas 20% dos eleitores dizem confiar “sempre” nas declarações de Bolsonaro -- quase 80% nunca confiam (46%) ou confiam só às vezes (32%). Entre os que têm ensino superior, a desconfiança chega a 53%.

Nada bom para quem tropeça na missão histórica de liderar um país na condução de uma pandemia (ruim ou péssima para 49% dos entrevistados).

Desde a demissão de Luiz Henrique Mandetta, aliás, a aprovação aos trabalhos do ministério da Saúde, hoje comandada pelo terceiro titular em 100 dias — um general sem formação médica — despencou de 55% para 33%.

Um consolo para o presidente, se houver, é que a grama dos governadores, seus inimigos declarados, já não é mais tão verde. Eles tinham o apoio da maioria (54%) dos brasileiros em março e hoje somam 44% de ótimo/bom, com viés de baixa à medida que afrouxam as regras de isolamento e veem aumentar a fileira dos mortos na pandemia.

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