“Não gosto de moda”: Português no Brasil rechaça comparações com Abel e Jesus

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Daniel Neri durante sua passagem pelo Sampaio Corrêa (Andriolli Araújo / Sampaio Corrêa)
Daniel Neri durante sua passagem pelo Sampaio Corrêa (Andriolli Araújo / Sampaio Corrêa)

Em um passado recente, apenas três treinadores portugueses conquistaram títulos, no plural, dentro do futebol brasileiro. Dois deles são amplamente conhecidos Brasil afora: Jorge Jesus, no Flamengo entre 2019 e 2020, e Abel Ferreira, desde o ano passado no Palmeiras. Ambos campeões da Taça Libertadores. Um terceiro técnico luso a construir uma carreira com títulos longe de casa, e dos principais holofotes da grande mídia brasileira, é Daniel Neri Marinho. Natural de Amarante, no norte de Portugal, o profissional de 41 anos conquistou os estaduais de Pernambucano e do Maranhão, pelo Salgueiro e Sampaio Corrêa, respectivamente.

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Em 2020, à frente do Carcará, levou o clube a ser o primeiro do interior em 105 anos a conquistar o Campeonato Pernambucano. No final de abril, o treinador deixou o clube sertanejo para um desafio meteórico no Vozão de São Luís. Deixou o clube após quatro jogos, invicto e com mais um título. Desde 2013 no Brasil, Daniel Neri não gosta de comparações com os demais técnicos portugueses. Chama de “moda” essa supervalorização aos conterrâneos e diz que sequer gosta de acompanhar os colegas para não dar opinião. “Se um treinador fizer a sua carreira por modas, então esse treinador é muito fraco”, afirma.

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Após passagens pelas divisões de base do Porto, de Caruaru, e do Sport (onde foi campeão estadual sub-20 em 2015), Daniel teve também uma curta passagem pelo Flamengo, não o famoso do Rio de Janeira em que o “mister” Jorge Jesus foi multicampeão, mas o primo menos conhecido, do interior de Pernambuco. Seguiu para o Salgueiro, onde atingiu seu auge. Acertou depois do Estadual com o América-RN, mas caiu no início desta semana. Repleto de sonhos e com convicção em conquistá-los, o treinador conversou com o Yahoo Brasil sobre seu passado e os planos para o futuro: treinar a Série A brasileira e a I Liga portuguesa.

Atualmente, os portugueses são muito bem quistos no Brasil, sobretudo após o trabalho realizado por Jorge Jesus no Flamengo e as conquistas de Abel Ferreira no Palmeiras. Na sua opinião, essas duas figuras têm sido importantes para abrir novas portas aos treinadores português no país?

“Minha vida sempre foi difícil. Sinceramente, para mim, não ajudou em nada. Ninguém me deu nada, as conquistas que eu tive foram com trabalho. Se alguém está a ganhar com isso, não sinto que seja eu. Quando o Jorge Jesus chegou ao Flamengo, eu já estava no Salgueiro. Quando ele foi campeão lá, eu fui campeão no Salgueiro também. Sinceramente, eu acompanhei pouco. Eu procuro acompanhar pouco dos treinadores portugueses aqui por causa dessas questões. Não gosto de modas, eu acredito em trabalho. O trabalho dos outros é dos outros, seja de quem for. E o meu é o meu. E o Sampaio apareceu também porque fui campeão pernambucano. Então, sinto que as minhas portas estão se abrindo, não é por causa de moda, é porque há trabalho. Até porque estou no Brasil há bastante tempo bem antes de todas essas modas. Eu vejo que chega um, chega outro, com mais frequência agora de Portugal, mas isso não quer dizer nada. Não quer dizer que porque um ganhou todos sejam bons. Esses treinadores portugueses que falou e que diz que fizeram bons trabalhos eles pegaram ‘equipas’ milionárias. Estamos a falar de ‘equipas’ que têm uma certa obrigação. Houve treinadores, como o que chegou ao Vasco (Ricardo Sá Pinto), e não foi campeão da Libertadores que eu me lembre. O orçamento era menor e a luta era mais abaixo. Olhe, não gosto muito dessa moda, não entro nela, tento saber da moda o menos possível que é para nem ter opinião. Nem gosto de comentar. Evito ver jogos para ter uma ideia… Não me interessa absolutamente nada. Não gosto de ver para não ter nada para dizer. Se um treinador fizer a sua carreira por modas, então esse treinador é muito fraco”.

Como foi sua trajetória profissional antes de chegar ao Brasil?

“A minha paixão é grande pelo futebol, comecei a jogar aos 10 anos nas camadas jovens, no Amarante, onde estive até antes do profissional. Eu era defesa central, lateral, volante... Andava por ali atrás. Mas não tive seguimento, vi que não ia fazer grande coisa no futebol. Fui fazer Educação Física na Universidade do Porto. E nesse tempo comecei a trabalhar no Progresso, onde treinei o sub-15, o sub-19, depois a ‘equipa’ sênior por seis anos. Ganhamos alguns títulos, foi bonito. Consegui conciliar o Progresso, que era mais simples, mais amador, com um grande clube, o FC Porto. Iniciamos o projeto Dragon Force e ao longo do tempo fui tendo várias funções por dez anos. Foi minha grande escola do futebol com os profissionais, com a exigência, a estrutura, a vontade de aprender. Foram seis anos para aprender o que é o futebol, ninguém nasce a saber. Trabalhei como treinador, auxiliei também a parte de scout de ‘equipas’ na base do FC Porto, depois scout de jogadores internacionais, Séries A e B do Brasil, sempre ligado ao Brasil porque eu queria vir para o Brasil e estava direcionado para vir”.

Por que o Brasil?

“Em 2011, eu tinha uma forte vontade de vir trabalhar aqui, porque a minha esposa é brasileira, estamos há dez anos juntos. E queria aventurar-me para o lado de cá. Então foi em 2013 que vim. Cheguei no Recife e fiquei entre junho e fevereiro sem trabalho. Procurei e até que encontrei no Porto, de Caruaru, no sub-17. O (José) Porfírio (presidente do Porto) foi quem abriu a oportunidade de mostrar meu trabalho no Brasil. Ele chegou a ligar para o FC Porto para saber se eu tinha trabalhado e lembro bem das palavras que disseram lá: ‘É muito trabalhador e inteligente’. Esse ano comecei no sub-17, depois sub-20 e ainda em 2013 treinei o profissional no campeonato pernambucano e chegamos à fase final do estadual. E depois fui para a base do Sport, para o sub-17, depois fui para o sub-20. Depois a família quis voltar para Portugal, voltei, mas não tive oportunidades e regressei outra vez para o Brasil. Passei pelo Flamengo-PE, mas com muita falta de estrutura. Conseguimos que a equipa não fosse rebaixada, que era o objetivo”.

No ano passado, o senhor conquistou um título inédito no futebol pernambucano com o Salgueiro. Foi o melhor momento da sua carreira?

“Há vários momentos. Teve um momento que nasci para o futebol, como jogador que foi lá atrás. Depois quando nasci como treinador que foi no Progresso. Onde nasci como treinador foi no FC Porto. Onde cresci como treinador de equipa grande, de base, foi no Sport. Fiz um grande trabalho de base e fui respeitado por um bom treinador de base. Onde nasci como treinador de equipa profissional e ganhei respeito pelos demais profissionais foi no Salgueiro. Todos eles foram importantes. Mas o meu objetivo é ser um treinador de alto nível e quero atingir o nível de uma Série A, que é onde espero chegar e sinto que estou no caminho. E onde nasci para isso mesmo foi no Salgueiro. Mais do que ganhar um título foi um nascer para mim”.

E foi então um trabalho que vai ficar para sempre marcado na sua carreira, correto?

“Para mim e para todo mundo. Para a cidade, para o clube… Uma gratidão imensa minha por eles e deles por mim. A gente sabe quem tinha do lado. Quando fazes uma obra dessas toda a gente tem que entregar muito de si. Toda a gente teve que dar o seu melhor e transcender porque a conquista foi muito grande e quando os outros clubes têm diferença de capacidade muito grande como é em Pernambuco com o Sport, o Náutico, o Santa Cruz, o Retrô agora, o Central é sempre desafiante. Quando se tem isso daí é preciso ser forte para ir até o fim”.

Sei que o senhor não quer entrar em detalhes, mas gostaria que analisasse a rápida passagem pelo Sampaio. Por que foi tão breve?

“Eu estava no Salgueiro quando surgiu a proposta do Sampaio. Estávamos já na reta final do Campeonato Pernambucano. Quando surgiu a proposta, precisava ganhar mais um jogo para deixar a equipa pelo menos entre os quatro para ter a possibilidade de ir para a final e conseguir a classificação para a Série D e até a Copa do Brasil. Vencemos o hoje e terminamos em terceiro. Nesta posição, poderíamos ter o acesso à Copa do Brasil, que foi o que aconteceu. Quando fui para o Sampaio, então, a primeira coisa era ir sem estragar todo o trabalho feito no Salgueiro e acho que as duas coisas foram conseguidas. Deixei o Salgueiro com um bom calendário para a próxima época, que é o campeonato nacional brasileiro, a Copa do Brasil, que dá uma receita muito boa e é importante para os clubes menores e pronto. No Sampaio, cheguei e peguei uma equipa com uma pressão imensa porque tinha praticamente que ganhar o estadual, que já não vinha muito bem com uma série de derrotas. Então, não foi fácil. Eu não conhecia os jogadores, a competição, as ‘equipas’. Teve que ser tudo muito rápido. Conseguimos passar o primeiro mata-mata, foi difícil. Empatamos os dois jogos e acabamos por vencer nos pênaltis. No segundo, a ‘equipa’ teve mais tempo para trabalhar, tivemos uma semana para o primeiro jogo com o Moto Club. Em dois jogos tivemos 15 dias de trabalho, já conhecia meus jogadores, já tinha feito dois jogos, então já sabia o que estava a fazer. Vencemos os dois jogos e fomos campeões e missão cumprida. Queríamos dar continuidade na Série B, mas há coisas nos clubes que não sabemos bem o que acontece. O que é certo é que houve a desvinculação e agora é continuar. Parar um pouco, refletir e ver as propostas que estão na mesa, fazer boas escolhas e continuar”.

Apesar de ter conquistado dois títulos regionais relevantes no Nordeste brasileiro o senhor ainda não teve a oportunidade de treinar um clube dito de “expressão nacional”. O senhor acha que ainda vai alcançar esse patamar e o que acha que falta para receber essa oportunidade?

“É um dia de cada vez. A minha carreira eu faço sem fazer muitos planos. Já fiz muitos planos que não serviram para nada. Ainda estou a refletir. Estou aqui em São Luís a espera de um voo para Portugal, se não for para Portugal é porque apareceu-me outro projeto interessante. Nesta fase é isso. É um dia de cada vez. Há projetos que valem a pena, esse último no Sampaio foi o mais curto da minha vida, mas foi mais um título também. Não foi dado, foi trabalho, há um mérito de toda a equipa, dos jogadores, mas tivemos que conseguir, conquistar. E agora no futuro não estou amarrado à Série B ou à Série A. Meu objetivo é lá chegar. Conheço a minha história. Não adianta ter pressa, olhar para o espelho e olhar uma pessoa maior que eu sou. Sou um treinador que treinou o Salgueiro por dois anos, quase que sabíamos a Série C, mas quase não conta. Por isso me chamaram para o Sampaio e fomos campeões. E agora estou preparado para qualquer desafio que não seja como esse do Sampaio. Sou um treinador que gosta de ver a planta crescer, a coisa a longo prazo funcionar. Chegar e resolver, se tiver que ser será, mas que depois haja uma continuidade. Então, que seja um desafio que tenha solidez, que a gente olhe para ele veja futuro, que não seja uma coisa no grito, na motivação e do planejamento zero. Se aparecer alguma coisa nesse sentido, vou ficar por aqui mais um pouco. Senão, meu plano b, que neste momento é plano a, é bom demais estar para Portugal no verão”.

Por fim, o senhor ainda pensa em regressar a Portugal e tentar construir a carreira na sua terra?

“Eu vou treinar a primeira divisão portuguesa (I Liga). Esse é meu objetivo. Vou treinar a Série A aqui no Brasil, esse é meu objetivo também. Não pergunte quando, que não sei. Mas minha caminhada é essa. Vou treinar aqui a Série A, a I Liga do meu país e as primeiras ligas europeias. Meu objetivo de profissão é esse. Acredito que vou, pode ser até que nunca consiga, mas é para isso que me levanto todos os dias e que trabalho”.

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