Dado Cavalcanti analisa saída do Bahia: “A troca foi resultante da pressão das redes sociais”

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Dado Cavalcanti com a taça da Copa do Nordeste de 2021 (Foto: Kely Pereira/AGIF) (Kely Pereira/AGIF)

Guilherme Faber (@fabergui) e Matheus Brum (@matheustbrum)

Dado Cavalcanti tem 40 anos, iniciou a carreira de treinador de futebol na Ulbra-RO em 2006 e com essa experiência não foge das perguntas. Em entrevista exclusiva ao Yahoo Esportes, Dado recordou como foi o seu desligamento do Bahia, clube em que conquistou a Copa do Nordeste de 2021.

“A torcida tem um peso muito grande nas redes e a sequência de resultados ruins, com jogos não tão bons, foi resultante das redes sociais pedindo a troca”, disse o treinador, que admitiu que o trabalho enfrentava uma irregularidade.

“Tínhamos dificuldade de peça de reposição. Ganhamos Copa do Nordeste com três atacantes de lado apenas. Tínhamos necessidade extrema, tanto que foram contratados três jogadores para isso”, explicou Dado Cavalcanti.

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O treinador acrescentou em contato com Yahoo Esportes que recebeu propostas, mas rejeitou. O seu nome foi especulado no Paysandu, clube que já dirigiu entre 2015 e 2016 e, também, em 2018. Dado ainda negou que recebeu contato da diretoria do Papão da Curuzu.

“O Paysandu não me contactou. Não teve contato algum. Não vou pegar nenhum trabalho só para este ano. Até volto a trabalhar, se for um projeto para 2022”, afirmou o técnico.

Veja abaixo a entrevista completa.

Yahoo Esportes: No Bahia você saiu para um estrangeiro. Por quê acha que o presidente do Bahia preferiu um estrangeiro a você?

Dado Cavalcanti: Não tenho direito de responder por ele [Guilherme Bellintani, presidente do Bahia]. Tenho uma relação muito boa com o Bahia. Não mudou nada, nem com a minha saída. Na minha saída, o Guilherme foi muito franco em falar que em outra oportunidade tinha condição e possibilidade de acreditar ainda no meu trabalho e segurar um pouco mais, porque sabia da dificuldade do Bahia. Tínhamos dificuldade de peça de reposição. Ganhamos Copa do Nordeste com três atacantes de lado apenas. Tínhamos necessidade extrema, tanto que foram contratados três jogadores para isso. Retomando, entendo que existe uma terceira força muito grande nesta relação treinador-gestor, que são as redes sociais. A torcida tem um peso muito grande nas redes e a sequência de resultados ruins, com jogos não tão bons, foi resultante [da pressão] das redes sociais pedindo a troca. O que levou ele a trazer um estrangeiro, não tenho condição de entrar neste mérito. Vou falar a minha opinião sobre a escolha.

Atrapalha ou ajuda a sequência do trabalho em meio a tantos vídeos de opiniões de youtubers com seus times declarados?

Particularmente não tenho como mensurar o nível de ascendência. É fato que qualquer clube de massa tem blogueiros. Esses caras têm um pouco mais de ouvido, que o torcedor compactua mais com isso. Esses representantes têm mais ouvidos que a grande mídia televisiva e programas esportivos. Mensurar se é bom ou ruim, não tenho como determinar.

Qual é a sua visão sobre técnicos estrangeiros no Brasil? Realmente precisa trazer em larga escala, haver uma mescla ou dar prioridade para os brasileiros?

Acho que o erro já se inicia no tipo de julgamento quando a gente rotula o estrangeiro do nacional. Nós estamos colocando todos os treinadores estrangeiros no mesmo pacote, assim como os brasileiros. Acho que o ser humano ou o profissional possuem RG. Junto com ele tem características boas ou ruins e há caracterização de cada profissional. Essa condição perde sentido quando inicia a avaliação dos treinadores neste sentido. Visualizo que há uma supervalorização do estrangeiro e uma desvalorização do “rótulo brasileiro”. Não vejo dessa forma. Têm espaço para todos.

De 2019 até agora, há algum técnico que passou por aqui e atrai sua atenção?

Inegável que o Jorge Jesus trouxe coisas novas. Não estou falando da qualidade técnica, o Flamengo tinha a melhor equipe no papel e tinha time para ganhar todas as competições. Mas ele ganhou todas. Quantos têm e não consegue? A forma como venceu dava a condição de ver e gostar do jogo, acho divertido, acho diferente, uma disposição tática, interação entre os atletas, mecanismo de dentro para fora dos atacantes. São atrativos a mais. Então, assim estamos falando de 2019 para cá o Jorge Jesus foi o principal pela conquista e desempenho.

Repercutiu quando Jorge Jesus disse que precisou vir até aqui para ensinar os brasileiros a jogarem sem a bola. Qual sua opinião dessa acusação?

Primeiro quero esclarecer uma condição do que foi dito do Jorge Jesus. Concordo com o conteúdo, mas discordo da ideia que foi passada. Primeiro de tudo existe três formas de marcar do âmbito coletivo: pode marcar individual, por zona e mista, basicamente individualizada no setor ou zona pressão, que é a mais usada no brasil. O Jorge Jesus trouxe ao Brasil a marcação por zona. Implementou. Exerce como referência a bola e o espaço. Prefiro usar a marcação zonal, porque traz à equipe um equilíbrio quando recupera a posse. A equipe vai estar organizada para fazer uma transição, com contra-ataque. [Jorge Jesus] Trouxe a marcação zonal e visualizou que os jogadores do Flamengo tinham dificuldade na marcação por zona, porque no Brasil marcamos mais por encaixe. Marcação por setor com pressão ao homem e encaixe. O Tite cansou de fazer marcação por zona no 4-1-4-1 e marcando em bloco baixo. Concordo que usa muito pouco no Brasil. É um apreço meu dessa marcação.

Você é total conhecedor do elenco do Bahia. Acredita na permanência do Tricolor na Série A ou rebaixamento será inevitável?

O Bahia vai escapar. Se faz necessário dizer o porquê. Não é nada aleatório. Entendo que o Bahia passou por muitas dificuldades. E passei o momento mais delicado, porque culminou as dificuldades esportivas, financeiras e de gestão, que essa sequência foi absurda em muitas ocasiões e culminou com a minha saída. Mas todos sabiam que íamos passar por essa dificuldade. Era um objetivo passar, mas não consegui. Era meio de tabela, jogos difíceis, problemas financeiros por causa da pandemia. Ajustes de entradas de valores que estavam em contrato, mas não entraram. Isso trouxe uma desconfiança do elenco com a direção e dificuldades daquele meio e mudanças de foco. Pensava em salário, pois tinha dívidas. Isso sei que passou. O Bahia hoje conseguiu resolver os 85% dos problemas financeiros. Grupo de jogadores mais equilibrado, que retornou. Guto Ferreira tem uma identificação com o clube. Acredito muito que o Bahia não vai cair.

E esse crescimento do futebol nordestino? O que acha que está causando?

Acho que o primeiro é a gestão. No Bahia tive experiências que não tive em nenhum clube. O presidente e o vice são remunerados. Você foge muito do estatutário, daquele cara que passa o dia no trabalho ou empresa e a noite dá um “pulo” no clube para saber como as coisas estão. No Bahia, tomei café e almocei com o presidente, pois ele vive o clube e viaja todos os jogos. Dedica 24h ao clube. Paralelo a gestão a gente ganha com credibilidade, abrimos espaços para patrocinadores. Como vou investir em um clube que dá calote? Se tem governança, compliance, se tem outras visões, tenho confiança de botar minha marca neste clube. Os clubes nordestinos têm atraído. Não podemos esquecer de um grande benefício é a Copa do Nordeste. Valoriza muito a rivalidade e faz com que outros clubes cresçam na esteira destes três. Vê o CRB brigando pelo acesso, o CSA voltou para a Série A, caiu, mas mantém.

O seu plano é se recolocar no mercado como técnico ou não descarta oportunidade de gestor? Por que no Bahia você era um coordenador da categoria de base.

Essa condição (gestor) está fora. Deixar claro que não era coordenador. Era o treinador da equipe de transição. Através disso tinha um trabalho de coordenador técnico. Era uma condição pedagógica de criar dinâmicas e mecanismo. Nosso ideal era construir a “forma” Bahia de jogar. Do sub-15 até o profissional. Nunca deixei de ser treinador. Não negociava contratação com empresários. Parte administrativa que nunca me meti. Vamos esperar uma nova oportunidade.

Tempos atrás o seu nome ganhou força no Paysandu. Existiu negociação para o retorno?

Nada com Paysandu. Fui surpreendido. Surgiram algumas condições para trabalhar, mas não achei que era para ir. O Paysandu não me contactou. Não teve contato algum. Não vou pegar nenhum trabalho só para este ano. Até volto a trabalhar, se for um projeto para 2022. Não faz sentido assumir oito, dez jogos, na altura do campeonato. Assume 10 para ganhar oito.

O que faltou para ganhar título da Série D com Paysandu em 2011?

Paysandu fez uma campanha regular. Finalizou com 60 pontos. 30 no primeiro e 30 no segundo. As pessoas acham que perdeu o gás. É que no segundo outras equipes ganharam mais fôlego. É aquela coisa de time que pode se reforçar na fase final, aquele último gás para chegar. A gente não teve esse aporte. Era uma equipe que sofria com logística de viagem. Era uma loucura para administrar as recuperações, a malha aérea não era boa. Pegava voos de madrugada. Qualquer lugar no Brasil tem que pegar conexão. Só Fortaleza que não. De resto, no mínimo três horas de voo.

Yago Pikachu tornou-se alvo de desdém tanto pelo apelido e do lugar que nasceu. Descreva o perfil desse atleta que é um dos trunfos do Fortaleza nesta temporada.

O Yago sempre se caracterizou por ser ofensivo. As maiores virtudes são as soluções dos problemas ofensivos para as jogadas. Tem poder de definição muito grande. Todos os treinamentos ele pedia uma sequência de oito a 12 bolas em diagonal à frente pela direita. Ali ele solucionava os problemas dos jogos. Batia cruzado, batia de perna esquerda, cruzava. Já mapeava para poder arrumar os problemas no jogo. Todo treinamento. Se perceberem, pode fazer um exercício, vai ver uma enormidade de gols de chute cruzado entre a meia lua e a quina pelo lado direito. As batidas tem um radar. Isso é fruto de treino e dedicação. Está voltando a se encontrar na posição de origem dele, que é ala. Que é do meio para frente. Não precisa correr 80 m, percorre 30 m e resolve. Muito talentoso. Está se reencontrando no Fortaleza.

Você conseguiu a oportunidade de trabalhar com Henrique Dourado no Mogi Mirim durante o Paulistão de 2013. O que tu acreditas que faltou para o Henrique ter se firmado como um dos principais centroavantes do país?

É muito relativa minha opinião. Pois o Henrique tem uma especificidade muito grande. É um jogador grande, alto e é um cara técnico. Não acostumou a jogar com o corpo, como Washington “Coração valente”, Fred, sempre buscar pivô e escora. O Henrique saiu de um eixo bem baixo. À medida que o grau de dificuldade foi aumentando, defensores mais perspicazes, nessa condição o Henrique tentou migrar seu jogo. Tentar usar mais o corpo, ser o cara mais bruto de trombada, que nunca foi. Neste hiato, ele estava na condição de “Quem sou eu?” Sou técnico ou “pivozão”? Penso eu que neste contexto a especificidade fez com que o Henrique não seja top no futebol nacional. Mas continuo admirando muito o Henrique, pois funciona muito bem na minha equipe. É móvel, sabe sair da área, não é pé “duro”.

Há alguém da imprensa que você nunca mais quer ver ou no geral o trato sempre foi bom?

Toda regra tem exceção. Em linhas gerais sou bem relacionado com a imprensa. Tem as pessoas que não merecem ser faladas e lembradas. A gente sabe que, deixar claro, que não é para generalizar. Tem caras que não prestam, que não honram a classe que eles representam. A gente nem liga.

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