Da crise à glória: a redenção do Fortaleza

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Jogadores do Fortaleza festejam título da Série B 2018: três taças em seis meses (Foto: Fortaleza EC)
Jogadores do Fortaleza festejam título da Série B 2018: três taças em seis meses (Foto: Fortaleza EC)

Por Afonso Ribeiro

19 de abril de 2017. O apito final do árbitro César Magalhães encerrou a participação do Fortaleza no Campeonato Cearense ainda na semifinal e iniciou um período de transformação no clube. 29 de maio de 2019. O último sopro no apito de Caio Max Vieira decreta a conquista do terceiro título do Tricolor em 200 dias - pouco mais de seis meses - e a redenção de um clube que foi da crise à glória em dois anos.

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"É dessa maneira que a gente vai marcando história, cravando o nome no clube e fazendo com que o clube cresça e viva um momento espetacular", disse o goleiro e capitão Marcelo Boeck, que chegou ao Pici no início de 2017. “Continuo afirmando que é a maior e melhor fase da história do clube, e nós temos que preencher isso com títulos e conquistas inéditas", completou.

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As reformas estruturais na sede e no CT, a obsessão por troféus e a fase vencedora coincidem com a presença de Rogério Ceni no clube há um ano e seis meses. Mas a reviravolta do Leão do Pici iniciou bem antes disso. Em 771 dias, foram quatro presidentes (três eleitos e um interino), três técnicos - além de Ceni - e algumas dezenas de jogadores, com quatro conquistas: acesso da Série C em 2017, taça da Série B em 2018 e títulos do Campeonato Cearense e Copa do Nordeste em 2019.

"Eu não tinha condições ainda de fazer um planejamento quando cheguei. O que eu faço é tentar sempre motivar esses caras, selecionar ao máximo os caras na construção de elenco dentro das possibilidades salariais que o clube tem e torná-los competitivos”, ponderou Rogério Ceni.

"As coisas foram acontecendo conforme o clube foi cada vez mais se organizando administrativamente, a sinergia com o torcedor, que é fundamental, e os resultados foram aparecendo. Não vou dizer que era algo idealizado, mas o Fortaleza, como time grande, pela torcida e história que tem, tem que estar brigando em grandes competições", afirmou o presidente Marcelo Paz em entrevista à Fox Sports.

Tricolor bateu o Botafogo-PB e conquistou a Copa do Nordeste pela primeira vez (Foto: Gustavo Simão/Fortaleza EC)
Tricolor bateu o Botafogo-PB e conquistou a Copa do Nordeste pela primeira vez (Foto: Gustavo Simão/Fortaleza EC)

O trajeto foi tortuoso. Exigiu articulação política, injeção financeira milionária, mudança no modelo de gestão, idas e vindas de jogadores, ousadia e suporte da torcida. O Yahoo Esportes ouviu dirigentes e funcionários do clube que participaram deste intenso período para explicar a revolução tricolor.

Eliminações, crise e renúncia

Para explicar o 2017 do Fortaleza, é preciso voltar a 2016. Após mais duas tentativas frustradas de retornar à Segunda Divisão do Brasileiro, o clube passou por eleições presidenciais. O então mandatário Jorge Mota foi reeleito, mas o clima político permaneceu conturbado. O elenco foi reformulado, o técnico Hemerson Maria foi mantido e o ex-volante César Sampaio foi contratado como executivo de futebol para a nova temporada, mas as eliminações precoces da Copa do Brasil e do Nordestão – ambas na primeira fase – forçaram uma mudança de rota.

Após bom trabalho no ano anterior e rápida passagem pelo Figueirense, Marquinhos Santos retornou ao Pici para comandar a equipe com a missão de chegar à final do Estadual e planejar o trabalho para a Terceirona. A situação, porém, agravou-se: já pressionado no ano, o Tricolor não conseguiu vencer o Ferroviário em três jogos da semifinal (derrota por 2 a 0 e empates em 1 a 1 e 0 a 0) e deu adeus à competição.

Leão foi eliminado pelo Ferroviário no Estadual de 2017 e viveu crise intensa (Foto: Saulo Roberto/Fortaleza EC)
Leão foi eliminado pelo Ferroviário no Estadual de 2017 e viveu crise intensa (Foto: Saulo Roberto/Fortaleza EC)

A cobrança e os protestos da torcida deram o tom dos dias seguintes à eliminação. Sem as cotas das competições e previsão de renda de jogos, a situação financeira ficou ainda mais grave. Só restou uma solução para o presidente Jorge Mota e os vices Enio Ponte Mourão e Evangelista Torquato: a renúncia. Marquinhos Santos também acabou demitido.

"A situação do clube era bem complicada porque havia um esgotamento financeiro, o clube não tinha receitas por não ter avançado nas competições do início do ano. Era um elenco grande, de resultados técnicos ruins, e um ambiente de pressão política enorme, torcida insatisfeita. Era um cenário meio caótico, que culminou com a saída dos presidentes eleitos. Eles saíram numa boa, sem briga ou vaidade, entenderam que era o momento de abrir espaço”, relembrou Marcelo Paz ao blog.

Reuniões e articulações definem novo presidente

A renúncia do trio eleito meses antes só foi efetivada em 2 de maio. Neste intervalo de 13 dias, a partir da eliminação do Cearense, uma ala política do clube se movimentou e passou a realizar reuniões para definir o próximo presidente. A ideia era escolher um nome novo, sem qualquer ligação com gestões anteriores para amenizar a pressão, e capacitado para administrar o clube.

Dois nomes lideraram a disputa: os empresários Geraldo Luciano, vice-presidente do Grupo M. Dias Branco, e Luis Eduardo Girão. O primeiro alegou incompatibilidade de agenda, e o segundo topou, apesar de morar nos Estados Unidos. Acertou que seria presidente até o final do Brasileiro e depois passaria o bastão para Marcelo Paz, que era diretor de futebol e passou a acumular a vice-presidência.

Até a eleição de Girão, que foi candidato único, em 10 de junho, o Tricolor foi comandado de forma interina por Marcello Desidério, então mandatário do Conselho Deliberativo e ex-presidente do clube, e por um Conselho Gestor formado por três dirigentes durante quase 40 dias.

“Como então Presidente do Conselho Deliberativo do Fortaleza, me coube assumir interinamente a presidência da diretoria do clube, com a missão de dirigir o clube e realizar o processo eleitoral. Já existia o consenso de que o Eduardo seria o próximo presidente da Diretoria Executiva. E desde minha interinidade passamos, Eduardo, Paz e eu, a administrar o clube em conjunto”, relatou o atual vice-presidente Marcello Desidério.

Injeção financeira, dois técnicos e acesso

Em conversas mais profundas e extensas sobre o Tricolor, Luis Eduardo Girão costuma traçar semelhanças entre a história do clube e a Revolução Francesa, período do país europeu que culminou com a derrocada da monarquia e ascensão da democracia – há uma relação histórica entre a agremiação e a França, inclusive as cores. Não à toa, o novo mandatário procurou executar os três pilares: liberdade, igualdade e fraternidade. O último, provavelmente, foi a maior marca – e principal legado – da curta gestão.

“A chegada do Luis Eduardo foi absolutamente fundamental na transformação do Fortaleza, porque ele trouxe uma injeção financeira grande para deixar tudo em dia e fazer contratações e também buscou trabalhar muito a união da família tricolor", confirmou Marcelo Paz.

“Creio que o fundamental foi a pacificação que o Eduardo conseguiu promover. Claro que o saneamento financeiro foi importante e o resultado em campo foi um facilitador. Mas a união vinda da pacificação política tornou tudo possível”, falou Marcello Desidério.

Sem experiência na gestão do clube, Girão manteve parte da diretoria anterior, aproximou-se de ex-presidentes e ídolos do clube, como o ex-atacante Clodoaldo, e promoveu cultura de paz com o rival Ceará – chegou a assistir a um Clássico-Rei ao lado do mandatário alvinegro, Robinson de Castro. Implementou uma reestruturação na administração, com cortes de funcionários em vários setores. E realizou aportes financeiros para quitar os três meses de salários atrasados e dar fôlego para o restante do ano. No total, o montante chegou próximo a R$ 7 milhões.

O experiente Paulo Bonamigo, com passagem pelo clube em 2007, foi escolhido como treinador para a Série C. A equipe, que ganhou alguns reforços após o Estadual, teve bom início, mas caiu de rendimento e não mostrava sinais de reação. Se inicialmente o temor era ser rebaixado para a Série D devido à crise na temporada, o receio passou a ser não conseguir avançar às quartas de final para disputar o acesso.

O mandatário resistiu, mas foi convencido de que era hora de mexer no comando técnico às vésperas do final da primeira fase. Bonamigo deu lugar a Antônio Carlos Zago, que subira com o Juventude diante do Leão no ano anterior, em pleno Castelão. O triunfo apertado sobre o Moto Club carimbou vaga para a fase seguinte. A vitória por 2 a 0 sobre o Tupi, em casa, garantiu o acesso mesmo com a derrota por 1 a 0 em Juiz de Fora. Era o fim de um peso de sete anos com o retorno à Segunda Divisão.

Fortaleza superou o Tupi na Série C e conseguiu o acesso para a Segunda Divisão após oito anos (Foto: Deborah Cinthia/Fortaleza EC)
Fortaleza superou o Tupi na Série C e conseguiu o acesso para a Segunda Divisão após oito anos (Foto: Deborah Cinthia/Fortaleza EC)

Nova renúncia e técnico novo

Com missão cumprida ao final do certame nacional - o Leão ainda ficou com o vice-campeonato -, Luis Eduardo Girão executou o combinado e renunciou à presidência para retomar a vida nos EUA, no início de novembro. O último ato foi o contato inicial entre Fortaleza e Rogério Ceni, na sede do clube, de maneira informal.

Marcelo Paz assumiu o cargo e contratou o treinador. Sonhava em dar o salto direto para a Série A e melhorar a estrutura física do clube, agregando a visibilidade ao ex-goleiro. Deu carta branca para o estilo de trabalho do técnico paranaense, tanto dentro quanto fora de campo, e colheu os frutos antes do esperado em um ano de calendário esvaziado devido aos insucessos de 2017, apenas com Estadual e Série B.

Além das reformas estruturais solicitadas pelo novo comandante, o mandatário aprofundou as mudanças na gestão. Reforçou setores como marketing e licenciamento para gerar novas receitas, contratou uma empresa de consultoria, aprovou a remuneração dos dirigentes estatutários (presidente, os dois vices e os demais diretores) e viu um salto no número de sócios, hoje na casa dos 30 mil.

"O trabalho extracampo é determinante, de gestão, equilíbrio financeiro, busca de novas receitas, criatividade para ‘fazer’ dinheiro novo, conseguir a credibilidade junto ao torcedor. É uma série de passos e situações que o extracampo reflete diretamente no campo. Quando o ambiente está propício e organizado, passa segurança e estabilidade, reflete na comissão técnica e nos jogadores", refletiu o mandatário.

Três taças em seis meses

Rogério Ceni sentiu o gosto amargo da derrota e ficou com a medalha de prata na primeira final à frente do Fortaleza, no Estadual de 2018, contra o Ceará. A pressão da torcida o balançou no cargo, mas ele seguiu firme. E encerrou a temporada com o título inédito da Segundona, em 10 de novembro, diante do Avaí. A campanha histórica, com liderança quase absoluta, abriu caminho para novas conquistas.

Após renovar contrato para 2019, precisou trabalhar na remontagem do elenco e em um novo modelo de jogo. Encontrou um esquema ousado, com quatro atacantes, e levantou mais duas taças: do Campeonato Cearense, com duas vitórias sobre o arquirrival alvinegro na decisão (2 a 0 e 1 a 0), e da Copa do Nordeste, também com dois triunfos sobre o Botafogo-PB na final (ambos por 1 a 0).

A equipe comandada por Rogério Ceni também ficou com o troféu do Cearense 2019 (Foto: Leonardo Moreira/Fortaleza EC)
A equipe comandada por Rogério Ceni também ficou com o troféu do Cearense 2019 (Foto: Leonardo Moreira/Fortaleza EC)

A fase vitoriosa na nova carreira desperta a atenção de outros clubes, o que levou o treinador a descartar alguns convites neste período, como a sondagem do Atlético-MG, em abril.

A conquista de dois títulos inéditos e as três voltas olímpicas em pouco mais de seis meses marcam Rogério Ceni como o maior treinador do Fortaleza. Questionado de que forma está na história do clube, após a conquista do Nordestão, em João Pessoa, ele resumiu: “Da mesma maneira que o Fortaleza está na minha história”.


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