Cuca projetou Santos na final da Libertadores e está a um passo dela

ALEX SABINO E KLAUS RICHMOND
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SÃO PAULO E SANTOS, SP (FOLHAPRESS) - Assim que chegou ao Santos, em agosto de 2020, Cuca reuniu os jogadores no auditório do centro de treinamento. Fez a eles duas projeções: o time terminaria a temporada entre os oito melhores do Campeonato Brasileiro e seria finalista da Copa Libertadores. A dez rodadas do fim, está em oitavo no Nacional. A previsão até então considerada mais improvável pode se concretizar nesta quarta-feira (13). O clube está a 90 minutos da decisão do torneio sul-americano ao receber o Boca Juniors no segundo jogo da semifinal, às 19h15 (com transmissão da Fox Sports), na Vila Belmiro. Vitória por qualquer placar classifica os brasileiros. Novo empate em 0 a 0 leva a partida para os pênaltis. Igualdade com gols ou vitória do Boca coloca os argentinos na final. "Fizemos uma análise e projetamos ir até o fim na Libertadores. Falta um jogo, que é o mais difícil que tem. Mas ainda falta", afirma o treinador à reportagem. Ele atuou pelo Santos como jogador em 1993, quando o Santos vivia jejum de títulos que já durava nove anos e terminaria apenas em 2002. Agora, está em sua terceira passagem no comando da equipe. Na anterior, em 2018, o time acabou eliminado da Libertadores após um erro administrativo. Cuca não foi avisado de que o uruguaio Carlos Sánchez estava suspenso e o escalou nas oitavas de final diante do Independiente (ARG). O jogo terminou 0 a 0, mas os brasileiros foram declarados derrotados por 3 a 0. Fazer projeções não é algo novo na carreira de Cuca. Em 2016, ele disse com meses de antecedência que o Palmeiras seria campeão brasileiro. Aconteceu. "Eu sabia que ia dar certo [no Santos]. Já conhecia a maioria dos jogadores, o ambiente do clube, a cidade", diz. Se passar pelo Boca, o time alvinegro decidirá o título no Maracanã, dia 30, contra o vencedor do confronto entre Palmeiras e River Plate. O segundo duelo acontece nesta terça (12), no Allianz Parque. Em Buenos Aires, os paulistas venceram por 3 a 0. Nos últimos cinco meses, Cuca tem sido mais do que o treinador do Santos. Ele chegou para substituir o português Jesualdo Ferreira com José Carlos Peres como presidente, mas este acabou afastado do cargo por má gestão. Passou pela gestão do ex-vice Orlando Rollo e agora está sob a administração de Andrés Rueda, eleito no fim de 2020. Por causa da instabilidade e da crise financeira, o técnico foi obrigado a ser também psicólogo do elenco e cumpriu papel de dirigente algumas vezes. Telefonou para o goleiro Everson e o atacante Eduardo Sasha, ambos em litígio com o Santos, e pediu que eles entrassem em acordo, sem brigas judiciais. Os dois estão hoje no Atlético-MG. "Se um desses meninos [Everson e Sasha] ganhassem na Justiça, não tenha dúvida de que outros fariam o mesmo", afirma. "Este é o clube em que mais participei [da gestão]. Sempre fui treinador de campo e quero ficar lá, porque isso [atuar em negociações] desgasta muito, meu Deus do céu! Teve o negócio do Luan [Peres, que renovou contrato], do Lucas Veríssimo [negociado com o Benfica, mas ainda no elenco]. São coisas que tiram o sono todos os dias", completa. O técnico tenta tranquilizar o grupo por causa dos atrasos de salários, premiações e direitos de imagem. Ele reconhece que há problemas, mas não considera isso o mais importante no momento. Não deseja afetar o entusiasmo da equipe. A preparação para enfrentar o Boca Juniors na Vila começou ao levar todos os titulares para o clássico diante do São Paulo, no último domingo (10). Com os reservas em campo no Morumbi, o Santos venceu por 1 a 0. Foi o jeito que Cuca encontrou para manter todos concentrados. "Estou o tempo todo atento a isso", relata, lembrando que tem à mão um elenco jovem e pouco experiente. Apenas Madson e Soteldo haviam atuado em La Bombonera na carreira antes da primeira semifinal contra o Boca. Um dos maiores exemplos é o atacante Kaio Jorge, antes criticado por não fazer gols, mesmo que tivesse grande importância tática. Nas quartas de final, diante do Grêmio, o centroavante fez três dos cinco anotados pelo Santos nos dois jogos. "O que o Kaio Jorge amadureceu com relação ao início do campeonato é absurdo. Se continuar assim, tem coisa maravilhosa para ele lá na frente. Tanto no tático, físico, comportamental... Um jogador incomodado com a parte tática, ele é para o futebol europeu a curtíssimo prazo", analisa, o comparando a Rodrygo, também revelado pelo Santos e hoje no Real Madrid. Cuca já teve três goleiros titulares em cinco meses. Começou com Vladimir, que se lesionou. João Paulo assumiu a posição e a perdeu para John. Com Covid-19, este último não enfrentará o Boca. João Paulo jogará. Nenhum deles decepcionou, o que o treinador classifica como "coisa de Deus". No meio do caminho, o comandante também contraiu o vírus e foi hospitalizado. Ele, que no fim de 2018 passou por cirurgia no coração, ficou na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) por quatro dias e tão fraco que não conseguia nem sequer se sentar para receber medicações. Seu sogro morreu cinco dias após contrair a doença, e Cuca tem na cabeça a ideia de que possa ter sido o responsável por infectá-lo. Todo esse contexto o faz ficar muito irritado com a insinuação de jornalistas argentinos de que o Santos jogou em Buenos Aires já sabendo que John estava contaminado. O teste do goleiro deu positivo após a partida, no retorno ao Brasil. "É um absurdo falarem isso. Somos macacos velhos no futebol, sabemos que tem um interesse nisso que não é médico ou clínico. Querem desfocar o pênalti que absurdamente não foi dado lá. Por isso falam que colocamos um jogador irregular, sabendo que o teste da Conmebol foi feito e estavam aptos para jogar. Podem ter contraído na viagem, na Argentina, não sabemos ao certo como é o virus", ele diz. Um pênalti cometido sobre Marinho e não marcado pela arbitragem provocou grande revolta dos brasileiros. Cuca não aceita falar sobre uma eventual final. Muito menos sobre a possibilidade de disputar o Mundial de Clubes, torneio em que participou em 2013 com o Atlético-MG. Acabou derrotado na semifinal pelo Raja Casablanca, do Marrocos. A prioridade é apenas o Boca. O treinador não muda sua rotina. Todos os dias, ao chegar e antes de ir embora do clube, vai à capela do CT rezar. Tem separada sua camisa com imagem de Nossa Senhora que usa nos jogos. Está atento ao comportamento dos seus jogadores, principalmente os mais jovens. São eles que podem levar o Santos à final do principal torneio sul-americano depois de nove anos. "Eu respiro isso e moro aqui, tenho um desgaste grande. Não vejo família, mulher, filhas, neta. Eu me dou inteiro. Depois preciso me reciclar, me regenerar de tanta entrega. Por isso não quero falar nada sobre o futuro. Quero guardar toda a minha energia para esse final de Libertadores e para o Boca", encerra. SANTOS João Paulo; Pará, Lucas Veríssimo, Luan Peres, Felipe Jonatan; Alison, Diego Pituca, Soteldo; Marinho, Kaio Jorge, Lucas Braga (Sandry). T.: Cuca BOCA JUNIORS Andrada; Leonardo Jara, Lisandro López, Izquierdoz, Fabra; Campuzano, Diego González, Salvio, Villa; Tevez Soldano. T.: Miguel Ángel Russo Estádio: Vila Belmiro, em Santos (SP) Horário: 19h15 desta quarta-feira Juiz: Wilmar Roldán (COL)