Cuca admite que chegadas de Jesus e Sampaoli fizeram bem ao Brasil: "trouxeram novas ideias"

Goal.com

Longe do futebol desde que deixou o São Paulo em setembro do ano passado, Cuca está pronto para voltar ao trabalho assim que a pandemia do coronavírus der uma trégua e permitir o retorno dos campeonatos. Próximo de completar 57 anos, o treinador não descarta sair do Brasil novamente e diz ter chegado a hora dos técnicos brasileiros olharem também para o mercado sul-americano. 

Foi com esse pensamento que Cuca quase acertou com o Colo-Colo, do Chile. A negociação ficou por "detalhe": "veio a pandemia que acabou esfriando tudo". Em um bate-papo exclusivo com a Goal, o treinador comentou a negociação com os chilenos, o bem que fez ao futebol brasileiro os trabalhos de Jorge Sampoli e Jorge Jesus, a saída sem mágoas do São Paulo, entre outros assuntos. 

Goal.com: Você está fora dos campos desde que deixou o São Paulo, já está pronto para voltar depois da pandemia?

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Cuca: "Estou 110%. Depois da minha saída do São Paulo eu tive algumas procuras, alguns clubes do Brasil e do exterior, mas a gente achou melhor esperar um pouquinho mais para fazer um trabalho do começo e esperar as coisas clarearem um pouco e depois dessa pandemia a gente espera voltar, seja aqui no Brasil ou no exterior". 

Cuca treino São Paulo 2019
Cuca treino São Paulo 2019

Goal.com: Falando em exterior, você estava conversando com o Colo-Colo, do Chile. É um desejo seu trabalhar fora nesse momento?

Cuca: "Apareceu uma situação forte no Colo-Colo, eu já tinha acertado e faltou um detalhe. No meio desse detalhe veio a pandemia que acabou esfriando tudo. É um mercado bom, uma equipe grande, de tradição, campeã da Libertadores e como ela tem outros grandes clubes. O que eu penso é que o treinador brasileiro que quer uma saída agora, seja eu ou outro, a gente tem que fazer um bom trabalho lá fora, não para abrir campos para nós, mas para outros e também mostrar que no Brasil tem grandes treinadores assim como no exterior. Hoje temos treinadores estrangeiros fazendo grandes trabalhos aqui e quando um de nós sair, a gente tem que fazer um grande trabalho lá fora também". 

Goal.com: Já passou da hora de os treinadores brasileiros começarem a se posicionar fora do Brasil?

Cuca: "Sim, mas vai muito de oportunidade também. Quem teve? O Lazaroni, Autuori, Felipão no Chelsea, o Vanderlei teve uma passagem pelo Real Madrid, estamos falando de Europa forte. Vamos torcer para que daqui há pouco o brasileiro possa ter uma proposta e sair. E na América do Sul também. Por que não um brasileiro dirigir o Boca? Um River, um Estudiantes, fazer um grande campeonato lá e mostrar a qualidade. 

"Essa vinda dos estrangeiros(Sampaoli e Jesus) para cá está sendo boa. Eles trouxeram novas ideias, não táticas, o que o Jorge Jesus fez por exemplo, mudou o estilo do Flamengo jogar, roubar a bola no ataque. Se você lembrar o Flamengo sempre foi um time técnico de sair jogando, mas sem grande pegada. Agora todo mundo quer roubar a bola, ficar com a bola. Essa mentalidade faz todo mundo pensar diferente, num futebol mais agressivo, mais ofensivo e é isso o que faz bem para nós, o brasileiro gosta disso, não ficar lá atrás defendendo, a gente gosta de jogo mais jogado, essa vinda deles ajudou muito nisso". 

Gabigol Jorge Jesus Flamengo 04 12 2019
Gabigol Jorge Jesus Flamengo 04 12 2019

Goal.com: Pelo poderio financeiro, você acredita que o Campeonato Brasileiro pode ficar por muito tempo nesta disputa restrita a Flamengo e Palmeiras?

Cuca: "As coisas vão mudando, dei uma outra entrevista e falei que são 12 times que brigam pelo título, mas não fui sincero, tinham 12 times que lutavam, hoje tem meia dúzia porque vai ficando um escalão A, um escalão B e um escalão C, antes era um escalão A dos 12. Aqueles que melhores se organizam, que tem uma saúde financeira melhor, que conseguiram fazer ajustes melhores fazem parte da meia dúzia. O pessoal fala que o Flamengo vai disparar, eu não sei, tem outras potências que podem estar junto com ele. O que é bom é que se ninguém abrir o olho ele dispara mesmo. Por isso, outras equipes tem que montar times fortes para não abrir mão do título."

Goal.com: Você costumava ser conhecido por montar bons times sem gastar muito, você acha que isso ainda é possível?

Cuca: "Em 2004 eu vim para o São Paulo e trouxe uma base forte do Goiás, trouxe o Josué, o Danilo, o Fabão, o Graffite, encontramos o Mineiro no São Caetano, o Rodrigo zagueiro na Ponte, o Cicinho no Galo, montamos uma equipe muito boa, mas hoje onde você consegue ir buscar jogadores desse nipe para trazer para o seu time? Vou dar um exemplo, eu gostei do Martinelli, falei com o Raí para buscarmos ele, óitmo jogador. Falamos com o Juninho, vamos levar o Martinelli para o São Paulo e ele disse, Cuca não dá, ele já tem três, quatro times na Europa querendo. As coisas mudaram. Há dez anos, aqueles jogadores tinham uma visibilidade, hoje eles estão indo para a Europa cada vez mais cedo. Além disso, você dirigindo um time grande hoje com jogadores emergentes, acha que vai ter paciencia da diretoria? Não vai ter. Aí troca o comandante e você perde tudo que começou a montar"

Goal.com: Você conquistou muitos títulos, mas qual foi a sua maior frustração como treinador?

Cuca: "Minha maior frustração foram duas, uma delas é não ter conseguido um título com o Botafogo, isso me frustra muito porque a gente estava jogando muito em 2007, 2008 e merecia uma conquista, seria importante. As derrotas elas marcam mais do que as vitórias, quando você ganha, você vai e comemora, toma um vinho, uma cerveja, curte e pronto. Mas a derrota te massacra, porque você fica remoendo nas noites, pensando no que poderia ter feito de diferente. Algumas aconteceram para mim, no São Paulo em 2004, na Libertadores, a derrota para o Once Caldas. E a do Atlético para o Raja no Marrocos, foi outra que me marcou bastante".

Goal.com: Falando em São Paulo, o que aconteceu ali na sua saída, houve algum problema com o Daniel Alves? 

Daniel Alves se encontra com Cuca no CT do São Paulo
Daniel Alves se encontra com Cuca no CT do São Paulo

Cuca: "Quem pediu a contratação do Daniel Alves fui eu, não seria justo falar algo contrário. Ele e Juanfran, foi um pedido meu junto com Leco, Raí. Eu saí do São Paulo da maneira que eu tinha que sair, pela porta que eu entrei, sem atirar contra ninguém até porque não tinha motivo para fazer isso. Em 2017, mais ou menos na mesma época, eu saí do Palmeiras e eu sou assim, não ponho multa nos contratos para ficar preso ao lado financeiro. Quando eu senti no Palmeiras de 17 que não via evolução na equipe na reta final eu saí, a mesma coisa no São Paulo, eu não estava vendo a evolução que era necessária. Me reuni com a diretoria, expliquei, eles foram contra num primeiro momento, mas depois entenderam".

Goal.com: O que achou da Atlético-MG ter contratado Jorge Sampaoli?

Jorge Sampaoli comanda treino do Atlético-MG
Jorge Sampaoli comanda treino do Atlético-MG

Cuca: "Achei bom demais, acho que o Atlético-MG acertou na mosca. É o treinador mais tático que teve no Brasileirão do ano passado, mais tático até que o Jorge Jesus, muda de esquema de jogo para outro jogo e isso é uma coisa difícil, tem que ter uma aceitação muito grande por parte dos jogadores, ter o resultado, tem que vir e ele fez muito isso, acabou fazendo um grande campeonato pelo Santos. Eu não disse que ele é melhor que o Jorge Jesus, disse que é mais tático, o Jesus tem a forma dele trabalhar, busca em cima daquela maneira a perfeição e não à toa foi o merecido campeão".

Goal.com: Você trabalhou com grandes jogadores, mas quem foi o melhor que você já dirigiu?

Cuca: "Em termos técnicos, o Ronaldo. A técnica dele, para você ter uma ideia, na Libertadores os caras colocavam dois em cima dele, para mim era bom porque sempre ia sobrar alguém livre, o Bernardo, o Jô, o Tardelli. E a inteligência dele, levei ele para ser o 10, a cabeça pensante daquele time, ele deixava o Bernard na cara do gol quando ninguém esperava, ele tem uma visão de jogo muito apurada".

Goal.com: Você disse que levou ele para ser o 10, como foi essa chegada dele? Que papel você teve nisso?

Ronaldinho Cuca Atlético-MG Treino 08062012
Ronaldinho Cuca Atlético-MG Treino 08062012

Cuca: "Na chegada dele foi assim, eu estava assistindo tv lá na Cidade do Galo e aí vi que ele tinha brigado com o Flamengo. Eu liguei para o Kalil e disse, está aí o nosso 10, o que precisamos. O Kalil estava negociando com o Juninho Pernambucano e disse, mas como?. Então eu falei: é ele. Dois dias depois ele colocou o Ronaldo lá dentro. Foram muitas críticas na época, ele tinha saído mal do Flamengo, diziam que a gente estava fazendo besteira e acabou que o casamento foi perfeito, ele deu aquele ajuste para o Galo e o Galo também deu a ele, que ele pudesse encerrar a carreira daquela forma, jogando o que ele jogou, foi maravilhoso". 

Goal.com: O Ronaldinho te ajudou a conquistar uma Libertadores, e o Dudu também foi outro jogador importante em um título de peso, te ajudou no Brasileirão com o Palmeiras, aliás vinha jogando muito bem nos últimos anos, mas nunca teve oportunidades na seleção brasileira.... 

Cuca: "Sou suspeito para falar do Dudu porque ele jogou comigo no Cruzeiro em 2010, começou lá, já era um guri maravilhoso, depois no Palmeiras me ajudou e ajuda o Palmeiras até hoje, o que ele jogou nos últimos dois anos, na minha ótica, era passível de seleção, mas vai da cabeça de cada treinador. O Tite tem a cabeça dele, os planos dele, a gente tem que entender, as opções são muitas também, mas eu gosto muito do Dudu e para mim ele seria um selecionável". 

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