Cruzeiro x Atlético completa 100 anos com discordância sobre números

Leandro Silveira
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Cruzeiro e Atlético completam cem anos de rivalidade dentro de campo em 2021 e com um impasse fora dele sobre um dos maiores clássicos do futebol brasileiro. Ao se enfrentarem neste domingo, às 16h, no Mineirão, os clubes contabilizarão de modo diferente o confronto nos seus registros.

Para o Cruzeiro, mandante da partida, pelo Campeonato Mineiro, será o 497.º jogo. Nas contas atleticanas, porém, o duelo vai acontecer para 515.ª vez. Uma diferença de 18 partidas provocada por critérios de avaliação e dificuldade de encontro do registro de alguns jogos dos primeiros anos da rivalidade.

— O Cruzeiro alega que o Atlético contabiliza clássicos com segundo quadro ou aspirantes. A dificuldade, assim, não se resume só ao início do clássico, mas principalmente durante quatro décadas em que amistosos eram importantes no calendário e no desenvolvimento do futebol mineiro, pois só havia o Estadual. Há exageros nas duas partes, pontos para ceder e convencer — explica Vitor Dias, pesquisador do futebol mineiro.

Fato é que o centenário do clássico será completado no próximo sábado, afinal, em 17 de abril de 1921, o então Palestra Itália, fundado meses antes, venceu o Atlético por 3 a 0, no Prado Mineiro. Ali, se iniciava a história do confronto. E as controvérsias — o alvinegro atuou com uma formação basicamente reserva, ainda que reforçada por alguns dos seus principais atletas. Mas contabiliza o jogo.

Também é dos anos 1920 a maior diferença nos registros. Em 12 de novembro de 1922, um amistoso terminou com vitória atleticana, por 2 a 0, de acordo com o clube. Mas o Cruzeiro defende que os times empataram por 2 a 2.

— As fontes de dados eram escassas, a imprensa de Belo Horizonte não cobria esporte com muita frequência. Era uma época um pouco obscura. Os registros nos jornais começam a aparecer com frequência em 1926. A partir daí, não há muita dúvida sobre placares — justifica Vitor Dias.

As dúvidas sobre a existência, a validade e mesmo os placares de clássicos até foram diminuindo com as décadas, pela profissionalização do futebol e pelo aumento dos registros dos jogos. Mas nunca se dissiparam. E se dão por diferenças na metodologia, no tempo histórico da captação e consolidação das informações dos primeiros anos, pela falta de dados oficiais dos clubes e da Federação Mineira de Futebol (FMF), algo que se tornou mais sistematizado na década de 1960.

— O futebol mineiro demorou a se organizar em comparação a outros estados — afirma Emmerson Maurilio, gerente de multimídia do Atlético-MG e hoje responsável pela memória do clube, lembrando que documentos foram queimados na sede da FMF nos anos 1980.

Discordâncias recentes

A pesquisa do Atlético se balizou pelo trabalho pioneiro de Adelchi Ziller, pesquisador da história do clube e responsável por lançar uma enciclopédia em 1974. E a avaliação é de que seu critério pode ter abarcado jogos que não tinham caráter oficial. Porém, o trabalho está em atualização, tanto que Maurilio admite que a lista de clássicos pode ser atualizada.

— Estamos passando um pente fino e alguns números e jogos podem mudar — diz.

No Cruzeiro, a principal referência é o trabalho realizado por Henrique Ribeiro, que lançou nos anos 2000 um almanaque com todos os jogos do time. Desde então, o clube usa seu arquivo como referência. Mas hoje, em grave crise financeira, nem conta com um profissional destacado para responder pela sua história.

— A diferença se dá nos jogos amistosos, alguns deles com duração inferior aos 90 minutos regulamentares. Em algumas oportunidades, foram disputados amistosos e até mesmo jogos-treino, com Cruzeiro ou Atlético entrando em campo com a equipe formada apenas por aspirantes — defende Alisson Guimarães, chefe de comunicação do Cruzeiro. —

— Parecem engessados, com um rigor demasiado — pondera Vitor Dias.

O impasse, assim, parece insolúvel mais pelas discordâncias de avaliação do que pela falta de registros, como mostram discrepâncias dos anos 1990. Curiosamente, só o Atlético contabiliza um clássico, vencido pelo Cruzeiro, válido pela Copa Dener, torneio disputado em 1994, em que os times eram compostos, basicamente, por jogadores reservas e dos juniores. É uma exceção, pois outros clubes participantes do torneio e historiadores não levam o torneio em consideração.

Já em 1997, a Copa Centenário reuniu times como o português Benfica e o italiano Milan para celebrar o aniversário de Belo Horizonte. O clássico, vencido pelo Atlético, é ignorado pelo Cruzeiro. Envolvido na final da Libertadores, usou um time de jovens e sem o seu técnico, mas reforçado por atletas experientes, como Cleisson e Roberto Gaúcho.

fla-flu unificou dados

Essa diferença de registro vai contra a tendência de unificação das estatísticas, mas nada indica que irá mudar.

— Os números podem estar unificados, mas diferentes. Se o meu time principal joga com o misto do Cruzeiro e não entra no critério deles, isso só vai entrar no meu levantamento — defende Maurilio.

Recentemente, o Fla-Flu resolveu o seu impasse e chegou a um consenso: são 431 confrontos. Se tornou numerado, uma tradição gaúcha do Gre-Nal, que contabiliza 430 clássicos. Ou mesmo do paraense Re-Pa (Remo x Paysandu), hoje em 760.

Essa diferença levou três jornalistas a um desafio: contabilizar, em um livro, os dados do clássico mineiro. O trabalho vem sendo realizado por Alexandre Simões, Cristiano Martins e Wallace Graciano, e será transformado em um almanaque. Segundo eles, se o centenário do clássico está para ser comemorado, o jogo 500 deve ficar para 2022.

— Quando se tem uma exatidão histórica para balizar o presente, você consegue vendê-lo como produto. Os clubes pecam nisso, é um desrespeito com a rica trajetória deles. É um desperdício comercial — conclui Graciano.