Cristiano Ronaldo terá camelos como vizinhos no Qatar, e Messi, estudantes

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF - O atacante português Cristiano Ronaldo em lance de disputa de bola com jogadores de Gana. (Foot: Sergio Lima/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF - O atacante português Cristiano Ronaldo em lance de disputa de bola com jogadores de Gana. (Foot: Sergio Lima/Folhapress)

AL SHAHANIYA, QATAR, E DOHA, QATAR (FOLHAPRESS) - As corridas de camelos são tão tradicionais no Qatar que existem até canais de televisão dedicados exclusivamente a transmiti-las. Na Camel Race Track, uma das principais pistas do país, localizada a cerca de 40 km do centro de Doha, as provas não serão interrompidas nem durante a Copa do Mundo.

Quem puder se deslocar até lá, além de acompanhar uma disputa, poderá se aproximar dos animais. Eles são dóceis. Mesmo quando estão comendo, costumam permitir que sejam tocados.

O trajeto com dez quilômetros de extensão onde eles correm fica bem no meio do deserto qatari, ao lado da sede do Al Shahaniya Club, uma equipe da segunda divisão que vai ceder suas instalações para a seleção de Portugal treinar durante o Mundial, na cidade de Al Shahaniya.

"O senhor é convidado da federação?", pergunta um segurança na entrada do local. "Desculpe, eu gosto muito do Brasil, mas aqui só pode entrar com autorização da federação portuguesa."

A equipe liderada por Cristiano Ronaldo é uma das cinco que optaram por instalações mais afastadas do centro de Doha. Alemanha, Bélgica, México e Arábia Saudita também vão ficar no deserto.

Ao lado da estação University of Qatar, os ônibus saem em intervalos de dois minutos. São pequenos, em tons pastel (como quase tudo no Qatar) e se diferenciam apenas pelos avisos no vidro dianteiro: "apenas para homens" ou "apenas para mulheres".

Ele leva os estudantes da Universidade do Qatar para os dormitórios femininos ou masculinos. Outros fazem o mesmo para as salas de aula espalhadas pelo campus de 8,1 quilômetros quadrados no extremo norte de Doha, onde está hospedado outro craque.

"Messi fica aqui, mas ninguém vai vê-lo. A Argentina está em uma parte isolada. Não teremos acesso. Nas últimas semanas, vários estudantes não tinham outro assunto que não fosse Messi estar aqui", disse Fahad (não disse o sobrenome), que trabalha na segurança perto da biblioteca.

Os dois astros que dominaram o futebol mundial nos últimos 15 anos vão se despedir do Mundial em locais de concentrações bem diferentes.

A escolha de onde uma seleção ficará costuma ser feita com meses de antecedência da Copa. Mas a opção feita pelos portugueses casou bem com o momento atual do maior astro do time.

Cristiano Ronaldo chega ao Qatar em meio ao caos que ele mesmo criou no Manchester United, com duras críticas ao clube e ao treinador holandês Erik ten Hag. O futuro do jogador é incerto, sobretudo em relação à permanência no time inglês.

Pelo menos o craque terá bastante sossego em sua estadia no Qatar. A menos de dez quilômetros do Al Shahaniya fica o hotel em que a delegação portuguesa ficará hospedada, o Al Samriya Autograph Collection Hotel. Tudo é novo no local, assim como boa parte das instalações construídas para a competição.

O luxuoso hotel cinco estrelas foi construído com matéria-prima tirada da fazenda Al Samirya, que fica bem perto do prédio. Tem 62 quartos, 26 vilas, um spa e um restaurante.

A poucos quilômetros de distância ficam o museu Sheikh Faisal Bin Qassim Al Thani, o Al Samriya Equestrian Center e uma icônica área de reserva de órix, um mamífero do mesmo grupo dos antílopes.

É uma área bem diferente da agitação do centro de Doha, onde fica o estádio 974, palco da estreia de Portugal contra Gana, na quinta-feira (24), e também onde estão os principais adversários de Cristiano Ronaldo, como o argentino Lionel Messi.

A seleção argentina chegou ao Qatar às 4h desta quinta-feira (17). Desde o começo da semana estava concentrada em Dubai, onde goleou os Emirados Árabes Unidos por 5 a 0 pouco antes do embarque para Doha. Na tarde de quinta, realizou o primeiro treino na universidade, fechado para imprensa e torcedores.

A paz da universidade foi quebrada com a chegada de Messi. Não por causa dos cerca de 20 mil estudantes (70% deles são nascidos no país, e 30%, estrangeiros). Os argentinos que desembarcaram para acompanhar a Copa do Mundo foram para a entrada principal da universidade e ficaram até as primeiras horas da manhã cantando músicas de incentivo. Emissoras de televisão também estavam na região, mas não houve contato com os atletas.

"Ninguém vai incomodar [Messi] aqui. Se a Argentina está atrás de paz, é isso o que vai encontrar. Mas acho que boa parte dos estudantes da universidade gostaria de vê-lo. É uma chance única", diz Sunil Faisal, estudante do departamento de economia e finanças.

A delegação sul-americana reservou um prédio com 90 quartos na ala dos homens da universidade.

"O Liverpool treinou aqui em 2019, durante o Mundial de Clubes. Foi uma febre porque todos queriam ver Salah. Se houvesse a possibilidade de ver Messi, seria a mesma coisa", observa Faisal.

Apesar de ser egípcio, Salah é o maior ídolo do futebol no Qatar por sua fé muçulmana.

O prédio passou por adaptações financiadas pela AFA (Associação de Futebol Argentino) para tentar imitar o ambiente de seu centro de treinamento em Ezeiza, nos arredores de Buenos Aires. Um dos itens mais importantes foi remodelar um espaço para que fosse instalada uma churrasqueira.

A Argentina terá à disposição dois campos de dimensões oficiais com iluminação artificial, piscinas olímpicas, sala de musculação com sauna, o estádio da universidade (com capacidade de para 10 mil pessoas) e 30 campos menores ao ar livre ou cobertos.

Escolher o local da concentração para a Copa do Mundo foi visto como item fundamental pelos dirigentes da AFA. Eles lamentam até hoje a estadia em Bronchitis, nos arredores de Moscou, durante o Mundial de 2018, na Rússia. O complexo com hotel e campos era distante de tudo, isolado demais, e os jogadores reclamavam da falta de qualquer contato com outras pessoas.

O contrário aconteceu na Cidade do Galo, em Vespasiano (37 km de Belo Horizonte), onde o elenco alviceleste permaneceu no torneio de 2014. Os jogadores adoraram o local a caminho da decisão do Mundial.

A Universidade do Qatar é um centro público de pesquisa que abriga dez faculdades, com cursos ministrados em árabe e inglês. É um dos principais locais no país para estudo de questões ambientais e da indústria de energia.

Há tanto espaço disponível que a Argentina não será a única seleção classificada para a Copa a ficar no complexo. A Espanha também vai se hospedar na área.