Crise na Amazônia testa o discurso nacionalista de Bolsonaro

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O Ministro da Defesa, Fernando Azevedo e o Presidente da República, Jair Bolsonaro, durante reunião com as forças armadas. Foto: Alan Santos/PR
O Ministro da Defesa, Fernando Azevedo e o Presidente da República, Jair Bolsonaro, durante reunião com as forças armadas. Foto: Alan Santos/PR


Em condições normais de pressão e temperatura, os pitacos de um chefe de Estado europeu sobre como o Brasil deve se comportar em seu próprio quintal seriam razões suficientes para deixar qualquer habitante da antiga colônia portuguesa desconfiado e com o cabelo em pé.

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A conversa não é só retórica, nem se baseia apenas em fotos antigas ou noções inverídicas a respeito do “pulmão do Planeta”. Prevê um estatuto internacional para proteger a Amazônia, uma “questão real que se imporia se um Estado soberano tomasse medidas concretas que claramente se opusessem ao interesse do planeta”.

Foi isso o que declarou, na reunião do G7, um encontro do qual o Brasil não participou, o presidente francês, Emmanuel Macron, em um contexto complexo de retomada de protagonismo no tabuleiro europeu e uma guerra comercial que promete fazer estragos mundo afora entre China e EUA.

A fala parece legitimar a reação de Jair Bolsonaro diante da questão. Segundo ele, a postura do líder francês evoca a mentalidade colonialista descabida no século 21.

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O discurso, novamente em condições normais de pressão e temperatura, uniria diferentes correntes do pensamento político. Quer ver? Em 2013, o jornal Em Discussão, do Senado, ouviu de Fernando Collor, então presidente da Comissão de Relações Internacionais da Casa, que “a floresta amazônica desperta cobiça por sua biodiversidade” e que “temos de estar preparados para defender qualquer tipo de olho gordo em cima dessas nossas riquezas”.

Na outra ponta o então governador do Rio Grande do Sul e ex-ministro da Justiça Tarso ­Genro afirmava: “Há visões da comunidade internacional que defendem a Amazônia como se ela fosse território da Humanidade e não território brasileiro. Isso aí esconde interesses econômicos sobre a Amazônia como reserva planetária para grandes multinacionais e para controles territoriais de outros países sobre o Brasil”.

Ao botar o dedo em riste contra Macron, Bolsonaro basicamente repete um discurso comum – e, na visão de muita gente, “paranoico” – relacionado à floresta e à soberania nacional. Foi com este pensamento que grupos econômicos aceleraram o trator na floresta durante a ditadura militar.

Bolsonaro retoma essa ideia com a delicadeza de rinoceronte que lhe é peculiar. Diante do acirramento da tensão, fica difícil tomar partido do real guardião da floresta quando seu ministro da Casa Civil diz ter coisas mais importantes a fazer do que viajar para conferir de perto as áreas de queimada. Ou quando seu ministro do Meio Ambiente faz troça das evidências. Ou quando o próprio presidente toma a dianteira no trabalho de desmontar a estrutura de institutos dedicados a auferir a devastação, proteger ou fiscalizar o meio ambiente.

Mas, novamente, não estamos em condições normais de pressão e temperatura. Pelo contrário, a temperatura política é a metáfora perfeita do incêndio florestal onde, segundo a Agência Espacial Europeia, aumentaram em quase quatro vezes os incidentes em relação a 2018.

Pressionado e, pela primeira vez, obrigado a dar uma resposta em um pronunciamento para o qual foi pautado, e não pautou, Bolsonaro não é criticado apenas pela inanição diante da crise que se avoluma, mas por passar a campanha e parte do mandato atacando a chamada indústria da multa ambiental e o trabalho de ONGs na região, escancarando a velha postura que parece dizer: “a floresta é minha e eu destruo quando quiser”.

É justamente este discurso que eleva o risco de boicote dos países de destino de parte das exportações, o que produziria grandes prejuízos aos produtores nacionais. Uma estupidez, em outras palavras, que não tem lastro sequer no pragmatismo comercial.

Guardadas as devidas proporções, o descomedimento chega a lembrar o delírio argentino no conflito que antecedeu a guerra das Malvinas no início dos anos 1980 – o auge do nacionalismo local que fez o velho regime desandar de vez. Quem fez a relação é o próprio Bolsonaro, que durante ato em Manaus, durante a pré-campanha à Presidência, em 2017, declarou: “Será que a Amazônia ainda é nossa? Em 1982, a Argentina falou que as Malvinas eram deles. Perderam. Hoje em dia, ouso dizer que dificilmente a Amazônia é nossa”.

Na época, ele afirmou que, para “salvar ao menos parte da Amazônia”, era preciso buscar parcerias com países democráticos, como os EUA, para a exploração dos recursos minerais, com fixação de preços de minérios, como o nióbio, para exportação.

Naquele momento Bolsonaro começava a pavimentar o discurso nacionalista com piscadelas aos EUA que o levaria a ser eleito com o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

O recuo tardio no discurso anti-ambiental que estimulou incendiários a lançar fogo em áreas de matas e terras devolutas até a Floresta Nacional do Jamanxim, conforme relatou o Globo Repórter, para ganhar a briga na demarcação de terras indígenas que o governo despreza, é um dos muitos testes à retórica nacionalista de Bolsonaro em oito meses de mandato.

Fica difícil acreditar na legitimidade desse discurso quando o país, suas empresas e reservas naturais, com áreas florestais cada vez mais desprotegidas, se transformam em um grande saldão com a etiqueta “vende-se”.

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