Criolo: 'Arte cria energia para a luta contra quem fomenta o mal'

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Criolo e Milton Nascimento lançam 'Existe Amor', projeto que combina um EP de quatro faixas e um fundo solidário
Criolo e Milton Nascimento lançam 'Existe Amor', projeto que combina um EP de quatro faixas e um fundo solidário

O coronavírus também une pessoas, e por causas humanitárias. Milton Nascimento e Criolo se juntam e lançam "Existe Amor", um EP beneficente de quatro faixas, que funciona como uma campanha de um fundo solidário para a população em situação de vulnerabilidade social durante a pandemia. As doações podem ser feitas em existeamor.com/doe.

O single "Não Existe Amor em SP", liberado no dia 24 de abril, antecipou o EP, que tem direção musical de Daniel Ganjaman. No início de maio saiu "Cais", o segundo single. Nos dois duetos, Milton e Criolo são acompanhados pelo pianista recifense Amaro Freitas. “O Tambor” (composição de Arthur Verocai e Criolo) e “Dez Anjos” (parceria entre Milton e Criolo) completam o EP.

Em entrevista, os dois artistas falam sobre essa parceria e a situação do país.

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Tem mais material gravado ou quase pronto com vocês dois juntos? 

Milton - Por enquanto não temos nada programado. Todas as faixas em que trabalhamos juntos foram lançadas nesse EP.


No caso de vocês, como surgiu esse tom de ajuda social, já que a parceria para o EP começou em 2018, bem antes da crise atual? 

Milton - Na verdade, essa minha parceria com Criolo vem de bem antes de 2018. Em 2014, por exemplo, a gente fez uma turnê chamada Linha de Frente, Depois disso, já fizemos várias coisas juntos. Mas, no caso deste projeto específico, “Existe Amor”, a gente não poderia simplesmente lançar algo sem contextualizar com esse momento delicado que estamos vivendo hoje. Até porque, duas das quatro faixas do projeto foram gravadas em São Paulo a poucos dias da quarentena, então, nós já sentíamos que o problema era seríssimo.

Criolo - O grande evento é se perceber a capacidade de emanar boa energia pro mundo. Aprendi com  minha mãe a importância disso, pois somos o tema e não o que por ele se debruça. Essa sublimação do encontro com Milton de modo natural dá vazão a apoiar quem já faz esse trabalho humanitário por escolha de vida, e nesse momento fúnebre da história que se escreve de nosso país todo apoio é mais que necessário e urgente.   

A parceria de vocês parece reforçar a resistência da arte frente a um governo que praticamente rejeita a arte como estado de reflexão. Concordam com esse pensamento? De que formas mais a arte pode resistir?  

Milton - Independentemente de a pessoa ser artista, eu acredito é na união de todos por um bem comum. E, neste momento, o que a gente vê é um descaso total, não somente com a arte, mas com o povo brasileiro em geral. E, diante desse cenário que se mostra cada dia mais absurdo, precisamos fazer a nossa parte, urgente. 

Criolo - Perceber-se capaz de lutar contra as desigualdades é uma revelação que muda o rumo de sua vida. A arte sempre vai ser essa ponte entre o coração, emoções x realidade, e o que precisa ser feito de concreto criando energia suficiente pra lutar contra quem fomenta o mal. 


Já que não dá para sair em turnê agora, pensaram em promover o EP com uma live?

Milton - Ainda não temos nada programado no sentido de fazer uma live e tal... Nosso objetivo principal, agora, é fortalecer a campanha Existe Amor e, sobretudo, fazer com que essa ajuda chegue até as pessoas que mais precisam.

Criolo - Não pensamos nisso ainda. Todos que estão fazendo suas lives estão cada um à sua maneira, deixando sua contribuição de arte, alegria, entretenimento, reflexão e solidariedade ao mundo. Cada um fortalece aquilo que acredita e uma live é algo gigantesco, pois em uma hora você pode atingir um tanto de pessoas que ultrapassa o de todos os shows que fez na vida. Os números gigantescos comprovam que  arte não pode ser tratada como algo de segunda estante das preocupações, pra quem liga pra números e imagina a vida como uma planilha. A arte visita nosso emocional, que uma vez refrigerado ou instigado, facilita a construção de um racional mais sadio, pois sugere reflexão, e toda sociedade ganha. E não há planilha que consiga mensurar o tamanho desse ganho.

Nas favelas do Brasil, o ambiente cruel de urgências múltiplas é alimentado pelo descaso social o ano todo. Há um ambiente de impotência sobre a ideia da morte. Aguarda-se que em algum momento a sociedade perceba que as desigualdades sociais não podem mais existir. Temos soluções e somos capazes de mudar a situação com ciência, tecnologia, amor; e muito afeto e respeito à vida. Pensar o Brasil só no seu quintal é o caminho mais rápido para o fracasso de uma sociedade. A arte, com as lives como ferramenta, tem levado alegria, alívio, indignação e questionamentos sobre a desigualdade, a importância da vida, e sobre como deixamos chegar a este ponto. Arte tem poder, pois vem da nossa alma.

 

 

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