Cria do Atlético-MG passou 4 anos em fábrica de algodão até voltar a jogar futebol

Josué Seixas
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Café na época de Atlético-MG. Foto: Arquivo Pessoal
Café na época de Atlético-MG. Foto: Arquivo Pessoal

Quando Café aprendeu o que era futebol, ainda nem morava na cidade e sequer tinha o apelido que o acompanha na carreira. Morava em uma fazenda a sete quilômetros do município de Messias, no interior de Alagoas, e jogava bola com os meninos que também moravam na redondeza. Nenhum dos garotos sabia como chamá-lo pelo nome de batismo, Markwell, então resolveram que seria mais fácil chamá-lo de Café. Entre eles, não havia qualquer ideia de racismo, mas escolheram o apelido por conta da cor da pele.

Agora aos 28 anos, Café teve de passar por muitos clubes na carreira, especialmente durante as categorias de base. Foi ao Vitória, ao Bahia, Cruzeiro, Internacional, além de clubes menores, até parar no Atlético Mineiro em 2009, quando ainda estava na equipe juvenil. Tornou-se profissional pela equipe, mas não teve tantas chances. Conheceu Ronaldinho Gaúcho no processo e é por conta do R10 que ouviu um dos melhores conselhos para sobreviver no mundo do futebol.

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“Nós não treinamos juntos, mas lembro muito claramente de uma conversa que tivemos. Coisa rápida, mas senti ali a confiança de um jogador mais velho que queria me ver bem. Na época, a expectativa era que eu despontasse junto com o Bernard [Everton] e o Jemerson [Corinthians], mas não deu certo. E o Ronaldinho falou sobre isso: disse que eu agarrasse toda oportunidade de jogar porque o futebol não é fácil, tem que se esforçar. Lembro que nunca tirei foto com ele porque tinha vergonha”, conta Café ao Yahoo Brasil.

De 2009 a 2013, Café esteve com o time do Atlético e até viajou para a Holanda, onde foi campeão de um torneio juvenil chamado ICGT (International Cor Groenewegen Toernooi), disputado na cidade de Uitgeest. Na final, o clube derrotou o Sporting de Portugal por 2 a 1, com gols de Jemerson e Paulo Henrique. Bernard foi o melhor da competição.

“Eu tinha confiança no Atlético. Em uma época, soube que o professor Luxemburgo até quis me colocar em uma partida dos profissionais, mas depois teve receio e achou que eu não estava pronto. Joguei e treinei com muita gente boa naquela época. O Bernard e o Jemerson são grandes exemplos e até tenho um pouco de contato com eles às vezes, mas também passaram pelo meu caminho grandes atletas, como o Rever e o Diego Tardelli”, lembra o jogador.

Porém, após uma lesão no púbis, Café perdeu o caminho. Faltavam seis meses para finalizar o contrato e o Atlético Mineiro decidiu por não fazê-lo. Dos trinta e tantos meninos, só dois deram certo e os outros foram obrigados a se readaptar, entrando no mercado em times menores de outros estados para as disputas de competições estaduais. O volante alagoano, no entanto, não quis aceitar as propostas. Os clubes não lhe ofereciam salário; as contas, claro, se apinhavam para pagamento e a situação apertou. Ele ainda estava na casa dos pais e precisava ajudá-los a se manter.

A solução não veio no usual e nem na bola. A readaptação veio para ganhar dinheiro, somente. Em 2016, ele estava no Mato Grosso do Sul e uma algodoeira precisava de trabalhadores para o período de safras, que dura seis meses aproximadamente. O trabalho era leve, segundo Café, que tinha de ficar cerca de nove horas por dia em pé. O intervalo durava uma hora e meia. Para ele, no entanto, o descanso não viria naquele espacinho de tempo.

“Nossa escala de trabalho era bem atípica [para um jogador]. Em um mês trabalhávamos pelo dia e no outro pela noite. Aquela uma hora e meia de intervalo era o tempo de trocar de roupa e ir para um campo treinar. Então, imagina… Meia-noite e eu estava lá com um colega treinando, mantendo a forma física, sempre pensando que teríamos a oportunidade de jogar futebol de novo. Para chegar nesse nível, tem que querer muito e sonhar muito. Nós que somos alagoanos sabemos que desistir nunca é uma opção, então eu ia.”

Café no Aliança recentemente. Foto: Jean Nascimento
Café no Aliança recentemente. Foto: Jean Nascimento

Essa oportunidade demorou para aparecer. De 2016 até o meio de 2020 aproximadamente, ele teve que se dividir entre as safras no Mato Grosso do Sul e os jogos pequenos e amadores na cidade e em outras. Seria somente para manter a forma, mostrar que ainda tinha chances de ter sucesso no futebol de novo. Ela veio em um clube do interior, que disputava a segunda divisão do campeonato estadual. Café aceitou na hora.

“A minha rotina mudou muito. Teve de mudar. Nós treinávamos três ou quatro vezes por semana e o trabalho na algodoeira continuava. Eram quase dez horas durante a noite, ainda mantinha aquele treino de meia-noite, depois pegava um transporte às 7h para tentar chegar no treino do clube às 10h, 11h. Quando chegava, treinava pela manhã. Quando não, treinava pela tarde. E depois tinha que voltar para a algodoeira, já preparado para trabalhar. Os treinos só não aconteciam às sextas e sábados porque no domingo precisávamos estar bem. E era só nos dias sem treino que eu conseguia dormir”, revela, aos risos.