Credor e presidente do Santos, Rueda vê ambiente do futebol 'prostituído'

KLAUS RICHMOND
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SANTOS, SP (FOLHAPRESS) - O matemático com especialidade em engenharia de sistemas Andres Rueda, 64, conta ter grande apreço pelo romance finlandês "O Egípcio". Escrito em 1945 por Mika Waltari, a obra narra a epopeia de Sinuhe, encontrado ainda bebê às margens do rio Nilo e que se transforma em médico do faraó do Egito. O personagem do livro narra, já mais idoso, diversos momentos de sua vida, entre eles fases distintas vividas com o dinheiro. Rueda, eleito presidente do Santos no sábado (12), já viveu muitos momentos relacionados às finanças do clube, que passa por graves problemas financeiros, antes mesmo de assumir o posto de mandatário —o que ocorrerá em 1º de janeiro. O mandato tem duração até dezembro de 2023, e as dívidas da agremiação, segundo estima, chegam a quase R$ 800 milhões. “Vendo a situação do Santos, sangrando, senti a obrigação de colocar o meu tempo à disposição. Olhando para o futebol, para mim ficou claro que é um ambiente prostituído, corrupto, onde todos se aproveitam de seu pedaço e o clube paga a conta. Sempre tive uma ideia de que, se o futebol fosse olhado com seriedade, seria um negócio perfeitamente viável”, diz Rueda à reportagem. Em campo, por outro lado, o cenário é animador. O time que enfrenta o Vasco neste domingo, às 16h (com transmissão da Globo), pela 26ª rodada do Brasileiro, é o oitavo colocado da competição. Também está classificado para as semifinais da Libertadores. Rueda espera ter um cenário inicial bem diferente do antecessor, José Carlos Peres, alvo no último dia 22 de novembro do primeiro impeachment da história do clube. Desde o início, Peres, que não conquistou títulos, travou guerras políticas até mesmo com aliados de campanha, como o ex-vice e atual presidente Orlando Rollo. Os dois racharam com poucos dias de mandato. “Me cerquei de pessoas técnicas justamente para não misturar com política. O clube está infiltrado nesse ranço político de poder e vantagens”, declara Rueda. Antes da vitória nas urnas, o cartola já havia anunciado a composição de seu comitê gestor –colegiado de sete integrantes indicados pelo presidente, que vota as decisões administrativas. Ele terá como principais nomes os executivos Walter Schalka, presidente da Suzano Papel e Celulose, e José Berenguer, CEO do Banco XP. Apesar de ter contado com o atual presidente Rollo inscrito em sua chapa, ele afirma que o dirigente não terá papel político ou ocupará cargos em seu mandato. “Tivemos um relacionamento mais próximo no comitê gestor do Peres. Ele sempre falou que eu tinha um perfil mais correto. Posso dizer hoje que o Rollo é um amigo, mas vai atuar apenas dentro do conselho. Não há privilégios." Além de presidente, Rueda virou credor do clube neste ano. Ele emprestou dinheiro quando o Santos corria riscos de sofrer punições mais severas na Fifa pelo não pagamento da dívida com o Hamburgo, da Alemanha, pela aquisição do zagueiro Cleber Reis. A equipe recorreu a aportes de 1,5 milhão de euros (R$ 9,1 milhões) e 600 mil euros (R$ 3,6 milhões) de Rueda. “Sou totalmente contra ao clube recorrer a empréstimo de qualquer conselheiro ou sócio, isso como torcedor me dá vergonha. De ver um clube, como o Santos, chegar a essa situação”, diz. O primeiro empréstimo foi acordado para ser devolvido de forma parcelada pelo clube em 2021, enquanto o segundo será sanado quando o Santos receber pela venda do zagueiro equatoriano Jackson Porozo para o Boavista, de Portugal. A comparação constante durante a campanha por adversários políticos é de que a prática era semelhante à adotada por Marcelo Teixeira, presidente do clube de 2000 a 2009. Teixeira emprestou dinheiro da Universidade Santa Cecília, de posse da família. Após a sua saída, o clube fez um acordo para o pagamento parcelado dos pouco mais de R$ 30 milhões. “O Marcelo entrou com dinheiro para montar uma equipe. Eu só quebro essa regra [de não fazer empréstimo pessoal] quando existir uma situação irrecuperável. Aí sim é obrigação. Fiz isso outra vez, em 2015, porque íamos perder o Lucas Lima. Tomei cuidados para que o valor fosse depositado diretamente para o Internacional e nunca cobrei juros. Era para o Santos me devolver em 60 dias e demorou mais de um ano em meio”, relata. Rueda já esteve por duas vezes no comitê gestor, mas diz ter deixado o cargo após presenciar decisões das quais discordou, ambas envolvendo comissões para empresários. A primeira na gestão de Modesto Roma Júnior, na venda do atacante Geuvânio para Tianjin Quanjian, em 2016, e a outra na transação de troca com o Internacional entre Eduardo Sasha e Zeca, em 2018. “Está tão incrustado que é difícil [acabar], mas existem regras claras de comissionamento. Se quero vender e alguém viabiliza, por que não? Mas se eu compro um jogador, por que tenho que pagar comissão? Vamos ser rigorosos com isso.” Uma das inspirações de Rueda é o ex-presidente do Flamengo Eduardo Bandeira de Mello, que reduziu a dívida do clube carioca em mais de R$ 200 milhões em sete anos, de 2013 a 2019. “Ele não inventou nada novo, só adequou despesas com receitas e foi ganhando credibilidade. Esse é o nosso objetivo." No mesmo dia em que venceu nas urnas, Rueda afirmou que rescindirá o contrato do atacante Robinho, condenado em segunda instância na Itália pelo crime de estupro coletivo. Após pressão da torcida e dos patrocinadores, o vínculo foi suspenso, mas não encerrado. “Gestor não tem o direito de pensar com o coração. Precisamos usar a razão nesse caso. Essa relação não é boa para o clube." Nesta semana, o presidente eleito se reuniu pela primeira vez, ainda informalmente, com o seu comitê gestor. Na terça (15), esteve com Rollo para iniciar a transição no cargo. Um novo encontro estava agendado para quinta, mas acabou cancelado pelo fato de Rollo ter contraído a Covid-19.