Moda pós-Covid: a pandemia vai trazer mesmo um “novo normal”?

Qual será o caminho da moda no mundo pós pandemia? (Foto: Getty Images)
Qual será o caminho da moda no mundo pós pandemia? (Foto: Getty Images)

Por Natália Eiras (@naeiras)

A edição brasileira da revista ‘Vogue' trouxe em sua capa de maio a modelo Gisele Bündchen com uma blusa Prada e o statement: “novo normal”. A publicação embarcou no mesmo otimismo que tem levado muita gente acreditar que seremos menos consumistas e mais sustentáveis após a pandemia de coronavírus. Assim como a natureza estaria “se curando” da intervenção humana, já que, pela primeira vez em décadas, peixes foram vistos nos canais de Veneza, na Itália, a sociedade poderia se transformar durante a quarentena. A gente se contentaria com roupas mais simples, gastaríamos menos. Será?

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André Carvalhal, especialista em design para sustentabilidade e autor do livro ‘Moda com propósito: Manifesto pela grande virada' (2016), acredita que vamos tirar o pé no acelerador na hora de atualizar o guarda-roupa, mas não porque seremos seres mais iluminados. “As pessoas vão comprar menos porque algumas estarão sem emprego, sem dinheiro, e vão entender que há outras prioridades”, diz o consultor. “Mas as pessoas que têm dinheiro, que estão em casa sem comprar nada, devem voltar à vida que tinham anteriormente quando saírem da quarentena”, completa.

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Porém, o que faz a gente ter a impressão de que tudo vai mudar é o fato de que o seu look do dia perdeu a importância no dia a dia.  “As roupas param de ser um item de necessidade, prioridade ou interesse para quem está dentro de casa”, diz Carvalhal. 

Mariana Santiloni, gerente de clientes e serviços da WGSN, consultoria de tendências de mercado, diz que a incerteza em torno da pandemia da covid-19 realmente obrigou as pessoas a desacelerar. No entanto, em vez de abrirem mão do consumo, elas colocaram seu dinheiro em outros itens que não fossem roupas.

“Está tendo uma priorização pelos rituais de conforto e autocuidado. Decoração melhorias para a casa também tiveram destaque”, afirma. E ela prevê: “Apesar da desaceleração econômica, os gastos em saúde e bem-estar deverão crescer neste ano.” Em relação às roupas, por sua vez, a consultoria percebe que houve uma mudança na busca por peças com propósito. “Vemos um foco muito grande em conforto e proteção.”

Não podemos esquecer também que a roupa é um item muito importante para os profissionais de saúde, que precisam trocar aventais e estar com equipamentos de proteção individuais. Isso pode influenciar o que vamos vestir nos próximos anos.

Roupas com tecnologia anti-viral? E ecommerce são tendências

“A preocupação com a saúde vai impactar no uso de acessórios como luva e máscaras, o que já está acontecendo, e no desenvolvimento de pulseiras que controlam a temperatura e tecidos com tecnologia anti-viral ou com fechamentos de tramas, facilitando a limpeza”, diz André Carvalhal.

Porém, de imediato, a transformação está no mercado deixar de depender tanto de lojas físicas.

“As marcas que já eram bem estruturadas e estabelecidas no online continuam tendo bons desempenhos, boas vendas”, afirma o especialista. E é exatamente por isso que talvez a gente não saia da quarentena menos consumistas.

O efeito pode, até mesmo, ser o contrário, já que, de acordo com pesquisa divulgada em 2018 pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), cerca de 33% dos consumidores acreditam que as lojas online estimulem o consumidor a fazer novas compras ao ofereceram mais possibilidade de parcelamento. 

Novas maneiras de falar de moda

Em contrapartida, a moda tem procurado novas formas de “sobreviver” ao coronavírus e corrido atrás do prejuízo. Por exemplo, o baile MET Gala, que bagunçava Nova York (EUA) em todo maio, deve ser feito por transmissão ao vivo. A Semana de Moda de Londres, por sua vez, acontecerá de maneira remota. Enquanto Yves Saint Laurent achou melhor deixar o calendário de desfiles de Paris. 

Esse movimento de tornar a apresentação de tendências mais digital foi acelerado pela pandemia, mas não é algo novo. Já fazia um tempo que a gente queria vestir a roupa que aparecia no Instagram e não exatamente o que estava na passarela de moda. Até mesmo fashionistas virtuais foram criadas pelo computador. “Por causa do distanciamento social, é impossível que a gente consiga fazer um evento de moda como uma semana de desfiles”, diz André Carvalhal.

Há muitas reflexões sobre o assunto, mas ainda é muito difícil --e cedo-- para falar sobre como vai ser o mundo pós-pandemia. “Não estou pensando no futuro nesse momento. Deveríamos focar no presente, muito mais do que no depois da quarentena. Porque não sabemos quanto tempo isso vai durar, se vai passar ou não”, afirma o especialista.


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