Coronavírus: pandemia não é questão de opinião - a relativização das verdades na retórica bolsonarista

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(Foto: Madoka Ikegami-Pool via Getty Images)
(Foto: Madoka Ikegami-Pool via Getty Images)

por Maytê Carvalho

Desde 11 de Março de 2020, com a declaração da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que estamos vivendo em uma pandemia com o novo coronavírus e com a consequente orientação ao confinamento da população em situações de risco afim de que a estratégia de tentar conter a proliferação da doença tenha êxito, existe uma retórica invisível no ar de que acreditar em uma agência como esta seja uma questão de opinião. 

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"[Pandemia] não é uma palavra que usamos de forma descuidada, pois, quando utilizada incorretamente, pode provocar medo irracional ou aceitação de que a luta acabou, levando a um sofrimento desnecessário", disse, em coletiva de imprensa, o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom.

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Pessoas acima de 60 anos estão em grupo de risco - e não tem asterisco na declaração da entidade, não se relativiza um passado atlético ou sedentário. 

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Iniciativas federais, como a do governador João Doria no estado de São Paulo, inclusive seguiram essa orientação mundial, desenvolvida por especialistas da área médica e adotada em países em casos críticos como a Itália na gestão da crise da pandemia.

Por que soa absurdo o discurso de um presidente que ignora este tipo de informação?

Esta é a narrativa do poder e a negação da lógica: cheque os fatos do meu discurso e ao fazê-lo, me faça ainda mais poderoso. Por isto, esta é uma anti-análise retórica.

Exigir que chequem a veracidade do que se fala é um ato de demonstração de poder. Ainda mais quando o que se fala contraria verdades universais. O discurso do presidente Bolsonaro vêm recheado de falácias - e nós, que chequemos os fatos. 

Chequem os fatos até que a realidade seja reduzida à uma mera questão de opinião. A verdade? Uma simples escolha de lados. A minha verdade contra a sua verdade. Até que não se saiba mais distinguir o que é verdade e o que não é. Não existem mais verdades. Existe a verdade daquele que controla a narrativa, pois aquele que controla a narrativa é quem controla o poder. 

O poder exige terrenos de jogo para atuar. Sem eles, haveria apenas violência e coerção. A negação de fatos e a condução de narrativas políticas não é uma prática nova de demonstração de poder ou sequer original, começou na 2ª Guerra Mundial com Joseph Goebbels, Ministro de Comunicação Nazista, e se chama Propaganda. A técnica consiste em:

  1. Contar mentiras, por mais absurdas que sejam até que o senso de realidade não mais exista;

  2. Alto volume de mentiras, por todos os canais e plataformas, contínuas e repetitivas, sem o menor compromisso com a realidade objetiva ou consistência.

Um experimento social chamado "O efeito ilusório da verdade" comprovou esta tese, introduzido em 1977 em um trabalho de pesquisa que descreve um estudo de Lynn Hasher, David Goldstein e Thomas Toppino.

No primeiro estudo sobre o assunto, foi solicitado aos participantes que julgassem a validade de declarações plausíveis (algumas verdadeiras, outras falsas) ao longo de algumas semanas. Algumas das declarações foram repetidas semana após semana e a confiança dos participantes nessas declarações aumentou com o tempo, enquanto a confiança nas declarações não repetidas permaneceu constante. Com o tempo, mentiras se tornaram falsas verdades.

O padrão das narrativas de manipulação não-lógicas :

  • 1. As instituições que certificam dados lógicos como as universidades ou órgãos mundiais são questionadas;

  • 2. Nega-se a realidade conforme a agenda política do orador; 

  • 3. Cria-se um inimigo imaginário (nós x eles: seja "a mídia” ou a “China");

  • 4. Após o estabelecimento maniqueísta do arco narrativo e serem repetidas exaustivamente, mentiras se tornam falsas verdades

Líderes como Bolsonaro não são constrangidos pela realidade. Negar a realidade é por si só, uma demonstração de poder. Comandada por uma agenda. Com a negação da verdade, seguimos rumo a irresponsabilidade - a que preço? 

Seja com a mudança climática, ou a pandemia do coronavírus: este é um modus operandi de comunicação que deslegitima, confunde e intimida.

Por que é tão difícil refletir criticamente com a retórica bolsonarista?

Porque ela não parte da prova-lógica. Não há natureza das provas, no melhor sentido Aristotélico. Não há demonstração de raciocínios lógicos, dados são ignorados e restam apenas invenções do orador. Checar os fatos de fontes Propagandistas é um trabalho de Sísifo: nunca terá fim.

De maneira perigosamente dialética é antídoto e veneno: é exatamente ao checarmos os fatos que damos poder para os oradores deste tipo de narrativa.

É como a história da pessoa sã que ao visitar um hospital psiquiátrico, acaba sendo confundida com um dos pacientes e sendo colocada na camisa de força. Quanto mais ela tenta sair da camisa de força e grita para provar que é sã e saudável, mais os médicos tem certeza que é uma pessoa louca delirando.

É assim que este jogo retórico da politica atua no Brasil: a ciência e a realidade foram reduzidas a uma mera questão de opinião.

Maytê Carvalho é formada em Comunicação Social pela ESPM, onde também é professora de retórica

Esse texto é uma opinião do articulista e não necessariamente reflete a opinião do Yahoo

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