O que dizem os filmes sobre pandemia em tempos de coronavírus?

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Cena do filme "Invasão Zumbi", que está na Netflix
Cena do filme "Invasão Zumbi", que está na Netflix

Dizem que a melhor forma de enfrentar o medo é encarando-o de frente.

Se for na frente da TV, com um controle remoto na mão, melhor.

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Quem já se conformou que vai passar os próximos dias enclausurado em casa para fugir do coronavírus já pode estocar a pipoca e encarar o medo do colapso global com filmes dedicados ao tema.

Na Netflix, por exemplo, uma busca pela palavra “vírus” leva a uma lista de possibilidades.

Inclusive as que nada parecem ter a ver pandemias e afins. Os algoritmos não são infalíveis, mas sabem o que fazem (uma das opções que aparecem é o filme “Pandora”, sobre a tensão diante de um terremoto em uma usina nuclear. Não é por acaso).

Vírus é uma palavra que tem origem no latim. Como vimos na escola, refere-se a seres simples e microscópicos formados basicamente por uma cápsula proteica envolvendo material genético. Daí a dificuldade em transformar esse organismo infeccioso em estrela de cinema.

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Vai ver é por isso que, na lista de filmes sobre pandemia, não faltam histórias sobre zumbis. É o caso, por exemplo, de “Cargo”, no qual o personagem de Martin Freeman precisa atravessar uma Austrália pós-apocalíptica dominada pelos seres infectados após ser atacado pelos bichos. Sua missão é encontrar, em pouco tempo, alguém disposto a cuidar de sua filha. Para isso, precisa atravessar um planeta devastado e localizar um lugar menos hostil e ainda não-contaminado onde ela possa sobreviver.

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A corrida contra o tempo é uma fórmula comum em filmes do tipo. Em “Invasão zumbi”, por exemplo, o espectador aprende que uma pandemia é um trem desgovernado em que passageiros sadios precisam o tempo todo correr e se proteger dos passageiros contaminados, espécies de animais (carnívoros) de segunda classe. Tudo isso com a máquina em movimento.

Na plataforma tem também o filme “Viral”, sobre duas irmãs que aguardam sozinhas em casa o retorno do pai em um país em quarentena diante de uma tal “febre dos vermes” (dá pra imaginar o que acontece com quem é infectado, não?). As estradas estão fechadas e a única janela de comunicação vem pelo celular. A ordem é: fechem as janelas, tranquem as portas, evitem os infectados a todo custo. Tudo se complica quando elas descobrem que o vírus está incubado também naquela casa.

Outro destaque é “Epidemia”, sobre a origem de uma doença misteriosa parcialmente erradicada da pior forma durante a guerra e que reaparece em uma cidade na Califórnia onde os médicos do Exército correm para evitar uma solução ainda mais drástica.

Em “Próxima parada: apocalipse”, o pai e o marido de uma personagem que desaparece após ter a ligação cortada tentam descobrir, sozinhos, o que está havendo em um país que decidiu lidar com a tragédia desativando os sistemas de comunicação. O silêncio do governo é o inimigo, e como eles não têm ideia do que está havendo, precisam cruzar o país para não deixar a personagem morrer sozinha.

Já “Extinção” coloca em dualidade as fronteiras entre sonho e realidade, paranoia e distopia, por meio de um personagem que a certa altura se questiona: “Quem somos nós? Você acha que conhece seus filhos, sua família, o lugar onde trabalha? E se a verdade, uma vez conhecida, mudar tudo isso? E se uma coisa ruim estiver vindo?”.

No catálogo estão ainda opções menos fantasiosas, como “93 dias”, baseado em fatos reais relacionados ao vírus ebola, e “Flu”, drama de personagens que lutam não contra a doença, mas contra o apartheid que elas provocam ao isolar seus familiares do contato com o mundo. O desafio, ali, é estar com o doente, furando assim o bloqueio das autoridades infectadas por outro vírus, o da truculência.

Há também a série documental “Pandemia”, que mostra o trabalho de especialistas dispostos a enfrentar não apenas a doença, mas a ignorância em torno dela. A certa altura, o espectador é lembrado que, para a Organização Mundial da Saúde, a recusa de parte da população em se vacinar é hoje uma ameaça global. “A próxima pandemia vai começar, mas não sabemos onde e como. Só que vai acontecer”, diz uma especialista em uma das cenas.

Em praticamente todas essas histórias, ao menos na ficção, os personagens estão sempre em movimento. Como se a sobrevivência exigisse uma travessia -- geralmente em uma área de risco, contaminada, onde o desconhecido é quase sempre representado por organismos infectados por monstros, ETs e, claro, zumbis.

Todos são vulneráveis e dependentes das tecnologias de comunicação, as primeiras a serem quebradas em situações de emergência. A vulnerabilidade dessa dependência tecnológica provoca os pavores mais primitivos, e nenhum deles é maior do que voltar aos tempos mediados pelas pernas de quem pode correr e pelas armas de quem sabe atirar. Barbárie, em outros termos.

Em um mundo obcecado em catalogar (e separar) o normal do patológico, o sadio do enfermo, o certo do errado, os filmes sobre nossos medos de colapso ajudam a reforçar ou colocar em perspectiva o estigma de quem está contaminado. Quem é sadio neste mundo, afinal?

O Hospedeiro

Mas os dois filmes que talvez mais dialoguem com nosso drama real em tempos de pandemia não aparecem nas buscas mais óbvias da plataforma. (Um terceiro, “Os 12 macacos”, sobre um homem que volta no tempo para evitar a propagação da doença que isolou os sobreviventes no subsolo da terra em 2035, não está no catálogo).

Um deles é “A Chegada”, de Denis Villeneuve. Diante dos muitos cuidados e equipamentos necessários para evitar o contágio com o ser desconhecido, é impossível não lembrar do escafandro vestido pela personagem de Amy Adams, uma linguista escalada para fazer contato com o extraterrestre que chegou à terra em uma nave. 

Não é exatamente um filme sobre doenças contaminosas, mas sobre a decodificação da ameaça desconhecida -- ela é, afinal, uma ameaça até que se saiba o que quer e o que é capaz de fazer. Parece a metáfora perfeita do desafio dos especialistas diante do Covid-19. Na vida real, é mais ou menos este exercício de compreensão que levou as cientistas brasileiras Ester Sabino e Jaqueline Goes de Jesus a realizarem o primeiro sequenciamento genético do coronavírus na América Latina -- isso apenas 48 horas após a confirmação do primeiro caso.

Outro filme que joga luz sobre tempos de correria e confusão é “Hospedeiro”, do sul-coreano Bong Joon-ho, o mesmo diretor do premiadíssimo “Parasita”.

Se no filme vencedor do Oscar o cineasta levou às telas uma espécie de luta de classes high tech, em seu trabalho anterior (2006) ele dialoga com um mundo impactado pelo vírus da gripe aviária.

Para isso, criou um monstro aquático que devora e recolhe em um esconderijo os corpos de suas vítimas. A ameaça mobiliza cientistas e autoridades, que isolam as ruas e colocam as cidades em quarentena. 

No filme, porém, as ações apenas reforçam os estigmas de uma sociedade já suficientemente desigual. É o que percebe o personagem de Song Kang-Ho (o pai da família Kim em “Parasita”) quando entra em contato com o monstro e passa a ser caçado por quem deveria protegê-lo. Internado involuntariamente, ele se torna objeto de laboratório.

Enquanto as autoridades falham em lidar com o vírus que pensam morar na cabeça alheia, o monstro, real, segue intocável no rio onde foi criado pela ação humana.

A mensagem é clara: quando tudo sai do controle, todos os estigmas se reforçam. Como se os infectados acordassem de sonhos tortuosos e se transformassem em um gigante inseto. Ou um perigoso zumbi.

Quando não é mediada pelo conhecimento, pela calma e pelo bom senso, uma pandemia pode dar origem a todo tipo de surto, agravando todos os conflitos de bases sociais (o estigma sobre quem tem o vírus HIV é, ainda, nosso melhor exemplo).

Em outras palavras, abaixe seu rifle ao atravessar a cidade a caminho do supermercado. Uma coisa é combater a doença; outra, bem outra, é ampliar a aflição de quem mais precisa de ajuda, apoio e compreensão nessas horas.

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