Em meio ao caos do coronavírus, USP abandona estudantes de baixa renda que vivem dentro da universidade

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Marcos Santos / USP Imagens
Marcos Santos / USP Imagens

Por Nathan Fernandes

“Parece meio distópico, meio Bacurau, mas essa é a realidade em que a gente vive”, diz a estudante de pedagogia Cacau Prado, moradora do Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo, o CRUSP, ao explicar sobre o excesso de rachaduras e a falta de manutenção da moradia estudantil de uma das maiores universidades da América Latina. “Quando essas questões estruturais são em doses homeopáticas, a gente sente menos, mas quando entramos numa situação bizarra como agora, com a pandemia, a coisa fica mais séria.” 

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A estudante lembra que, no dia em que foi noticiado o primeiro caso confirmado de coronavírus na USP, em 11 de março, parte dos estudantes ficou sem abastecimento de água durante seis dias no CRUSP, por conta de um problema com a Sabesp. “Alguns apartamentos tinham água no chuveiro, mas não na privada, ou vice-versa. Várias pessoas vieram tomar banho na minha casa e, quando acabou, tivemos que ir ao centro esportivo”, explica a moradora. Segundo ela, para seguir a recomendação da OMS de lavar as mãos com frequência, muitos dispunham de um “fio de água”.  

Imagens feitas por moradores do CRUSP mostram a falta de higiene e estrutura do local (Reprodução/crusptransparencia)
Imagens feitas por moradores do CRUSP mostram a falta de higiene e estrutura do local (Reprodução/crusptransparencia)

As máquinas de lavar do alojamento estudantil estão quebradas há anos, e não são trocadas. As roupas são lavadas à mão na mesma pia em que se lavam louças e se escovam os dentes. A falta de manutenção já fez com que os dutos de gás fossem desligados pelo risco de explodir um bloco inteiro. Antes, um incêndio, em um dos apartamentos, destruiu trabalhos acadêmicos e computadores. Além disso, em um depoimento anônimo ao Jornal do Campus, da USP, em 2019, um aluno informou sobre as condições precárias do teto de seu apartamento. “Eu tinha tirado o carnaval para trabalhar na minha iniciação científica, mas como é que eu vou fazer isso se tenho que ficar trocando balde porque o teto está ruindo na minha sala? No CRUSP, não há condições materiais para você dar conta da sua graduação.”

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Segundo o estudante de odontologia Gustavo Raime, também morador do CRUSP, a falta de reposição dos funcionários, como porteiros e eletricistas, também coloca em risco a segurança dos alunos. “Ficamos um tempo sem eletricista e, quando fomos ver o que tinha acontecido, nos informaram que dois deles haviam morrido e um estava de férias, pela primeira vez em sete anos”, lembra. “Os moradores sempre se organizaram para resolver os problemas da manutenção com a zeladoria, mas nossa ação é limitada. Se não temos condições humanas básicas, imagine para enfrentar uma epidemia.”

Preocupação no bloco das mães

Para as doze famílias que se concentram em um único bloco conhecido como o “bloco das mães”, a condição é mais precária ainda. “Desde a informação do primeiro caso, entramos em quarentena restrita. Tomamos iniciativas rápidas e duras para conter a disseminação do vírus”, afirma uma estudante moradora do bloco das mães, que integra a Comissão de Mães do CRUSP. 

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“Uma das estagiárias da creche da USP foi diagnosticada com Covid-19, então as crianças estão isoladas umas das outras, e uma delas está com pneumonia. Apesar de estarmos seguindo as orientações da OMS, a universidade não dá nenhum tipo de apoio. Já somos normalmente negligenciadas, mas, neste momento, estamos abandonadas a nossa própria sorte.” 

Uma das funcionárias que trabalhava no bloco já estava sob licença por suspeita de Covid-19 quando as moradoras decidiram afastar os empregados terceirizados para que cumprissem a quarentena em casa. Apesar das próprias mães terem se responsabilizado pela limpeza, a universidade não cede os materiais necessários. 

Por conta da precariedade de condições, fogões são usados como grandes latões de lixo (Reprodução/crusptransparencia)
Por conta da precariedade de condições, fogões são usados como grandes latões de lixo (Reprodução/crusptransparencia)

Além disso, com o fechamento do refeitório central, o acesso à alimentação foi dificultado, já que as cozinhas coletivas dos blocos foram desmanteladas e os apartamentos não possuem estrutura para cozinhar. Dos quatro refeitórios do campus, apenas dois, os mais distantes, estão em funcionamento, expondo os estudantes ao risco de infecção. 

“Se tem alguma coisa que está segurando um pouco esse processo, é o fato de que os alunos estão se unindo bastante”, acredita a moradora, lembrando que uma série de benefícios dedicados às mães já foram cortados nos últimos meses. 

Além disso, outro problema que contribui para o estresse das crianças confinadas e dificulta o estudo dos adultos é a falta de internet nos alojamentos. “Em plena era da informação, nós precisamos ficar pendurados na escada de incêndio para conseguir acesso”, afirma a estudante Cacau Prado.

Neste mês, os moradores do CRUSP tentaram, por três vezes, protocolar documentos com exigências que auxiliam no enfrentamento da pandemia, de acordo com as orientações oficiais. Entre os pedidos, estão a instalação de dispensers de álcool em gel nos prédios e melhorias nas instalações das cozinhas comunitárias e lavanderias. 

Apesar dos documentos terem caráter emergencial, as reivindicações não foram ouvidas. “A maior universidade da América Latina não escuta seus próprios alunos. A reitoria não deixa sequer a gente entrar no prédio, tivemos que protocolar do lado de fora”, lamenta Gustavo Raime — citando um vídeo, no qual, ao solicitar uma prancheta para fazer a assinatura, um funcionário da reitoria zomba ao fundo: “Prancheta só na viatura”. 

Na última tentativa, feita no dia 23 de março, os moradores não encontraram nenhum funcionário que pudesse receber os documentos, tanto na reitoria, quanto na Superintendência de Assistência Social (SAS). 

Condição sub-humana

Os oito blocos do CRUSP — que contam, cada um, com seis andares, onze apartamentos por andar, e três quartos por apartamento — são um legado dos jogos Pan Americanos de 1963. No ano seguinte, eles foram ocupados pelos alunos e se tornaram sede do movimento estudantil, durante o período da ditadura militar. As moradias passaram então a ser destinadas a alunos de baixa renda que vêm de outros estados ou moram longe do campus. “Quem vem pra cá, geralmente, faz parte de um grupo de minoria, que consegue passar pelo crivo da universidade e vem produzir cultura, extensão e pesquisa, que é o tripé de excelência da universidade”, explica Gustavo Raime. 

A administração das residências é feita pela SAS, que respondeu ao pedido de entrevista do Yahoo! com um informe geral distribuído aos moradores. 

De acordo com o comunicado, as refeições continuam sendo servidas nos refeitórios mais distantes do CRUSP, mas, a partir deste dia 24 de março, são distribuídas através de marmitas descartáveis. A universidade afirma que a promessa de entrega de álcool em gel, programada para o dia 23, foi descumprida devido à falta do produto no fornecedor. Informa ainda que kits de limpeza serão distribuídos nos blocos, sem especificar a data. Em relação à cozinha, a SAS explica que o estado precário se deve ao mau uso dos moradores, e que a dificuldade de encontrar fornecedores impede a substituição dos eletrodomésticos. 

“É ridículo nos responsabilizarem pela má condição da cozinha. É só observar as fotos para ver se tem a possibilidade de um estudante que precise desse ambiente deixá-lo desse jeito”, observa a estudante Cacau Prado. 

Em relação à falta de internet, a nota informa que a universidade está a par do fato e que a  precariedade se deve à grossura das paredes de construção antiga, e que a Superintendência de Tecnologia e Informação desenvolveu “um projeto que está prestes a entrar em fase de contratação”. O problema, para os moradores do CRUSP, é que muitos professores continuam passando conteúdo com prazo e avaliações. “Acho legítima a preocupação de não se distanciar da academia, mas então que sejam propostas não avaliativas. Muitos aqui são contra essas iniciativas, porque, além de prejudicar quem não tem acesso à internet, abre um precedente para um cenário de precarização da universidade”, acredita Cacau. 

A SAS também informa que não há casos registrados de Covid-19 entre funcionários e alunos da moradia. Mas, além das infecções relatadas pelos entrevistados nesta reportagem, Gustavo Raime afirma que, em visita recente ao setor de manutenção, o estudante conversou com um funcionário que disse estar infectado, mas que continuava trabalhando normalmente por necessidade. 

Para Raime, o problema vai além do risco de infecção. “Nós ainda temos aqui alunos que tomam moduladores de humor, remédios de uso controlado, psicoativos, e essas pessoas não estão tendo acesso aos medicamentos. Eles estão surtando”, avisa. “É uma situação difícil para nós e para eles, porque prezamos pela saúde e pela integridade de todos aqui. Além disso, existem alunos imunossuprimidos, com doenças crônicas… Se o coronavírus chegar, eu temos pela vida dos estudantes.”

A aluna Cacau Prado também chama atenção para o absurdo de uma condição que só ganhou destaque com a presença do vírus. “É assim que a gente vive o sonho de estudar na USP, de tentar mudar a trajetória determinada pelas nossas famílias. A gente acaba se acostumando com a situação, mas, ao refletirmos sobre ela, percebemos que é menos do que sub-humano.” 

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