Aumento da ansiedade e da depressão é efeito indireto do coronavírus, diz especialista

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Jovem veste máscaras no aeroporto John F. Kennedy, em Nova York. Foto: Tayfun Coskun/Anadolu Agency via Getty Images
Jovem veste máscaras no aeroporto John F. Kennedy, em Nova York. Foto: Tayfun Coskun/Anadolu Agency via Getty Images

Os efeitos diretos do novo coronavírus ainda não foram totalmente dimensionados. Os indiretos estão escancarados: cidades esvaziadas, eventos cancelados, trabalhos suspensos, fronteiras fechadas, viagens e grandes decisões adiadas, bolsas e investimentos em queda.

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Diante de tantas incertezas, sobretudo no campo econômico, é possível prever o aumento de casos de estresse, ansiedade, pânico e depressão?

Para o psicólogo e mestre em neurociências Marco Callegaro, sim. Diretor para a área de cursos da Cognitiva Scientia, instituição de ensino voltada à disseminação dos conhecimentos na área das ciências cognitivas, Callegaro afirma que parte da ansiedade já pode ser observada no campo da economia. Mesmo sem pegar o vírus, profissionais da área do comércio ou do setor financeiro podem entrar numa espiral de insolvência que levará a outros tipos de sofrimento além da doença. “Quem estava sem dinheiro tende a ficar paranoico vendo a economia derreter. Um cenário duvidoso aciona os hormônios de estresse. Vira uma cascata.”

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O especialista aponta, porém, a necessidade de diferenciar uma ansiedade positiva, relacionada a uma realidade factual, da paranoia. Diz que é preciso ficar atento aos gatilhos, como lavar as mãos obsessivamente ou espalhar crenças infundadas relacionadas à contaminação. 

“A ansiedade é normal. Saudável até, eu diria. É saudável ter ansiedade quando o tamanho da ansiedade é proporcional ao risco de aquela ameaça se consolidar. Já a paranoia é o aumento de probabilidade de um cenário negativo imaginado”, afirma.

Para Callegaro, uma forma de lidar com a ansiedade é se perguntar o que dizem as evidências. 

“Se a gente olhar as estatísticas, as evidências científicas sobre o vírus, vamos ver que é um vírus de gripe fraca comparada a outros, como a gripe espanhola, que matou milhões na Europa. Não se sabia o que fazer nas capitais com centenas de milhares de pessoas que morriam na gripe espanhola. O coronavírus pode sofrer mutações, mas até agora se mostrou de baixa letalidade.”

Segundo ele, notícias alarmistas e fake news ajudam a espalhar histórias exageradas, distorcidas, que alimentam o que ele chama de ciclo da paranoia. “A mídia é um espelho da mente humana. E a mente humana funciona com o viés da negatividade. Se tem nove coisas certas, e uma errada, é na errada que a gente vai focar. Nos preocupamos com o que está errado, com uma lente de aumento. Isso veio do passado evolutivo, quando vivíamos nas cavernas e o ambiente era hostil, perigoso. Quem era otimista, no meio do mato, achava que aquele barulho vindo de fora não era nada. O pessimista pensou que era predador e subiu na árvore. O pessimista, de dez vezes, errou nove. O otimista dançou. Somos descendentes daqueles que eram paranoicos e superestimaram o risco. E de fato ainda somos muito ansiosos.”

Ele completa: “quando se trata de doença, contaminação, risco de vida, funciona o pior da mente humana. É o medo mais poderoso: o medo de perder a vida. Por isso essa reação tão forte. Há um círculo vicioso, uma pessoa contamina a outra, e isso contamina a mídia, e vai num crescendo. O estresse deixa  a gente mais paranoico, no plano individual e coletivo.”

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