Copa do Mundo: Entenda a receita do Marrocos para tentar levar 'outra África' a um feito inédito no Catar

Uma das imagens icônicas em estádios do Catar na primeira fase da Copa do Mundo mostra um homem de aparência jovem e pele clara tentando acompanhar, com mais animação do que desenvoltura, a coreografia de torcedores de Senegal – o mesmo torcedor se juntou de novo aos senegaleses, neste domingo, durante a derrota para a Inglaterra. Com um cachecol do Marrocos, o torcedor trazia à tona, ainda que sem esta intenção, as duas faces do continente africano nas oitavas de final deste Mundial.

Resistindo às tentativas de interpretá-la como bloco homogêneo, alimentadas por um misto de desconhecimento e preconceito, a África emplacou nas oitavas de final dois times com bagagens distintas: os marroquinos, representantes do norte africano, tentam desbravar de forma inédita na terça-feira, contra a Espanha, a rota até as quartas de final. Caminho este que já foi trilhado mais de uma vez, embora não desta, por países do oeste africano, como Senegal.

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Em 1986, Marrocos foi a primeira seleção africana a ultrapassar a fase de grupos; seria eliminada pela Alemanha nas oitavas. Desde então, à exceção da Argélia em 2014, outro representante do norte da África também derrotado nas oitavas pelos alemães, todos os países africanos com desempenhos notáveis em Copas foram os da costa ocidental do continente, região que entre os séculos XVI e XIX foi alvo da colonização francesa e portuguesa e do tráfico de escravos. Em 1990, Camarões tornou-se o primeiro a chegar às quartas de final, em um caminho repetido por Senegal em 2002 e por Gana em 2010.

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A seleção marroquina está, de certa forma, “jogando em casa” no Catar, conforme observou a jornalista ugandense Usher Komugisha ao canal Sky Sports na última semana. Localizado na porção do continente africano conhecida como magreb (“ocidente”, em árabe), diretamente envolvida nas Cruzadas da Idade Média – que tiveram, por sinal, participação decisiva dos reinos que viriam a formar a Espanha –, Marrocos é o último remanescente dos países de influência árabe e muçulmana nesta Copa, posto que dividiu com os já eliminados Tunísia, Irã, Arábia Saudita e o próprio Catar.

Nas arquibancadas, a grande presença de marroquinos é um indicativo da escassez de barreiras geográficas, culturais ou linguísticas no Catar. Em campo, a seleção treinada pelo ex-jogador Walid Regragui também se mostrou à vontade.

– Representamos Marrocos, que é nossa prioridade, mas também somos africanos como Senegal, Gana, Camarões e Tunísia. Muitas vezes o futebol africano é visto como se fosse um nível abaixo, mas mostramos nesta Copa que estamos em pé de igualdade com europeus e sul-americanos – disse Regragui em entrevista coletiva na última quarta-feira.

Primeira seleção africana a avançar às oitavas de final como líder de seu grupo, que tinha a atual vice-campeã Croácia e uma Bélgica repleta de estrelas, Marrocos tem uma versão 2022 com profundas diferenças para a geração que foi surpresa em 1986. Enquanto aquele time era formado quase exclusivamente por jogadores que atuavam no país, o deste ano tem seus principais nomes, como o lateral-direito Achraf Hakimi e o atacante Hakim Ziyech, como estrelas de clubes da Europa.

A força do futebol do norte africano é historicamente amparada nos seus clubes, que dominam a Liga dos Campeões da África, cujos maiores campeões são os egípcios Al Ahly e Zamalek; e nas torcidas desses clubes, que se assemelham mais aos “ultras” europeus e às “barra bravas” sul-americanas do que ao estilo dançante e festivo exibido pelos senegaleses, por exemplo, nesta Copa. Neste século, apenas três edições da Liga dos Campeões africana não tiveram campeões do norte do continente. O último clube do oeste africano campeão continental foi o nigeriano Enyimba, em 2004 – o atual campeão é o marroquino Wydad, que era treinado por Regragui.

Para alguns analistas, justamente essas virtudes acabaram gerando, como efeito colateral, o enfraquecimento das seleções do norte da África na comparação com os países da costa ocidental, cujas ligas nacionais menos estruturadas vêm induzindo seus principais jogadores a buscar desde muito cedo uma formação esportiva em clubes europeus. Este fluxo se intensificou a partir da década de 1980: a seleção de Camarões de 1990, pioneira no avanço africano até as quartas de final de uma Copa, tinha alguns de seus principais jogadores, como o goleiro N'Kono, o meia Mbouh e o atacante Roger Milla, atuando na Europa.

Para efeito de comparação, enquanto o Egito, maior campeão da Copa Africana de Nações, caiu na fase de grupos do Mundial de 2018 com oito jogadores que atuavam no próprio país e outros quatro na vizinha Arábia Saudita, Senegal fez História em 2002 com uma seleção quase inteira de atletas vindos do futebol francês. Nos últimos tempos, por sinal, a hegemonia dos países do norte africano, com 11 títulos continentais, passou a ser ameaçada pelas seleções da África Ocidental, que chegaram a 10 títulos da Copa Africana com a conquista de Senegal, contra o próprio Egito, no ano passado.

Regragui, que assumiu Marrocos às vésperas do Mundial após uma crise entre jogadores e o então treinador, o bósnio Vahid Halilhodzic, pinçou alguns nomes que havia comandado no vitorioso elenco do Wydad – casos do lateral-esquerdo Attiyat-Allah e do volante Jabrane, ambos já utilizados nesta Copa –, mas apostou mesmo nas estrelas que brilham no futebol europeu. Zyech, atacante do Chelsea que vinha fora da seleção por atritos com Halilhodzic, retornou com status de craque com Regragui.

Outro fator importante para este Marrocos, assim como para as seleções da costa ocidental, são os frutos da migração africana. Dos 23 jogadores que atuaram pelo Marrocos na fase de grupos, dez são filhos de marroquinos que nasceram e fizeram todo o desenvolvimento esportivo na Europa, a exemplo do próprio Regragui, cuja carreira como lateral-direito se deu desde a juventude em clubes franceses. É o caso também de alguns pilares do time, como Hakim Zyech e o volante Sofyan Amrabat, nascidos na Holanda, o lateral-direito Achraf Hakimi, que cresceu na Espanha, e o zagueiro Roman Saïss, originário da França. Apenas outras duas seleções -- a Tunísia, com 11 jogadores, e o Canadá, com 14 -- se beneficiaram mais do que o Marrocos de jogadores naturalizados ou filhos de imigrantes nesta Copa.

Agora, na avaliação do treinador marroquino, o próximo passo – não só para o norte africano, mas para todo o continente – é aceitar a meta de “olhar para cima” como algo concreto, palpável.

– Como seleções africanas, precisamos de uma mudança de mentalidade. Colocamos para nós mesmos o objetivo de dar tudo para passar da fase de grupos. Agora, por que não sonhar com a conquista da Copa? – questionou Regragui.

O duelo contra a quase vizinha Espanha, separada geograficamente apenas pelo Mar Mediterrâneo, é a oportunidade de ouro para colocar esta mentalidade à prova.