Copa do Mundo: Como a imigração brasileira turbina Portugal, seleção que mais abriga naturalizados do país

Em um Portugal que se beneficia cada vez mais da imigração, três jogadores nascidos no Brasil ilustram como o fluxo de estrangeiros impulsiona a seleção em busca da vaga nas quartas de final da Copa do Mundo, contra a Suíça, às 16h (horário de Brasília) desta terça-feira. O zagueiro Pepe, de 39 anos, provável titular, e os meio-campistas Otávio, de 27, e Matheus Nunes, de 24, representam não só o capítulo mais recente do histórico de brasileiros naturalizados, mas também as mudanças na relação dos portugueses com os movimentos migratórios.

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Pepe, um dos mais experientes nesta seleção portuguesa, nasceu em Maceió e começou no futebol nas divisões de base do Corinthians Alagoano, mas fez toda a carreira profissional além-mar. Em 2007, naturalizou-se português a pedido do então treinador da seleção, Luiz Felipe Scolari, o Felipão, que havia articulado quatro anos antes a naturalização de outro brasileiro, o meio-campista Deco. À época, a convocação de Deco sofreu resistência de alguns dos craques da própria seleção portuguesa, como os meias Figo e Rui Costa, que se disseram contrários a jogadores naturalizados.

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Por ironia do destino, alguns dos talentos mais promissores de Portugal são frutos da imigração – que o digam os atacantes Rafael Leão, filho de angolanos, e João Félix, cujo pai é o preparador físico brasileiro Carlos Sequeira, que se estabeleceu no país nos anos 1990. Isso para não falar de Eusébio, o maior artilheiro português em Copas, nascido em Moçambique quando ainda era colônia de Portugal.

Com as boas atuações de Deco pela seleção, na Copa de 2006, e no futebol nacional, pelo Porto, o caminho para jogadores brasileiros se ampliou na seleção portuguesa. Na Copa de 2010, além do próprio Deco e de Pepe, o atacante Liedson, revelado pelo Corinthians, também foi convocado após ter se naturalizado no ano anterior.

Pepe seguiu na seleção nas Copas de 2014 e 2018, fazendo com que Portugal se tornasse o país que mais cedeu vagas em Mundiais a jogadores nascidos no Brasil: já foram nove, contando com o trio convocado para o Catar. A segunda colocada é a Itália, pioneira na convocação de brasileiros naturalizados – levou o atacante Filó para o título da Copa de 1934, a dupla Sormani e Mazzola para a Copa de 1962 e, mais recentemente, o volante Thiago Motta em 2014.

A Espanha, dos atacantes Diego Costa e Rodrigo e do volante Marcos Senna, aparece em seguida no ranking, com três convocações de naturalizados -- empatada com Japão, do lateral Alex Santos (que foi às Copas de 2002 e 2006) e do zagueiro Túlio Tanaka; e com a Tunísia, do meia José Clayton (jogou as Copas de 1998 e 2002) e do atacante Francileudo Santos.

O meia Otávio, revelado pelo Internacional e contratado pelo Porto em 2014, aproveitou não só os caminhos abertos por Pepe, mas também pelas mudanças demográficas em Portugal. Desde 2007, ano da naturalização do zagueiro, o número de mortes tem superado o de nascimentos em Portugal, sintoma do envelhecimento populacional e diretamente ligado à redução da população economicamente ativa.

Para conter a queda de habitantes, o governo português flexibilizou leis migratórias buscando atrair estrangeiros, especialmente de ex-colônias que falam o mesmo idioma, como o Brasil. Adaptado ao futebol português, Otávio pôde se naturalizar em 2019, após cinco anos residindo no país – um ano a menos do que o período exigido quando Pepe foi naturalizado.

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Enquanto isso, o volante Matheus Nunes seguia um caminho distinto ao de brasileiros que já representaram outras seleções em Copas – todos, até então, haviam deixado o país por terem recebido convites para jogar por algum time no exterior. Nascido em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, Matheus mudou-se aos 13 anos com a mãe, brasileira, e o padrasto português para Ericeira, pequeno município praiano nos arredores de Lisboa. Até então, ele só havia jogado futebol em um núcleo de educação esportiva do Fluminense, sem passagens pelas divisões de base de qualquer clube. Em Portugal, começou a treinar no Ericeirense, clube da sexta divisão, enquanto estudava e trabalhava na padaria da família.

Na última década, muitos outros compatriotas fizeram uma rota semelhante à de Matheus: o número de brasileiros residindo em Portugal passou de aproximadamente 92 mil, em 2013, para 204 mil até o fim do ano passado, segundo os relatórios anuais do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), órgão do governo português.

Os nascidos no Brasil representam hoje cerca de um em cada três estrangeiros que vivem em Portugal, e foram responsáveis por 13 mil dos 46 mil pedidos de nacionalidade portuguesa em 2021. A legislação atual do país permite requisição de cidadania para filhos e netos de portugueses, ainda que não vivam no país – foi o caso, por exemplo, do atacante Marcos Paulo, revelado pelo Fluminense, que já defendeu as seleções de base de Portugal após obter dupla cidadania por conta do avô português.

Em entrevistas, o sotaque luso de Matheus Nunes estabelece um nítido contraste com outros colegas brasileiros em Portugal. Criado e formado esportivamente em Portugal, o volante pensava ter perdido o timing da carreira no futebol até ser pinçado por olheiros do Sporting de Lisboa, já aos 21 anos. Teve uma rápida ascensão, a ponto de fazer o presidente do clube, Frederico Varandas, dizer que Matheus “pagaria” sozinho os 10 milhões de euros gastos para contratar o treinador Ruben Amorim, famoso por desenvolver jogadores – o volante acabaria vendido ao Wolverhampton, seu clube atual, por 45 milhões de euros, mais do que o triplo daquele valor.

No ano passado, Matheus chegou a comemorar uma convocação do técnico Tite para defender a seleção brasileira em uma rodada das eliminatórias, mas Portugal já estava de olho. Com uma década no país, mais do que elegível para defender a seleção portuguesa, o volante considerou o desejo do técnico português Fernando Santos e os conselhos da família para recusar a convocação de Tite e passar a defender Portugal.

– Acho justo que ele represente este país. Foi aqui que ele se tornou Matheus Nunes – afirmou sua mãe, Cátia, à CNN Portugal após a convocação para a Copa, lembrando também o incentivo ao filho no início da carreira. – Ele era jovem, e os jovens são um bocadinho parvos, não têm muita certeza sobre nada. Ele achava que o momento já havia passado, mas eu achava que não, e não permiti que ele desistisse.

Para o jogo contra a Suíça, o técnico Fernando Santos fez mistério sobre a escalação, em meio a rumores de que poderia sacar Cristiano Ronaldo — que acertou um contrato com o clube saudita Al Nassr, segundo o jornal Marca. O motivo seria o incômodo com a reação irritada do atacante após ser substituído contra a Coreia do Sul. Santos confirmou, em entrevista coletiva nesta segunda-feira, que “não gostou nada” da postura de CR7, mas disse que o problema “está resolvido”.

Ficha do jogo: Portugal x Suíça

Portugal: Diogo Costa, João Cancelo, Pepe, Rúben Dias e Raphael Guerreiro; Rúben Neves, William Carvalho, Bernardo Silva e Bruno Fernandes; João Félix e Cristiano Ronaldo.

Suíça: Sommer, Widmer, Elvedi (Schär), Akanji e Ricardo Rodriguez; Freuler, Xhaka e Sow; Shaqiri, Ruben Vargas e Embolo.

Local: Estádio Lusail (Doha). Horário: 16h. Árbitro: César Ramos (MEX). Transmissão: TV Globo, SporTV, Globoplay, Fifa+ e Twitch (@casimito).