Copa como meta, sobrepeso e falsos amigos: Cássio abre o jogo ao LANCE!

Bruno Cassucci e Gabriel Carneiro

Falsos amigos. Sobrepeso. Atrito com o preparador de goleiros Mauri Lima. Má fase. Esses e outros temas espinhosos foram tratados com naturalidade e sinceridade pelo goleiro Cássio, em entrevista exclusiva ao LANCE!.

O camisa 12 do Corinthians parece ter descoberto o que atrapalhou seu desempenho em 2016 e se mostra confiante na volta por cima. O início nesta temporada tem sido positivo, mas ele quer mais. O principal objetivo é disputar a Copa do Mundo de 2018, na Rússia.

Para isso, Cássio sabe que precisa estar bem no Timão e, por isso, mudou hábitos. Passou a descansar mais, alimentar-se melhor e selecionou com mais cuidado as pessoas que o cercam. Estes e outros temas foram pauta da entrevista que você confere abaixo:

Você mesmo reconhece que 2016 não foi um bom ano. Por quê?
Foi geral. O time não foi bem, mas é lógico que eu poderia me preparar melhor. Quando a gente erra, ninguém quer saber se tem problema, mas eu passei por um momento bem difícil que foi a perda da minha avó, e todo mundo que me conhece sabe o quanto ela é importante para mim. Eu tive culpa também. Poderia ter me cuidado melhor, não me cuidei, tinha que ter me preparado melhor. Mas foi um aprendizado, eu tinha que passar. Em algum momento eu passaria por isso.

Você estava acomodado?







Não digo acomodação, porque nunca deixei de me dedicar nos treinos, mas poderia ter aberto mão de algumas coisas que não me faziam bem. Quando eu fui para o banco também foi um momento de reflexão, fiquei uns dois meses refletindo, vi o que eu tinha, parei de achar culpa nos outros e passei a olhar só para mim. Vi que tinha que me melhorar, evoluir, abrir mão de certas coisas, escolher melhor minhas companhias, parar de andar com algumas pessoas fora de campo. Consegui isso e fico muito feliz. Tem jogadores que não têm essa percepção ou só descobrem com 35, 36 anos. Minha carreira poderia ter ido por água abaixo. Tive humildade para saber que tinha que trabalhar, me dedicar e voltar a me dedicar forte e dedicar meu caminho.

Mas qual era o problema? Alimentação, maus hábitos...?
Alimentação de uma forma geral. Até ano passado eu morava sozinho, às vezes não me alimentava bem, não descansava como tinha que descansar. Você tem que se programar, ter o momento para se alimentar, para dar entrevista, para descansar porque tem um jogo atrás do outro. Pequei um pouquinho nesse sentido. Juntando tudo isso, acabou sendo prejudicial.

A que atribui esse relaxamento? Tem a ver com o fato de já ter conquistado quase tudo no Corinthians?
Não acho que foi acomodação. Se pensasse que já tinha ganhado todos os títulos não teria me tocado e dado essa virada. Acho que um ponto que foi importante foi a questão do peso, me descuidei nisso, acho que foi um dos motivos que fez eu perder minha posição. Hoje eu corro porque gosto, não porque tenho que perder peso, já estou no peso ideal. Quanto menos peso eu tenho, melhor eu me movimento, mais ágil fico. Antes eu ia correr e depois não conseguia trabalhar bem com o Mauri (Lima, preparador de goleiros). Por ser alto é fundamental eu estar bem fisicamente, como estou hoje. E estava bem abaixo, isso ficou nítido para mim, não conseguia render e até ficava irritado. Eu percebi que isso era culpa minha, não adiantava colocar a culpa nos outros. O corpo é meu, eu sou o responsável.

E agora você está melhor.





Hoje tenho essa sabedoria, moro com minha noiva, tenho uma vida tranquila, ela me ajuda na dieta, tenho uma vida regrada. Não significa que eu só tenho que comer salada, mas eu preciso me cuidar. Ela me ajuda nesse sentido. Nas férias também tive apoio da família. Comi e bebi até o dia 1º de janeiro, mas já comecei o ano com uma dieta, uma programação de treinamento passada pelo clube. O mais importante é a força de vontade, mesmo tendo ganhado tudo que ganhei. Claro que tenho ambição de jogar uma Copa do Mundo, de conquistar mais títulos, Copa do Brasil, Sul-Americana, que não ganhei, repetir uma Libertadores, um Brasileiro. Jogo em um dos maiores clubes do Brasil, sou bem respeitado, um dos maiores do Brasil, não posso jogar tudo isso fora. Vi que tinha que voltar bem, isso partiu de mim, tive sensibilidade para perceber. Acho que não cheguei no meu auge, quero jogar melhor do que joguei aqui, não só conquistar títulos, mas ser regular. Estou indo atrás de números, ver quantos gols levei nos últimos anos. Preciso ter metas. Motivação não falta, jogo num dos maiores times do Brasil, conquistei marcas, posso fazer muito mais. Tenho que fazer isso por mim, pela minha família e pelo clube que abriu as portas para mim.

Pelo que você fala, falta de ambição não foi o problema. Você parece motivado.
Acho que tenho que me cobrar, ser melhor, senão você se acomoda. Eu tenho que ser melhor que no ano passado e nos últimos anos, não posso me acomodar porque ganhei títulos e tenho respeito no clube. Eu tenho que ter ambição de melhorar como atleta e pessoa, dar suporte para os meninos da base, para os jogadores que chegam, explicar como é o Corinthians, orientar a todos como um líder. Não preciso fazer média, mas eu devo muito ao Corinthians. Antes de vir para cá eu estava em uma fase que não sabia o que iria acontecer, era novo lá na Holanda, perto de fim de contrato, não tinha jogado muito, e o Corinthians abriu as portas para mim. O mínimo que posso fazer é me dedicar ao máximo ao clube, ajudar a brigar por títulos... É claro que sozinho não vou conseguir, precisamos de todos, mas eu me doo ao máximo. Quero chegar ao final do ano sabendo que me dediquei 100% ao meu trabalho, ir para as férias satisfeito com meu trabalho.

Você consegue apontar o momento em que se deu conta de que estava no caminho errado e que passou a dar a "virada"?
Teve uma série de situações: a perda da minha avó, a família mais próxima... Quando eu perdi a posição muitas pessoas se afastaram de mim, sumiram, e aí você vê as pessoas. Minha noiva conversava muito sobre isso, ter cuidado com as pessoas que colocamos dentro de casa, pessoas que se fazem de amigo, mas que só estão na hora boa. Hoje eu sei quem são meus amigos, que estão na hora boa e na hora ruim. Tenho meu filho também. Tenho a ambição que ele tenha orgulho de mim, veja a história, leia livros sobre mim. Quando eu saí de Veranópolis eu não tinha nada, olha o que construí para minha família! Se eu não tivesse nada, eles estariam comigo. Mas, cara... Eu não posso. Tenho uma carreira vitoriosa, preciso ter ambição de ir para Copa do Mundo, de chegar na Seleção. Mas preciso estar bem no Corinthians, senão não vou chegar a nenhum lugar. É meta pessoal, de saber que tem que evoluir. Chegou uma hora que eu estava em casa e pensei: "Estou na reserva, fora de forma, preciso dar um virada nisso" e não com ninguém me falando, é eu me conscientizando.

Mas você teve pessoas que te ajudaram, certo?
Muita gente veio falar "vamos", teve minha advogada, que é como uma mãe para mim, minha família, minha noiva. Eles viram que eu estava numa fase difícil, vinham ficar muito comigo. Só eu não estava enxergando que estava sendo prejudicial para mim. Eu precisava dar uma virada, evoluir. Teve o meu assessor de imprensa, meus amigos de infância, gente que passou nessa fase comigo na hora boa e na hora ruim. Eles que me ajudaram a dar essa virada, criar objetivos... Mesmo tendo ficado no banco, foi tudo aprendizado como ser humano e atleta.

Você falou em disputar uma Copa do Mundo. É sua grande ambição hoje?







Com certeza, quero chegar. Mas tenho convicção de que se não fizer o melhor aqui no Corinthians, não vou chegar. Vou trabalhar ao máximo e sempre estarei bem por isso. Copa é minha meta, mas se eu não estiver bem aqui não vou alcançar esse objetivo.

E a relação com o Walter? Ano passado vocês se alternaram como titulares e houve muita polêmica sobre isso.
Muita gente fala muita besteira sobre isso, a gente se dá super bem. Não só o Walter, o Caique, o Matheus. Quando o Walter estava jogando eu até me afastei da imprensa, porque muita gente foi oportunista, falaram besteira, coisas que me chatearam. Muitas vezes faziam coisas para botar eu contra o Walter ou me forçavam a falar coisas que o atingissem. Isso me chateou pelo respeito que sempre tive por ele. Nunca tive problema com ele, a gente se dá bem. É claro que em campo a gente vai buscar nosso espaço, queremos ser titulares. Tem um treinador para decidir quem joga ou não. O mesmo respeito que tinha pelo Walter quando ele chegou, eu tenho agora.

Tenho a impressão que você não gosta de falar desse assunto, fica de saco cheio...
Não é saco cheio. Eu não tenho nada contra o Walter. A imprensa tenta criar alguma polêmica pela disputa de posição. Eu frequentei a casa dele, ele frequentou minha casa. Tem muita gente que fica esperando eu ter um deslize para criar uma confusão entre eu e ele.

Já com o Mauri Lima, preparador de goleiros, houve um atrito realmente, não?
Teve um mal-entendido. Faltou o que teve depois, sentar e conversar. Dei uma entrevista na qual fui mal. Falei coisas, deveria ter conversado com ele, depois pedi desculpas e falei os pontos nos quais tinha que melhorar. Faltou diálogo das duas partes, mas serviu de aprendizado. Hoje não tem nada, essa é a sexta temporada que vou trabalhar com ele. A cada ano que passa ele vem trabalhando melhor, me cobrando mais, o que faz com que eu atinja um nível maior. São coisas que acontecem, do dia a dia da profissão. Me arrependo daquela entrevista que dei depois do jogo, mas acontece. Ouço também muita gente falando que o Tite não me convoca porque ficou uma coisa da entrevistas dele, ficaram meio brigados, mas de maneira alguma. A gente sentou, conversou, ele me mostrou por que eu perdi minha posição e eu concordei. Ele foi uma das pessoas que fez eu dar virada, não colocar a culpa nos outros. Falam também "o Cássio ajudou o Tite e não é convocado". De maneira alguma. Conheço com ele e fico feliz por ele agir na Seleção como era aqui. Não quero ser convocado porque o ajudei aqui, mas por méritos, porque mereço. Vou trabalhar para isso. Tenho amizade boa com ele, com o Mauri, não tem problema. Às vezes sou um cara meio irritado, mas tenho humildade de conversar com as pessoas quando eu errei. Não tenho problema com ninguém, me dou bem com todo mundo, isso me motiva a trabalhar e crescer mais no Corinthians.

Ainda fala com o Tite?







Não, não conversei mais com ele. Ele está cheio de coisas para resolver lá na Seleção. Fico muito feliz com o trabalho dele, tínhamos certeza que ele seria um vitorioso pela forma que ele comanda o time, pela honestidade que trabalha com os jogadores. A gente fica feliz por trabalhar com ele, o Fabio (Mahseredjian, preparador físico), Matheus (Bachi, filho dele), Cleber Xavier, Sylvinho, toda a comissão. São pessoas de caráter. Independentemente de ser convocado um dia ou não vou sempre estar na torcida porque são pessoas do bem. Sou suspeito de falar, o Tite foi um cara que me fez crescer como pessoa e como atleta. Serei eternamente grato a ele.

Você mencionou algumas pessoas que se afastaram de você na fase ruim. Elas se reaproximaram?
Não, elas não têm mais espaço (risos). Elas se afastaram e ficaram fora. A gente tem que saber quem a gente quer do nosso lado, quem são as pessoas legais. A vida sempre traz aprendizados, estamos sujeitos sempre a decepções. Deu para perceber várias pessoas que queriam estar comigo pelo meu status ou por um bom momento. Isso é normal, não é só com atleta, acontece com vocês também, é normal do ser humano.

Além de ir à Copa, você tem outras metas? Jogos, gols, peso ideal...
De peso já consegui (risos). Essa parte física consegui solucionar bem com treinamento e me cuidando, isso não é mais um problema, tenho isso na cabeça. Quero jogar o máximo possível, bater o recorde de partidas pelo Corinthians em um ano, ter meu ano menos vazado, e títulos, é claro.

Sabe qual foi seu recorde de jogos em um ano?
60 e alguma coisa, não sei exatamente, até pedi para o pessoal me passar gols e jogos para ter como meta. Quero me cuidar bem, não ter problemas de lesão e jogar o máximo possível.

Qual a importância do seu filho nesse processo de dar a volta por cima? Ele te acompanha, vai aos jogos?
Ele canta o hino melhor que eu, cara (risos). Teve até uma briga. Ano passado ele entrou na escola e podia ir com qualquer roupa, então ele sempre ia com a camisa do Corinthians. Agora não pode mais, fica uma choradeira para tirar a camisa. Ele gosta, sabe cantar o hino do Corinthians direitinho... Para mim é uma motivação. Sou muito grato por ter meu filho. Ele sempre está me acompanhando, sempre assiste aos jogos, sabe quando eu entro em campo. É uma motivação a mais.

Durante a má fase, você pensou que só poderia reagir em outro clube? Foi aconselhado a sair?









Quando vê a pessoa desanimada, meio triste, os amigos vêm e conversam: "Poxa, de repente seja melhor procurar novos ares". Outros falaram "o que você conquistou no Corinthians não vai conquista em lugar algum". Muita gente falou. Isso serve como desafio, tanto o positivo como o negativo. É preciso trabalhar e evoluir. Tive proposta para sair, sondagens, mas desde o ano passado sempre demonstrei que queria ficar aqui. Antes mesmo de acabar a temporada sabia que queria ficar, melhorar. Tinha em mente as metas, sabia que era preciso me cuidar nas férias, queria fazer mais.

Você chegou a falar com seus empresários sobre deixar o Corinthians?
Isso é tudo mentira, tem muita gente dizendo um monte de coisa. Nunca falei com meu empresário sobre isso. Ao final da temporada, falei para ele "se aparecer algo depois, a gente senta e conversa". Nas férias eu passei para eles que trabalharia para recuperar minha posição, nem quis saber sobre possibilidades. Vim com a cabeça focada em fazer o melhor no Corinthians. Tenho história grande no Corinthians, farei de tudo para ela ficar ainda maior.

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