Copa Além da Copa: a Croácia e o ultranacionalismo que respinga no futebol

O projeto Copa Além da Copa traz ao GLOBO textos que relacionam política, cultura, história, arte e sociedade com o futebol

A Croácia se junta a três campeãs mundiais, Brasil, França e Inglaterra, no grupo das seleções que alcançaram as quartas de final tanto na Copa do Mundo de 2018 quanto na de 2022. País muito jovem que disputou seu primeiro Mundial apenas em 1998, é uma fábrica de polêmicas quando disputa competições internacionais.

Isso porque a identidade croata ainda se mistura com um ultranacionalismo étnico que muitas vezes é ofensivo e até cruel. O fato de o último período como Estado independente antes do atual ter sido na Segunda Guerra Mundial, sob governo nazifascista, apenas piora a questão no uso de símbolos e cantos e no desenvolvimento identitário.

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A Croácia foi independente pela primeira vez em 879. É dessa época a lenda sobre a origem de sua bandeira e, consequentemente, de sua icônica camisa: o Rei Stjepan Držislav, ao ser capturado pela República de Veneza, teria desafiado o mandatário rival a três partidas de xadrez valendo sua liberdade e a posse da Dalmácia. Exímio no jogo de tabuleiro, venceu todas e, em comemoração, colocou o símbolo no brasão de armas do país.

Mas problemas internos levaram a uma união com a Hungria em 1102 e a oito séculos sem saber o que era independência. Os Habsburgos e o Império Otomano travaram guerras pelo território, que no século XIX era parte do Império Austro-Húngaro.

É nessa época que surge o Movimento Ilírio, que valoriza o idioma e a cultura croatas, e o pan-eslavismo, um clamor pela união dos povos eslavos, que resulta em guerras de independência e alterações no mapa dos Bálcãs. Em 1918, ao fim da 1ª Guerra Mundial, o parlamento croata decide se unir ao Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, logo Reino da Iugoslávia (nome que significa “terra dos eslavos do sul”).

Futebol como estopim

Na 2ª Guerra, o Eixo invadiu a Iugoslávia e a dividiu, criando o Estado Independente da Croácia, comandado pelos Ustase, a milícia fascista croata. Ela promoveu genocídio étnico contra sérvios, judeus e ciganos na região. Esse raro período de soberania croata acabou com o fim do conflito, quando a Iugoslávia voltou a ser uma só, agora um país socialista governado pelo Marechal Tito, líder dos partisanos que libertaram toda a região.

A Iugoslávia se manteve unida sob Tito, mas se esfacelou após a sua morte na década de 1980.

O futebol sempre foi um esporte importante na Iugoslávia, funcionando muitas vezes como válvula de escape para as diferenças étnicas do país. Mas o clima mudou no final dos anos 1980, e uma partida entre o Estrela Vermelha de Belgrado e Dínamo de Zagreb em 1990 mostrou isso claramente.

Rivais, os clubes eram os principais representantes no futebol de Sérvia e Croácia, duas das repúblicas que formavam a Iugoslávia. Suas torcidas organizadas eram inimigas e cada uma exaltava um nacionalismo étnico. Eleições recentes na Croácia haviam mostrado uma tendência pró-independência.

Para a partida, em Zagreb, capital croata, cerca de 3 mil sérvios viajaram, levando faixas como “Zagreb é da Sérvia”. No estádio, furaram a proteção do policiamento, o que iniciou uma pancadaria generalizada.

A polícia reprimiu a briga com mais violência. Revoltado, o jogador croata Zvonimir Boban acertou uma voadora em um dos policiais, uma cena que foi romantizada. Era, afinal, um croata se rebelando em público contra uma autoridade iugoslava. Não demoraria para estourar a Guerra de Independência na Croácia.

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O conflito se deu muito porque, dentro do território croata, havia uma grande população etnicamente sérvia. Nos tempos de paz, isso nunca foi um problema. Mas, quando a Croácia declarou sua independência, em 1991, sérvios que ali viviam desejavam a criação de uma outra república sérvia, dentro do território reclamado pelos croatas.

A guerra, travada entre povos que conviveram pacificamente por décadas, foi extremamente violenta. Ela durou até 1995, deixando mais de 20 mil mortos e gerando centenas de milhares de refugiados. É difícil encontrar algum croata cuja vida não tenha sido tocada pelo conflito de alguma forma.

É o caso de Luka Modric, ainda o maestro da seleção da Croácia, mesmo aos 37 anos. O jogador foi eleito o melhor do mundo pela FIFA em 2018, ano em que ajudou a levar o país ao vice-campeonato na Copa da Rússia. Seu avô, de quem herdou o nome Luka, foi assassinado na porta da casa da família, e ele aprendeu a jogar futebol no estacionamento de um hotel para refugiados.

As polêmicas de 2018

A seleção croata foi criada quando da independência e, assim que o conflito acabou, ela mostrou sua força: se classificou para a Euro de 1996 e para a Copa do Mundo de 1998. Na sua estreia em Mundiais, fez uma brilhante campanha, chegando ao terceiro lugar, e com o artilheiro do torneio, Davor Suker.

Desde então, a Croácia só ficou fora de uma Copa, em 2010. Mas a melhor campanha de fato ocorreu na Rússia, quando a seleção acabou virando assunto também pelo extracampo, envolvendo-se em polêmicas demonstrações nacionalistas.

Durante a guerra, ao resgatar o nacionalismo croata, a população acabou se voltando às referências do último período em que a Croácia havia sido independente: quando o país foi um Estado-fantoche dos nazistas. Criada durante o conflito, a banda de rock Thompson, por exemplo, além de ter nome de uma submetralhadora usada na guerra de independência, tem canções que exaltam a Ustase.

Após vencerem a Argentina na fase de grupos há quatro anos, os jogadores croatas foram filmados no vestiário cantando uma música da banda. A canção cita a saudação “Za dom spremmi” (“pela pátria, pronto”), que era utilizada pelos fascistas croatas.

Hinos nacionalistas cantados pela Thompson são comuns em jogos de futebol na Croácia e, quando a seleção retornou a Zagreb após a Copa de 2018, o vocalista do grupo, Marko Petrovic, subiu ao palco junto com os jogadores em meio aos festejos. Os atos provocaram revolta nos países vizinhos.

Em 2022, a seleção está mais discreta, tanto em campo quanto nessas demonstrações. Mas a campanha croata de 2018 mostra como o futebol de seleções também tem seus riscos, ao ativar símbolos ufanistas e remexer identitarismos étnicos.