Convidada surpresa à Eurocopa, geopolítica desestabiliza a Uefa

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O presidente da Uefa, Aleander Ceferin

Camisas polêmicas, joelhos no chão, apoio aos direitos LGTB +: as questões políticas invadiram a Eurocopa de futebol, para desespero de uma Uefa mais uma vez confrontada a suas contradições e que se viu obrigada a navegar entre os onze países anfitriões.

A instituição "não esperava uma Eurocopa tão marcada politicamente", resumiu à AFP Carole Gomez, diretora de pesquisa do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS).

Do Eliseu à diplomacia alemã, passando pelo sindicato mundial de jogadores de futebol, a Uefa recebeu uma chuva de críticas por não autorizar na terça-feira a cidade de Munique a iluminar o seu estádio com as cores do arco-íris para o jogo Alemanha-Hungria, em protesto contra uma lei húngara considerada discriminatória.

"Querida Uefa, vocês são um bando de mentirosos. Preferem cerrar fileiras com seus parceiros homofóbicos, seja em Budapeste, Moscou ou Baku. Respeito? Tolerância? Não. Pelo menos não quando isso afeta os negócios", atacou, entre outros, a televisão alemã ARD.

Já no domingo, o órgão com sede na Suíça irritou a Alemanha ao questionar a faixa arco-íris do capitão da 'Mannschaft', Manuel Neuer, embora finalmente tenha descartado qualquer "investigação disciplinar" por promover "uma boa causa, a diversidade".

- Onze "contextos políticos" -

Mesmo antes da abertura da competição, em 11 de junho, Moscou colocou o organismo em apuros ao questionar três elementos no uniforme da seleção ucraniana, forçando a Uefa a ordenar a remoção do lema "Glória aos nossos heróis". Depois, por pressão de Kiev, concordou que a frase fosse coberta por um pedaço de pano.

Poucos dias depois, a Grécia protestou contra uma sigla na camisa da Macedônia do Norte, desta vez sem êxito, um lembrete do que está geopoliticamente em jogo nas dobras de cada uniforme.

Como se isso não bastasse, dois jornalistas tiveram que lutar por seu credenciamento em Baku e São Petersburgo, o primeiro por uma estadia na região separatista de Nagorno-Karabakh e o segundo após várias investigações sobre as ligações entre esporte e política.

"Primeira grande competição internacional desde o início da pandemia", a Eurocopa "cristaliza tensões e suscita particular atenção", com uma série de reações a cada episódio, destaca Carole Gomez.

E o seu formato inédito, idealizado pelo francês Michel Platini para unir o continente por ocasião do 60º aniversário do torneio, não ajuda: onze cidades em onze países-sede significam "contextos políticos diferentes" e oportunidades de enfrentá-los, aponta a pesquisadora.

E o fato é que havia poucas chances de a social-democrata Munique, em uma Alemanha que aprovou o casamento igualitário em 2017, apreciasse a lei que a Hungria soberanista e conservadora aprovou na terça-feira, proibindo a "promoção" da homossexualidade entre menores.

- "Caixa de Pandora" -

Pelo contrário, o governo de Viktor Orban tem manobrado para transformar a Eurocopa numa vitrine política, transformando Budapeste no único estádio cheio do torneio, a tal ponto que a Uefa avaliou por um tempo realocar para lá as semifinais e a final.

Para administrar as expectativas contraditórias dos países organizadores, o organismo se apega mais do que nunca à sua linha "apolítica", que historicamente permitiu a todas as entidades esportivas afirmar sua autonomia perante as nações, principalmente durante a Guerra Fria.

Mas o que está em jogo no debate público mudou: além dos conflitos tradicionais entre vizinhos (russo-ucraniano ou grego-macedônio), a Eurocopa viu surgirem tensões em torno dos modelos de sociedade, enquanto o racismo e a homofobia têm impactos muito diferentes, em função da cultura política ou religiosa de cada país.

No entanto, ao usar na quarta seu logotipo arco-íris após impedir o estádio de Munique de fazê-lo, busca um compromisso impossível entre suas 55 federações associadas, embora os "valores" igualitários que proclama impliquem um mínimo de coerência.

Em termos mais amplos, a organização vê que "se abre uma caixa de Pandora para o esporte internacional", diz Carole Gómez: se é "profundamente ingênuo continuar a acreditar em seu caráter apolítico, abrir caminho a um certo número de demandas também poderia ser difícil de administrar".

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