Como começar uma conversa sobre diversidade racial com crianças?

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Quanto antes as conversas sobre raça começarem, melhor para o desenvolvimento de uma criança com menos preconceitos (Foto: Getty Creative)
Quanto antes as conversas sobre raça começarem, melhor para o desenvolvimento de uma criança com menos preconceitos (Foto: Getty Creative)

"Em caso de despressurização, coloque a máscara de oxigênio primeiro em si mesmo, e depois ajude os outros". O aviso de segurança, tão comum em aviões, pode ser visto como um gancho e tanto quando se fala na discussão racial - e, principalmente, se o assunto é começar uma conversa sobre raça com crianças. 

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O momento que vivemos agora, com os protestos Vida Negras Importam nos Estados Unidos e no Brasil, mostra que passou a hora de essas conversas serem normalizadas e usadas como ferramentas para gerar mudanças sociais profundas. Fato é: uma das principais queixas da comunidade preta é como ela não é ouvida e, não sendo ouvida, suas necessidades e a violência que sofrem continuam sendo ignorados. E um ponto importante, não significa que não tenham voz, sempre tiveram, e nenhum branco precisa dar voz para pessoas pretas.

Como então, trazer uma conversa tão desconfortável, do ponto de vista social e histórico, para a formação de uma criança? Segundo Juliana de Paula Costa, consultora em educação antirracista e co-criadora do projeto Pisar Nesse Chão Devagarinho, esse processo é essencial, mas precisa começar com os próprios pais. 

"Para que adultos ajudem seus filhos a desenvolverem visões mais justas, precisam primeiro revisar em si mesmos como está essa visão e buscar atualização dos conceitos e pensamentos que dizem respeito a construção racial em nosso país", explica. "De nada adianta conversas embasadas em ‘achismos'. É importante que os adultos entendam do que estão falando para que busquem de forma mais consciente e autônoma como abordar a questão racial com seus filhos."

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Ou seja, buscar aprender sobre as questões raciais, frequentar espaços com diversidade racial e consumir conteúdos que sejam também produzidos e protagonizados por pessoas pretas, como livros, filmes e músicas, é um ponto chave. 

Essa base é importante para um segundo passo: começar a educação antirracista das crianças. A principal dificuldade nesse ponto, segundo Juliana, é passar uma visão realista do assunto, justamente por conta das dores e injustiças que englobam. 

Porém, quanto antes a temática for introduzida, melhor. Por um lado, torna-se mais fácil de aprofundá-la e ajudar uma criança branca, por exemplo, a criar uma visão centrada na busca de soluções e não apenas contribuir para o viés raso do "somos todos iguais". Quando se fala em crianças pretas, essas conversas auxiliam elas mesmas a elaborarem experiências e buscarem formas de se protegerem das violências causadas pela discriminação racial. 

"O espaço do diálogo e contestação pode ser iniciado a partir de uma dinâmica intencional. A escuta e o acolhimento das manifestações de desconfortos podem disparar diálogos construtivos e reflexivos", complementa Arianda Patricia Linhares Bispo, professora da rede particular, e também co-criadora do projeto Pisar Nesse Chão Devagarinho, em que coordena vivências para crianças.

Mas, como começar uma conversa sobre diversidade racial com crianças? 

Em primeiro lugar, Juliana lembra da importância das escolas, especialmente as da rede particular, cumprirem a lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da cultura afro-brasileira e africana nas escolas, de forma sistemática e perene. 

"O antirracismo e a valorização dos saberes afro-brasileiros, devem caminhar juntos na educação de maneira contínua: explicando as injustiças e divulgando as belezas e saberes do povo negro", explica a consultora.

Dentro de casa, trazer elementos que explorem essa cultura também é uma maneira de introduzir aspectos para a conversa e aumentar a visão da criança sobre a diversidade de raças. Os livros são uma ótima forma de fazê-lo. "Penso na afetividade manifestada na voz de quem narra uma boa história", diz Arianda. "A narrativa traz a realidade de contextos de amor, cuidado beleza, vida, crescimento, afetividades, sensibilidades, encontros... Algo comum e óbvio existente em famílias, indiferente de cor ou raça. E que são existências desprezadas quando se trata do contexto da família negra, onde perdura o senso comum de famílias desestruturadas, uma realidade que precisa ser desconstruída."

A professora, aliás, indica uma série de autores infantojuvenis que exploram essa temática, como Sonia Rosa, Kiusam de Oliveira, Josias Marinho e Laurie Krebs, por exemplo. Ela explica ainda como é importante também garantir que essas referências bibliográficas tenham uma mensagem condizente com a estética das ilustrações e com os valores que os pais gostariam de ensinar para as crianças. 

Começar essas conversas pode ser desconfortável e confuso, mas os benefícios que trazem são muito maiores do que os incômodos iniciais. Segundo Juliana, a visão e o pensamento antirracista permite que as crianças cresçam com menos preconceitos. "Conversar com crianças sobre o assunto, continuamente, ajuda que elas desconstruam pensamentos e ações que podem, muitas vezes, reproduzir o racismo. Ou seja, ajuda que elas cresçam com mais capacidade de lidar com as diferenças, caso sejam brancas, e a ter mais autoestima e formas de proteção, no caso de crianças negras", diz.

Vale lembrar que o racismo não é uma exceção, é a regra. Ele faz parte da sociedade em que vivemos de uma forma estrutural. Ou seja, o racismo não diz respeito apenas a casos de injúria racial, mas faz parte da organização das instituições e até da forma como as pessoas se relacionam. 

Investir em conversas consideradas difíceis e abrir espaço para a criança aprender a ter uma visão mais abrangente, acolhedora e, claro, antirracista, é uma forma de combater essa estrutura a longo prazo e gerar mudanças duradouras e efetivas. 

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