Conselho do Flamengo vota patrocínio da Havan nesta sexta; especialistas avaliam caso ao L!

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O acordo entre Flamengo e Havan, anunciado nesta segunda-feira, reacendeu a discussão a respeito da aproximação do clube com o governo de Jair Bolsonaro (sem partido). Afinal, Luciano Hang, um dos fundadores e atual dono da rede de lojas, é um dos grandes apoiadores do presidente da República. Reflexo do ambiente político vivido no Brasil, a torcida rubro-negra também se dividiu em manifestações contrárias e a favor do novo patrocinador. O Conselho Deliberativo do clube da Gávea votará nesta sexta a aprovação da parceria.

Diante disso, o LANCE! ouviu especialistas a respeito do tema sobre quais podem ser os benefícios e malefícios à imagem do Flamengo com o novo patrocínio. Abaixo, a reportagem relembra episódios em que a gestão de Rodolfo Landim esteve próxima do governo do presidente Jair Bolsonaro.

- Os dirigentes precisam colocar em uma balança a responsabilidade pela saúde financeira da instituição e o cuidado com toda a representatividade envolvida no clube para fazer aquilo que se espera deles: tomar uma boa decisão - avaliou Marco Sirangelo, mestre em Gestão Esportiva pela Universidade de Loughborough (Inglaterra) e bacharel em Administração de Empresas pela FGV.

- O acordo de patrocínio com a Havan marcou de vez o alinhamento do Flamengo com o governo de Bolsonaro. E não se trata de uma aproximação devido a interesses, mas por alinhamento ideológico. A diretoria rubro-negra toma uma atitude arriscada - afirmou Rodrigo Monteiro, professor de Sociologia da UFF/IUPERJ.

COM A PALAVRA
Rodrigo Monteiro - Professor de Sociologia da UFF/IUPERJ


"Na verdade, as associações de clubes de futebol com governos não chegam a ser novas. Na Espanha, o Real Madrid de Di Stefano ficou associado ao Franquismo (ditadura de Francisco Franco), a Seleção Brasileira teve sua imagem colada à Ditadura Militar. O próprio Getúlio Vargas fazia o uso político da Educação Física, para valorizar um povo fértil e saudável.

Bolsonaro não aparece exclusivamente com a imagem do Palmeiras. Ele já posou com camisas de Palmeiras, Santos, Corinthians, tentando se aproximar dos seus eleitores por meio do esporte.

O acordo de patrocínio com a Havan marcou de vez o alinhamento do Flamengo com o governo de Bolsonaro. E não se trata de uma aproximação devido a interesses, mas por alinhamento ideológico. A diretoria rubro-negra toma uma atitude arriscada.

O acerto com uma empresa que tem como proprietário um apoiador de Jair Bolsonaro gera também reações de rubro-negros que não gostam do governo. E este acordo com a Havan acontece em um momento no qual o presidente está com um governo considerado ruim e em meio à CPI da Covid.

Há um risco de o Flamengo ficar mais associado a um governo que teve medidas escusas e errou no combate à pandemia de Covid-19. É algo que pode custar caro à imagem do clube. Claro que não acredito que cheguem a deixar de torcer para o Flamengo. Porém, há forte possibilidade de grupos que não gostam de Bolsonaro boicotarem os produtos por terem patrocínio da Havan, marca que apoia o bolsonarismo. Diante destas situações, rubro-negros ainda terão outro desafio: explicar às futuras gerações a razão da diretoria ter se aproximado de um governo com tantas controvérsias."

BATE-BOLA
MARCO SIRANGELO - Mestre em Gestão Esportiva pela Universidade de Loughborough (Inglaterra) e Bacharel em Administração de Empresas pela FGV, foi Analista de Marketing do Palmeiras entre 2009 e 2010 e Gerente de Projetos da ISG, de 2011 a 2016. Atualmente é Head de Projetos na consultoria OutField.

1. Diante do atual cenário político, que "divide o país", quais são os cuidados que um clube deve ter ao associar a sua imagem a uma marca?

A associação entre um clube de futebol e uma marca passa por diversos pontos interessantes. Sob o ponto de vista do clube, existe um lado puramente racional e outro lado com aspectos que não são diretamente econômicos. No primeiro aspecto, é sempre importante que o clube consiga negociar suas propriedades comerciais, tendo em vista que mesmo em anos não-pandêmicos (que dirá em um!), o futebol é uma atividade com fontes de receita relativamente restritas, basicamente formadas pelos direitos de TV + bilheteria e sócio torcedor + venda de jogadores + propriedades comerciais, e mesmo assim com muita dificuldade para fechar a conta no fim da temporada.

Do ponto de vista não necessariamente racional, um clube de futebol é uma instituição que carrega muito simbolismo e tem no sentimento de pertencimento com seus torcedores um fator chave. Justamente por não ser um aspecto necessariamente econômico, esse ponto de vista simbólico é menos explorado do que deveria pelos clubes, na minha opinião, mas é evidente que um dirigente responsável precisa sempre ponderar todos os lados na hora de tomar uma decisão de se associar a uma determinada marca. Ou seja, mesmo não sendo uma decisão fácil, os dirigentes precisam colocar em uma balança a responsabilidade pela saúde financeira da instituição e o cuidado com toda a representatividade envolvida no clube para fazer aquilo que se espera deles: tomar uma boa decisão.

2. Deixando de lado o valor contratual do acordo, de que forma uma parceria pode gerar benefícios ou malefícios a um clube, no caso o Flamengo?

Acredito que uma parceria saudável é aquela que satisfaz todos os lados envolvidos nela. Ou seja, do lado da marca é importante que ela obtenha os retornos de mídia, reconhecimento, conversão de vendas e/ou de novos clientes que estão atrelados à estratégia de patrocínio, enquanto o clube também consiga se valorizar como um bom agente expositor e sistematicamente possa obter melhores contratos.

Dessa forma, é sempre importante que exista sinergia entre as partes e o que impacto gerado pela parceria seja positivo. Evitar um cenário contrário é bastante importante aos clubes. E aqui vale uma ressalva, pois os valores praticados pelo mercado do futebol brasileiro hoje são semelhantes e, em alguns casos, até inferiores ao que era praticado há 10 anos. Além disso, o perfil das marcas patrocinadoras mudou bastante – se antes era comum observarmos grandes empresas multinacionais nas camisas dos clubes, hoje em dia nos acostumamos a ver grandes clubes sem parceiros e marcas muitas vezes desconhecidas nas camisas, isso enquanto as principais ligas europeias permanecem ostentando marcas globais. Isso é um indício que a gestão irresponsável dos clubes e o produto futebol brasileiro como um todo não se desenvolveu como poderia.

3. Para a parceria com a Havan ser oficializada, resta a aprovação do Conselho Deliberativo. Em tempo de redes sociais, qual deve ser o peso de dados das redes sociais - de aprovação ou desaprovação após o anúncio de um patrocínio, neste caso - devem ser utilizados para dar continuidade aos planos? É possível utilizar essas informações de forma estratégica?

Sem dúvidas. Para o bem e para o mal, as redes sociais diminuíram a distância entre o clube e seus torcedores, e o monitoramento do comportamento de seus fãs é capaz de gerar conclusões muito valiosas. De qualquer forma, é necessário traquejo aos tomadores de decisão e também conhecimento do ambiente das redes sociais para que os interesses do clube sempre estejam acima de eventuais discussões.

Da mesma forma, caso uma análise meticulosa envolvendo os comentários nas redes sociais identifique que o novo patrocínio possa prejudicar a imagem do clube de forma considerável, essa é uma informação que precisa ser considerada, assim como a informação de que as receitas do clube reduziram 20% em 2020 e o déficit anual superou os R$ 100 milhões, apenas para citar alguns exemplos.

4. Esta não é a primeira aproximação da atual gestão do Flamengo com o governo de Jair Bolsonaro. Já houve alinhamento das partes na questão da MP do Mandante, do retorno do futebol em meio à pandemia e visitas do presidente da República a treino em Brasília. A rejeição ao presidente, segundo a pesquisa mais recente da DataFolha, alcançou 54%. Qual deve ser a postura institucional do clube para que não cole sua imagem a de um governo sem abrir mão de seus interesses?

Não é nada difícil associar o posicionamento da atual diretoria do Flamengo com os do atual presidente. Acrescento a isso o fato do Flamengo ser o clube com mais torcedores no país e estar em evidência esportiva após os últimos anos de muito sucesso. Tudo isso já seria motivo para que o clube estivesse despertando opiniões contrárias dos demais torcedores de futebol, mas ainda há o agravante de alinhamento com um governo que, para dizer o mínimo, é bastante polêmico e rejeitado pela maioria dos brasileiros.

O acordo com a Havan corrobora também com essa narrativa, pois mais do que alinhada com o governo, seu fundador é um símbolo concreto do Bolsonarismo.

De todo modo, é incomum vermos clubes com posicionamento político institucional em nosso país, fazendo com que a postura de seus dirigentes sejam uma representação disso. E novamente, cabe aos tomadores de decisão encontrarem caminhos que julguem ser os melhores para os interesses de seus clubes. Se formos analisar, o Flamengo conseguiu um bom contrato com uma empresa cujo dono tem alinhamento com o governo. Será que a proximidade do Flamengo com Bolsonaro também foi um fator para atrair o interesse da marca? Mas até que ponto essa associação do clube com um governo que tem índices altos de rejeição pode prejudicar a marca do clube no futuro? É esperado que a tomada de decisão leve em conta esses aspectos, entre muitos outros nessa difícil discussão.

A MP DO MANDANTE

Desde 2019, a diretoria de Rodolfo Landim mantém uma relação próxima ao presidente da República, com visita oficial do clube ao Palácio do Planalto, e a presença de Jair Bolsonaro em partidas e até treino do Flamengo em Brasília. Um dos episódios foi em referência à Medida Provisória 984/2020, que passava os direitos de transmissão das partidas esportivas ao clube mandante do jogo.

O presidente do Flamengo, e outros dirigentes, foram à Brasília tratar do tema com Jair Bolsonaro. A MP do Mandante, como ficou conhecida, foi assinada pelo presidente da República em 18 de junho. A legislação vigorou por 120 dias. Na ocasião em que editou a MP, Jair Bolsonaro disse que o seu governo estava "democratizando o futebol" ao permitir que os clubes mandantes tenham a prerrogativa de negociar os direitos de transmissão doss jogos.

Como a MP não foi apreciada na Câmara. tampouco chegou ao Senado, voltou a vigorar o texto original da lei que diz que, para uma partida ser televisionada, o veículo de comunicação deve entrar em acordo com os dois times envolvidos.

O Flamengo, por meio de seu vice-presidente geral e jurídico, lamentou que a medida provisória não tenha sido votada no Congresso. Segundo Rodrigo Dunshee, uma "oportunidade histórica" foi perdida, mas o "filme não acabou".

RETORNO DO FUTEBOL EM MEIO À PANDEMIA

Um dos clubes que trabalhou pelo retorno do futebol em maio à pandemia do coronavírus, ainda no primeiro semestre de 2020, o Flamengo buscou e teve o apoio do presidente Jair Bolsonaro. Em maio do ano passado, Rodolfo Landim foi ao encontro do presidente da República em Brasília. A reunião também contou com as presenças do Dr Márcio Tannure, chefe do departamento médico do Flamengo, e Alexandre Campello, então mandatário do Vasco.

E não foi a primeira vez que Bolsonaro esteve reunido com dirigentes do clube da Gávea. Em fevereiro de 2020, no Palácio da Alvorada, o presidente do país recebeu a direção rubro-negra, além de Jorge Jesus, para debater a respeito de mudanças legislativas para o futebol brasileiro, como o tema "clube-empresa".

PRESENÇA EM JOGOS E TREINOS DO FLAMENGO

A proximidade resultou em presença de Jair Bolsonaro em vários jogos do Flamengo ao longo dos últimos anos. Seja em Brasília, quando o Rubro-Negro atua no Mané Garrincha, seja no Maracanã, casa do clube no Rio de Janeiro.

Já em janeiro desde ano, o presidente do Brasil foi a um treino do Flamengo em Brasília, quando o time de Rogério Ceni estava na capital por conta da partida contra o Palmeiras, no Mané Garrincha e foi recebido por atletas e dirigentes.

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