Consciência dos foliões colabora na redução de lixo no carnaval

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(IBRAHIM CHALHOUB/AFP via Getty Images)
(IBRAHIM CHALHOUB/AFP via Getty Images)

Carnaval é sinônimo de bagunça e despreocupação. A ruas são invadidas por multidões embriagadas, ansiosas para aproveitar a inconsequência momentânea que a festa oferece. Mas apesar da magia, as sequelas são incontornáveis, e a principal são os resíduos descartados nas calçadas, centenas de toneladas de lixo. Por outro lado, gerações mais novas estão cada vez mais conscientes de seu impacto no meio ambiente, e tal conscientização é notada por quem trabalha na limpeza da cidade.

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Em São Paulo, onde o carnaval está a cada ano mais populoso, o crescimento não representou aumento na quantidade de lixo. Quem afirma é Evaldo Azevedo, Diretor de Serviços da Amlurb, órgão responsável pela gestão dos resíduos e limpeza urbana da cidade: “O carnaval aumentou em torno de 30%, mas houve redução na coleta de resíduos em relação ao ano passado”.

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A força-tarefa da prefeitura inclui mais de 3 mil pessoas contratadas para trabalhar no período entre pré, carnaval e pós-carnaval. “Não vou dizer que é uma operação de guerra, porque é uma festa, mas é uma operação muito forte”, afirma Azevedo, que compara com outras grandes aglomerações como a Marcha para Jesus, a Parada do Orgulho LGBT e a Virada Cultural: “a diferença é que são 3 semanas seguidas”.

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A Amlurb contabilizou mais de 560 toneladas de resíduos coletados, e todo o material seco foi enviado para as centrais mecanizadas de triagem. Além disso, a prefeitura informa ter utilizado 3.630m³ de água de reuso e 8.764 litros de desinfetante para a limpeza das vias, que incluem tanto as ruas por onde passam os blocos, oficiais e não-oficiais, como os desfiles no Anhembi.

Cooperativas de reciclagem

A força-tarefa contou com apoio de cooperativas de reciclagem habilitadas na prefeitura e contratadas pela Ambev, patrocinadora do carnaval de São Paulo. “Essa foi uma ação nova, que ajudou a diminuir a quantidade de resíduos”, afirma Azevedo. Os catadores marcaram presença na folia e transformaram os materiais descartáveis em renda para trabalhadores.

“Para nós é uma época ótima, porque a gente consegue aumentar nosso valor hora e também a nossa autoestima, consegue trabalhar e se divertir ao mesmo tempo”, atesta Lucia Oliveira da Silva, presidente da Cooperativa Central Tietê, que atuou no Anhembi. “Enquanto a escola de samba passa, o público fica na arquibancada e a gente fica na parte de baixo, onde está vazio, para fazer a recolha”.

“O que a gente coleta não é lixo, preciso retificar, é o material reciclável que estamos lá para recolher”, corrige ela, “somos em 40 pessoas, e todo mundo trabalha todas as noites, dormimos durante o dia”. Outra cooperativa da capital, a Rainha da Reciclagem, também trabalhou para manter o sambódromo limpo, e a renda do material recolhido foi toda revertida para os coletivos.

A consciência limpa dos foliões

Azevedo explica que grande parte do material descartado são embalagens de bebida, e o que mais sobra são garrafas de plástico, já que as latinhas de alumínio, mais valiosas, são coletadas antes. Questionado sobre como o folião pode ajudar a manter a cidade limpa, ele afirma que “a primeira coisa é diminuir o uso do material, trazer um copo reutilizável, por exemplo”.

“Descartar o material corretamente nos contêineres, não jogando na rua, onde ele pode ser contaminado. A probabilidade de ser reciclável é maior, porque quando o material molha ou entra em contato com a sujeira da via, fica mais difícil de ser reaproveitado”.

No Rio de Janeiro, a preocupação com o meio ambiente no carnaval virou negócio para Frances Sansão, fundadora da empresa Pura Bioglitter. “Em 2016 eu descobri que glitter era microplástico, e fui procurar alternativas sustentáveis. Não encontrei e comecei a fazer testes caseiros até chegar em nossa fórmula, que é mica, uma pedra muito usada na indústria cosmética para dar brilho em sombra, e ágar-ágar, que é uma alternativa vegana para a gelatina”.

Ela conta que no começo a demanda era pouca, mas que entre 2017 e 2018 o tema ficou em voga. “Saíram matérias sobre microplásticos, e o impacto no meio ambiente. Junto com a consciência ambiental veio essa alternativa para o glitter, e a procura aumentou muito desde então”.

Hoje várias outras empresas produzem no Brasil alternativas sustentáveis para os enfeites. Em ascensão, o mercado pode ganhar estímulo de um projeto de lei que tramita em Brasília com objetivo de proibir a comercialização de microesferas de plástico. “É uma tendência mundial”, afirma o deputado Eduardo Bismarck (PDT-CE), autor da proposta.

“Você imagina que uma pequena esfera é pouco, mas são milhões indo para os rios, no conjunto acabam causando um grande impacto”, explica o deputado. O plástico e o alumínio que compõe a fórmula tradicional do glitter são pequenos demais para serem filtrados no sistema de esgoto e não se desintegram com facilidade, permanecendo no meio ambiente por centenas de anos. O deputado apresentou, ainda, projeto para proibir material de origem animal (penas, peles e couros) em fantasias.

A proposta ainda tem que tramitar nas comissões da Câmara dos Deputados, e não tem previsão para serem aprovadas. Apesar disso, é mais a consciência da população, e menos a legislação do Estado, que pode diminuir o impacto ambiental da festa. A prova disso é que, no município do Rio de Janeiro, lei que proíbe os enfeites microplásticos esteve em vigor pela primeira vez no carnaval, mas a falta de fiscalização não impediu a comercialização.

“Há um consumismo muito grande no carnaval, e a gente que gosta da festa vê como ela gera muito lixo”, comenta Frances, “estamos em um momento do Rio de Janeiro que nem água potável a gente tem. Somos obrigados a pensar nessa questão, a diminuir nosso impacto, para que o carnaval possa acontecer ainda por muitos anos”.

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