Conheça o trabalho de Tiago Nunes: o homem que levantou o Furacão em 2018

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Tiago Nunes tem apenas 38 anos e está em sua primeira experiência num clube de Série A como treinador (MIGUEL ROJO/AFP/Getty Images)
Tiago Nunes tem apenas 38 anos e está em sua primeira experiência num clube de Série A como treinador (MIGUEL ROJO/AFP/Getty Images)

Por Rodrigo Coutinho (@RodrigoCout)

Assumir um projeto que tinha grande expectativa e vinha decepcionando não é uma tarefa fácil. Quando a figura escolhida se trata de um treinador de apenas 38 anos, e pouquíssima experiência comandando um time profissional então… Tudo parecia conspirar contra a primeira chance de Tiago Nunes em um grande time. Pegar a equipe que iniciou 2018 com Fernando Diniz na penúltima colocação do Campeonato Brasileiro, e com um déficit grande de desempenho, não era nada simples. Mas este gaúcho de Santa Maria conseguiu! Não só tirou o Furacão do Z4, como melhorou assustadoramente o rendimento do time. Hoje vive situação tranquila no certame nacional e está muito próximo de garantir vaga na final da Copa Sul-americana. Mergulhamos na filosofia de jogo do rubro-negro paranaense. Confira!

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Antes de mais nada é preciso citar que este texto não se propõe a demonizar Fernando Diniz. É de conhecimento de todos que a execução do seu trabalho não alcançou o nível esperado, mas no atual time comandado por Tiago Nunes há uma boa dose das ideias implementadas pelo ex-jogador. O novo treinador pegou essa filosofia, adaptou em alguns pontos, aparou arestas, e fez a ‘’máquina’’ funcionar de forma até inesperada. É possível dizer que o Furacão do segundo semestre não fica abaixo dos principais elencos/times do futebol brasileiro. Fez e fará embates equilibrados contra Palmeiras, Grêmio, Cruzeiro, Flamengo e Internacional, por exemplo.

O desempenho do Atlético com Tiago Nunes no comando (Rodrigo Coutinho) <span>&nbsp;</span>
O desempenho do Atlético com Tiago Nunes no comando (Rodrigo Coutinho)  

Tiago treinou o sub-23 do Atlético durante o Campeonato Paranaense e sagrou-se campeão estadual com um time que tinha alguns atletas importantes no seu atual elenco. Bruno Guimarães, Renan Lodi, Léo Pereira e Marcinho foram titulares na campanha que terminou com uma vitória por 2 0 sobre o Coritiba, na Arena da Baixada. Zé Ivaldo e Diego também integravam o grupo. Antes disso, passou pelos profissionais e pela base de uma série de clubes no sul do Brasil, do Norte e do Centro-Oeste. Ganhou um Campeonato Acreano em 2010, pelo Rio Branco, e assumiu o comando da equipe profissional do Furacão no dia 27 de junho de 2018.

A diferença nos índices entre um trabalho e outro é reveladora (Rodrigo Coutinho)
A diferença nos índices entre um trabalho e outro é reveladora (Rodrigo Coutinho)

Esquema e sistema tático

O caráter ofensivo idealizado por Fernando Diniz foi mantido por Tiago Nunes, mas com algumas diferenças que acabaram sendo primordiais para o rendimento da equipe. O Atlético segue sendo uma equipe de proposição de jogo, que toma a iniciativa de ter a bola para atacar, mas que consegue se moldar com mais facilidade a diferentes cenários. O Furacão apresenta uma variação em seu esquema entre os momentos ofensivo e defensivo.

Atlético no momento ofensivo (Rodrigo Coutinho)
Atlético no momento ofensivo (Rodrigo Coutinho)

Com a bola, a organização do time consiste na projeção dos laterais na linha dos meio-campistas e no recuo do primeiro homem de meio entre os zagueiros. Os pontas variam pro centro do campo, formando uma espécie de 3-4-3 como desenho tático. Esta função de primeiro homem de meio, porém, quando feita por Bruno Guimarães, ganha liberdade posterior para se somar aos demais homens de meio. Já sem a posse, Lucho Gonzalez alinha-se com Wellington, que geralmente é o primeiro homem de meio, e com o retorno dos pontas formam uma linha de quatro, deixando Raphael Veiga e Pablo dando o primeiro combate mais à frente, configurando um 4-4-2 no momento defensivo.

Atlético no momento defensivo (Rodrigo Coutinho)
Atlético no momento defensivo (Rodrigo Coutinho)

Momento ofensivo

De uma equipe que tinha muita posse e pouca profundidade, a um time que apresenta ocupação de espaços eficaz, fluência nos passes, velocidade e agressividade. Assim pode ser resumida a ‘’linha do tempo ofensiva’’ do Furacão em 2018. Tiago Nunes conseguiu dar aquilo que parecia impossível. Transformar em gols o domínio territorial. E são muitos gols e chances criadas! Tudo fruto de um modelo pensado em seus mínimos detalhes e executado com eficiência pelos jogadores.

A ‘’saída de três’’ é sempre utilizada. Num primeiro momento com o goleiro Santos, dono de ótimo passe, e com os zagueiros. Num segundo momento com o primeiro volante (Wellington ou Bruno Guimarães) infiltrando entre os zagueiros. Os laterais se projetam, dão amplitude no campo de ataque. Lucho Gonzalez, segundo homem de meio-campo, se alinha a Raphael Veiga pela faixa central. A dupla flutua de acordo com a posição da bola e sempre se oferece como opção de passe, seja pelo meio ou nos flancos. Os pontas flutuam pro centro. Nikão, por ter mais capacidade de articulação, pode voltar alguns metros. Já Marcelo Cirino ‘’agride’’ a última linha de defesa adversária e, em muitos momentos, dá até mais profundidade do que Pablo, o ótimo centroavante do Atlético.

Como surgem os gols do Furacão: lado esquerdo muito forte e uma quantidade imensa de gols em fase ofensiva (Rodrigo Coutinho)
Como surgem os gols do Furacão: lado esquerdo muito forte e uma quantidade imensa de gols em fase ofensiva (Rodrigo Coutinho)

A preferência é pelo ‘’jogo curto’’. Lembra do time de Diniz trocando passes dentro da própria área com o adversário marcando adiantado? Pois bem, isso acontece em alguns momentos também no Furacão de Nunes, mas o passe longo para Pablo ‘’aparar’’, ou a bola em profundidade para Cirino e Nikão, também são grandes opções. E exatamente por essa alternância na construção ofensiva, o Atlético passou a ser um time mais eficiente e vertical! Não é raro ver o rubro-negro ‘’jogar a isca’’, atrair o time oponente para fazer passes em profundidade, algo parecido com o que fez a Inglaterra na Copa do Mundo.

Logicamente que isso tem a ver também com a característica dos jogadores, mas muitos deles desempenhavam funções parecidas com Fernando Diniz e não tinham o mesmo rendimento. A grande realidade é que os conceitos coletivos estão mais bem assimilados pelos atletas e a execução disso teve um ganho natural. O processo de finalização dos ataques é quase todo feito pelas laterais. Jonathan e Renan Lodi têm total liberdade ofensiva e, por serem jogadores inteligentes, dão refinamento técnico ao último passe. O cruzamento, que geralmente é a assistência para a finalização no Atlético, é feito após uma jogada trabalhada. Não se trata do ‘’chuveirinho’’ na área, mas sim um conjunto de ações bem-feitas que culminam num cruzamento rasteiro ou aéreo em seu produto final.

Os principais influenciadores ofensivos do Furacão com Tiago Nunes (Rodrigo Coutinho)
Os principais influenciadores ofensivos do Furacão com Tiago Nunes (Rodrigo Coutinho)

E para que isso dê certo, a agressividade para atacar a área é imensa. Os três atacantes assim o fazem, além de Raphael Veiga, que tem marcado muitos gols, e variavelmente Lucho Gonzalez e o lateral do setor contrário ao que a jogada se desenvolve. Em transição ofensiva, Pablo é bastante utilizado. Como se trata de um jogador que alia força, técnica e inteligência, sabe segurar a bola, abrir espaços e acionar companheiros como Marcelo Cirino e Nikão em velocidade. A agressividade para atacar a área adversária segue sendo o padrão. Os laterais novamente são importantes. Estão muito bem fisicamente e chegam rápido ao último terço do campo.

 

Momento defensivo

A mudança da ‘’água para o vinho’’ também aconteceu na defesa. Se antes assistíamos a um rubro-negro letárgico no combate ao adversário, com a linha defensiva mal posicionada e exposta, além de transições pouco competitivas. Hoje vemos uma equipe fazendo o que há de mais moderno no futebol. Marcação por zona – um dos poucos times do Brasil que realmente marca assim -, mas sem perder a intensidade na abordagem ao adversário que tem a bola.

O bloco de marcação costuma variar de acordo com a posição da pelota. Geralmente o último defensor se coloca a 30 metros dela. Este padrão começa a partir da intermediária ofensiva. Não veremos o Atlético ter muitos períodos de ‘’marcação alta’’, sob pressão, na área do adversário. Isso tem um por quê. O time conta com atletas dotados de velocidade e força na linha de frente. Atrair o oponente para aproveitar este espaço às costas dos defensores é importante e gera muitos gols também.

É importante é frisar a compactação entre os setores! Os jogadores rubro-negros entenderam bem a importância disso e atuam num bloco que ‘’anda junto’’, flutua acompanhando a bola, quase sempre num espaço entre 20 e 30 metros de cumprimento. A parte psicológica é primordial para fazer isso bem. Tiago conseguiu devolver confiança aos atletas e o comprometimento é grande.

Como o Furacão leva os gols: bola parada defensiva muito eficaz (Rodrigo Coutinho)
Como o Furacão leva os gols: bola parada defensiva muito eficaz (Rodrigo Coutinho)

Há, porém, algumas fragilidades. A principal delas é quando Wellington não atua. Tecnicamente, o ex-jogador de São Paulo, Inter e Vasco está abaixo de Bruno Guimarães, mas consegue apresentar muita intensidade sem a bola e equilibrar com a dificuldade que Lucho Gonzalez tem de oferecer isso. Nikão e Cirino também podem aprimorar o posicionamento defensivo na hora de fechar uma linha de passe por exemplo. Mas nada que vem comprometendo o rendimento do Furacão.

As transições defensivas são um capítulo à parte com Tiago Nunes. Extremamente problemáticas com Diniz, hoje obedecem com mais intensidade ao conceito de ‘’pressão pós-perda’’. Como costuma atacar com pelo menos sete jogadores, é importante inibir a progressão do adversário ou roubar rapidamente a bola ainda no campo de ataque. O número de gols sofridos em contra-ataques rivais caiu drasticamente. Wellington é mais uma vez importante cobrindo os deslocamentos laterais dos zagueiros nesta fase do jogo. Caso o adversário vença a primeira pressão, ele costuma garantir boas coberturas e compensações.

Conclusão

Tiago Nunes, assim como alguns outros nomes recentes do futebol brasileiro, surge como mais uma esperança de renovação nos bancos de reservas daqui. Tem só 38 anos e certamente terá as dificuldades naturais de um jovem técnico. Que tenha tempo e a diretoria do Furacão, sempre sujeita a chuvas e trovoadas, entenda tudo o que envolve este processo e busque a convicção no que já foi apresentado em pouco mais de quatro meses.

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