Conheça a história do time catarinense que se tornou um clube startup

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Jogadores do Tubarão comemoram após gol na Série D de 2018 (Fernando Remor/O Fotografico/Gazeta Press)
Jogadores do Tubarão comemoram após gol na Série D de 2018 (Fernando Remor/O Fotografico/Gazeta Press)

Por Rodrigo Herrero (@rodrigoherrero)

Uma agremiação do sul de Santa Catarina autointitulada de clube startup, que reúne alunos, professores e dirigentes pensando e desenvolvendo projetos que possam ser aplicados dentro e fora de campo. Assim é o Tubarão, que há três anos está incubado dentro de uma universidade, com a intenção de promover inovação em vários segmentos do futebol.

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Fundado em 2005, o Tubarão começou a sua revolução interna a partir de 2015, quando a empresa K2 Soccer S/A, criada em 2013, decidiu investir em um clube de futebol. Ao escolher o Tubarão, transformou a equipe catarinense em um clube startup. Para que esse projeto pudesse vingar, o clube foi transformado em uma Sociedade de Propósito Específico (SPE), em que a K2 Soccer detém 99% das ações e o quadro associativo apenas 1%.

“É um clube com formato empresarial. Transformamos em uma empresa limitada em formato de SPE, que é uma tropicalização da Sociedade Anônima Desportiva Espanhola e Portuguesa, porque no Brasil não há regulamentação para isso ainda. Não temos conselho deliberativo, honorífico, o clube associativo tem essas coisas. Nós administramos todo o futebol profissional, sem qualquer interferência de conselheiro ou associados, 100% do staff que trabalha no clube é profissional”, explica o presidente do Tubarão SPE Luiz Henrique Martins Ribeiro.

A estrutura do clube startup é enxuta. O Conselho de Administração é formado pelo presidente, pelo diretor de Operações e Novos Negócios da K2 Soccer, Júnior Chávare, que já passou pelas categorias de base de clubes como o São Paulo e o Grêmio, e pelo gerente de futebol Júlio Rondinelli, que já trabalhou em várias equipes, casos do Avaí, Criciúma e Joinville. Desse núcleo saem as táticas e estratégias dentro e fora de campo.

Parceria com universidade busca projetos inovadores

Um aspecto apontado como diferencial pelos dirigentes do clube catarinense e que justificaria o título de clube startup é a parceria com a Unisul, universidade que tem como sede a própria cidade de Tubarão. A parte administrativa do clube, inclusive, está instalada dentro do parque tecnológico da Unisul, que possui ainda várias outras empresas. O objetivo é aproximar ideias e projetos do mundo do futebol a partir dessa integração entre futebol e academia. A parceria foi articulada com a AGETEC (Agência de Inovação e Empreendedorismo da Unisul), que cedeu todo o espaço, bem como os profissionais e estudantes para a realização de projetos com o clube.

“Estar com sua sede no UNIPARQUE/CRIE permite que o clube transite e se relacione dentro de um ambiente que favorece o desenvolvimento de pesquisas, projetos e inovação, participando das capacitações disponibilizadas pela Incubadora Crie e Agetec nas mais diversas áreas técnicas e de gestão”, conta o gerente da AGETEC, professor Fábio Zabot Holthausen.

“Nós temos uma troca constante de conhecimento e know-how. A Unisul nos ampara em três alicerces: conhecimento, produtos e equipamentos. Temos uma relação muito próxima com a reitoria, com os coordenadores de cursos. Lógico que é um processo de amadurecimento, estamos evoluindo, mas vamos ter agora uma participação mais efetiva da Unisul em problemas que atinjam não só o Tubarão, mas o futebol de um modo geral”, afirma Chávare.

Os estudantes que atuam na TV Unisul, por exemplo, prestam todo o suporte na parte de comunicação. O time de marketing cuida da imagem da agremiação nas redes sociais, além de outros aspectos. Os cursos de nutrição e fisioterapia realizam projetos visando uma melhor alimentação e recuperação dos atletas. Até mesmo o de agronomia está envolvido, ao ser responsável por manter o gramado impecável para os jogadores.  

“Nossos professores e alunos são envolvidos desde a contratação e início de execução dos projetos. Buscamos sempre viabilizar bolsas aos alunos que atuam no projeto. Mas independente da articulação a AGETEC, o clube está em constante diálogo com os professores e cursos da universidade e quando as conversas amadurecerem para o desenvolvimento de um projeto a agência é envolvida” diz Holthausen.   

Desafios grandes dentro e fora de campo

Essa parceria também busca desenvolver projetos mais sofisticados. Atualmente está sendo desenvolvido um suplemento alimentar específico para jogadores de futebol. Outro projeto em andamento é a criação de um laboratório de inteligência do futebol com mineração de informações em banco de dados e a formação de um laboratório de biomecânica do esporte para análises, testes de resistência, desenvolvimento de produtos, entre outros.

Um projeto que está mais avançado é a implantação de um aplicativo de experiência de jogo, que deverá estar em funcionamento em 2019. “O aplicativo vai servir para tudo, desde o controle do acesso, até o consumo dentro do estádio. O torcedor vai ter acesso a imagens exclusivas da partida e será conectado à marca de material esportivo que nós desenvolvemos no Tubarão. É como se fosse uma camisa do sócio-torcedor e ela é o controle de acesso para tudo, a pessoa só precisa entrar com a camisa, não leva mais nada para o jogo. Vai ser o primeiro projeto incubado vindo diretamente da universidade. E desse projeto com o Tubarão queremos, porque não, após implementá-lo, oferecê-lo para os grandes clubes” atesta Luiz Henrique.

O aplicativo está dentro de uma concepção do clube tubaronense de melhorar a experiência e a estrutura do estádio para o torcedor. Para isso, o Tubarão projeta construir até 2025 uma nova arena com padrão europeu e capacidade para 12 mil pessoas, mínimo exigido pela CBF para jogar a Série A.

“Os dois objetivos do clube são até 2025 chegar na Série B do Brasileiro e se tornar o clube mais legal para assistir futebol no Brasil. E como faz isso? Com arena, com experiência de jogo. Nossos sócios são americanos, temos um clube nos EUA, que fica em New Heaven e disputa a NPSL, e temos muito intercâmbio e conversa com eles. Queremos que o estádio e a experiência de jogo sejam as mais bacanas do Brasil, e isso envolve desde segurança, acesso, opções de matchday, wi-fi livre, experiências no dia de jogo, conforto, sem deixar de lado a forma como o time se apresenta, também levamos isso em consideração”, acrescenta.

Resultados em campo ajudam a manter o sonho

Para que tudo isso se consolide é necessário que o desempenho em campo traga frutos. E aos poucos isso tem acontecido. A equipe ascendeu à elite catarinense em 2016 e, no ano seguinte, conquistou a Copa Santa Catarina, conseguindo uma vaga para a Copa do Brasil deste ano, em que acabou parando na segunda fase diante do Atlético-PR, em Curitiba, em um espetacular 5 a 4 decidido nos minutos finais.

No Estadual, após um sexto lugar em 2017, em 2018 a equipe ficou na terceira posição na classificação geral, garantindo uma vaga direta na Copa do Brasil e na Série D nacional em 2019. Este ano o time catarinense fez boa campanha na Série D, sendo parado apenas nas oitavas de final, uma rodada antes da luta pelo acesso. E agora busca defender o título da Copa Santa Catarina, a partir do dia 16 de setembro, quando tem início o torneio.

A luta se fortalecer no Estado e figurar com mais frequência na Copa do Brasil é fundamental na visão dos dirigentes da equipe, especialmente devido ao retorno financeiro oferecido pela CBF. “É muito importante para nós termos a Copa do Brasil, pois é um evento de caixa formidável. Esse ano arrecadamos mais de um milhão de reais com a Copa do Brasil. Para ter uma ideia, nosso orçamento anual é de 6 milhões anuais”, declara Luiz Henrique.

Para ajudar no orçamento e manter os sonhos e objetivos no horizonte, é preciso também formar e negociar jogadores. Recentemente o clube conseguiu o certificado de clube formador, pois oferece uma estrutura de clube profissional também para os mais de 100 meninos das categorias sub-15, 17 e 20. A ideia é que no futuro esse investimento retorne para o clube.

Mas hoje o Tubarão já obtém caixa com os atletas que têm se destacado. Se após o Catarinense do ano passado foram negociados quatro jogadores para as séries C e D, em 2018, a campanha no Estadual rendeu cinco negociações para agremiações das séries A e B, por valores superiores, além da negociação de Borges para o futebol sueco no fim de 2017, o que deve render bons dividendos neste ano. “A gente acredita que o equilíbrio econômico deve acontecer quando estivermos em uma Série B provavelmente, por isso o objetivo”, afirma Luiz Henrique.

O crescimento da equipe reflete na boa presença de público nas arquibancadas. No Catarinense, o estádio teve ocupação média de 87%, a melhor disparada entre os 10 times do torneio. A média de público gira em torno de pouco mais de 2 mil pessoas por partida, número bom em se tratando de Santa Catarina, o que indica que a torcida tem se mostrado satisfeita com a nova fase da equipe. O que se espera é que o clube dê continuidade e concretize seu objetivo, que é inclusive a visão da empresa, de estar entre os 40 maiores clubes de todo o Brasil até 2025.

Parceria com o Grêmio vai além do campo

As parcerias do Tubarão não se restringem a empresas e universidades. O clube busca também acordos com equipes que possam agregar novos resultados e produtos. É o caso do trabalho realizado com o Grêmio, que iniciou como uma parceria técnica e já está expandindo para outras áreas. Segundo Chávare, há um acordo para o fornecimento de atletas para a equipe principal, priorizando jovens da base para o clube gaúcho. Mas, para além disso, se estão buscando soluções que possam ser implementadas no departamento de futebol gremista.

“Temos um projeto com o Grêmio que envolve lesões musculares, é o que posso te adiantar agora. Deveremos entregar o resultado até o final do ano, ele visa a identificação de questões secundárias nas lesões musculares, ou seja, o que pode contribuir para a lesão muscular fora o próprio treinamento e os jogos. É uma parceria com a Unisul e o Grêmio, onde o Grêmio nos fornece variáveis de treinamento de dia a dia deles e comparamos com as nossas, além de servir de banco de dados. Isso é muito importante”, detalha.

A ideia é realizar estudos que ajudem a prever o que pode gerar as lesões, afinal, esse tipo de contusão é a que mais afeta e gera prejuízo aos clubes atualmente, com um calendário recheado de jogos e com um treinamento cada vez mais intenso.

“Estamos trabalhando até algumas questões que são emblemáticas, mitos. Por exemplo: o foco dentário contribui ou não para a lesão muscular? Vamos explorar até que nível isso contribui, porque contribui… é mito? Não é mito? Se tiver esse problema associado com outras coisas a chance é maior? Vamos analisar coisas desse tipo e tentar prever o que pode acontecer”, completa.

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