Conheça os segredos das gestões ‘clube-empresa’ no futebol brasileiro

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Nesta quarta-feira, RB Bragantino e Cuiabá se enfrentam em partida válida pela 10ª rodada do Campeonato Brasileiro. O duelo coloca frente a frente dois clubes que têm um ponto em comum em suas gestões, o formato empresarial. Apesar deste modelo de administração estar consolidado nas principais ligas europeias, o Brasil ainda engatinha neste aspecto.

Segundo estudo elaborado pela consultoria Ernst & Young, 96% das 202 equipes da primeira e segunda divisões da Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália são entidades privadas. Dos 40 clubes que compõem a primeira e segunda divisões do Campeonato Brasileiro, somente dois possuem formato empresarial: Cuiabá e RB Bragantino.

O vice-presidente do Cuiabá, Cristiano Dresch, exalta as principais vantagens da gestão de um clube nos moldes empresariais. 'É menos burocrática na tomada de decisões e mais cuidadosa e responsável com os próprios gastos. O clube-empresa tem um dono e ele vai responder diretamente pelos prejuízos caso o clube venha a ter'.

A família Dresch comprou a agremiação em 2009 e, desde então, administra o clube municiada pelos investimentos da Drebor, fabricante de material utilizado por recapeadores de pneus, fundada há pouco mais de 30 anos. Cristiano e seu irmão, Alessandro Dresch, são os responsáveis pela gestão das áreas administrativas e de futebol do Cuiabá. Todo o investimento feito ao longo desses anos trouxe resultados expressivos dentro das quatro linhas.

Graças a boa campanha do Cuiabá na Série B de 2020, terminando na quarta colocação, o Estado do Mato-Grosso voltou a ter um representante na elite do futebol brasileiro depois de 35 anos. Além desse feito histórico, a equipe também consolidou uma hegemonia em nível estadual: conquistou oito títulos dos últimos nove campeonatos mato-grossenses. Para Cristiano, o próximo passo do clube é a permanência na Primeira Divisão.

'Sabemos que o primeiro ano é o mais difícil. Não esperávamos nada além de uma grande dificuldade. Nosso plano é fazer boa campanha e permanecer na elite, se isso se concretizar, será o maior feito da história do Cuiabá', declarou o vice-presidente.

No caso do RB Bragantino, a fusão entre a Red Bull, marca austríaca de bebidas energéticas, e o time de Bragança Paulista (SP) começou em 2019. No mesmo ano em que a parceria foi firmada, os resultados esportivos não demoraram a aparecer, uma vez que o clube conseguiu o acesso à elite do futebol brasileiro ao conquistar o título da Série B.

'O trabalho que está acontecendo com o Red Bull Bragantino no Brasil é semelhante ao que já ocorreu na Europa, nos Estados Unidos e em outros territórios também. Na Europa, o Leipzig chegou a disputar algumas vezes fases avançadas, chegando até em semifinal. O que não significa que o Red Bull faça algo mágico e vá ser campeão. Várias vezes não aparece o resultado em campo e a empresa tem demonstrado até hoje comprometimento de longo prazo com seus projetos esportivos', explicou o autor do Livro Inovação é o Novo Marketing, Bruno Maia.

No primeiro quarto do Campeonato Brasileiro, o RB Bragantino é um dos principais destaques da competição em termos de resultado e desempenho. Em nove partidas, são seis vitórias e três empates. Além de estar no topo da tabela, o time é o único invicto do campeonato, mostrando consistência para entrar de vez na briga pelo título.

'Nada leva a crer que um eventual fracasso do RB Bragantino vai fazer a coisa desandar. Mas não será surpresa também se eles começarem a performar bastante tempo entre os principais clubes do futebol brasileiro. A Red Bull é uma empresa que decidiu a melhor forma de fazer marketing, não apenas falando o que faz, mas sim realizando, afinal não é só dar dinheiro para que os outros façam. Ter sucesso é se comprometer até o fim, sobretudo no esporte, vivendo nos princípios verdadeiros da modalidade', completou Maia.

No futebol, o time pioneiro foi o Red Bull Salzburg, da Áustria, em 2005. Depois de ser comprada pela multinacional de bebidas, a equipe tornou-se uma potência no país. Na Alemanha, o RB Leipzig foi o clube seguinte criado pela empresa, em 2009, após comprar o SSV Markranstädt, da quarta divisão. Assim que chegou à primeira divisão alemã, na temporada 2016/2017, já se consolidou como uma das equipes mais fortes da Bundesliga, rivalizando com o Bayern e chegando a disputar o principal torneio de clubes do mundo, a Liga dos Campeões.

Mas os investimentos da empresa vão além do âmbito futebolístico, uma vez que também estão presentes nos esportes radicais, casos de lutas marciais, e Fórmula 1, como a Red Bull Racing. Fundada em 1987, a Red Bull tem os jovens como público-alvo e principal consumidor de seus produtos, por isso, segundo os especialistas, todo o valor depositado no esporte é justificado.

Para Marcelo Palaia, especialista em marketing esportivo e professor do segmento pela ESPM-SP, o conceito e estratégia da Red Bull sempre foi bem claro. 'Desde o princípio ela focou no investimento em um público adolescente e entendeu que estar dentro do esporte, com planejamento estratégico e conteúdo, traria ganhos diversos não apenas de vendas, mas do valor da marca como um todo. Essa organização e agressividade na capacidade de investir fazem dela uma referência não apenas de marketing, mas de ganho técnico. O reflexo dos bons resultados nas equipes que controla, mesmo em pouco tempo, não são por acaso', explicou Palaia.

Renê Salviano, executivo com mais de 20 anos de experiência profissional em diretoria comercial, de marketing e novos negócios do esporte, segue uma linha de raciocínio parecida. 'Não passa de uma estratégia bem feita e de muito estudo. Fizeram tudo com planejamento e se apoiaram em ações com uma força de mídia, e muitas das vezes, mídia espontânea. Eram ações exclusivas e inéditas mundo afora e isso trouxe força para marca. Trouxe também essa paixão porque as ações realmente foram impactantes. É óbvio que chegariam no futebol, o esporte mais praticado no mundo inteiro para poder ganhar escalabilidade', analisou.

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