Conheça as corridas de camelo, esporte que movimenta sonhos e dinheiro no Catar

Nowan, de 9 anos, não quer ser Messi nem doutor. Em Al-Shahaniya, cidade a 45 minutos de carro a oeste de Doha, onde há dois camelos para cada habitante, a resposta do garoto catari vem com ar de naturalidade:

— Quando eu crescer, vou ser treinador de camelos, como meu pai e meu avô — orgulha-se o menino sentado na imensa sala de carpetes coloridos, apontando para o quadro em que seus progenitores aparecem ao lado dos animais recebendo troféus, robustas premiações e cumprimentos de Hamad bin Khalifa e Tamim Al Thani, ex e atual emir do Catar.

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Sultan, pai do garoto, é um prestigiado treinador em Al-Shahaniya, onde fica a maior pista de corrida de camelos do emirado. A prática é tradicional na Ásia Central, norte da África e Oriente Médio. No Catar, são disputados campeonatos com regras estabelecidas pela federação local, transmissão em canais de TV exclusivos e milhares de fãs que viajam todos os anos para assistir às provas. Devido ao forte calor do verão, quando os termômetros chegam a marcar 46°C, as corridas são disputadas de meados de setembro até início de abril.

Sob sol nascente

Tudo parece pouco convencional nessa prática esportiva aos olhos de um ocidental. A rotina em Al-Shahaniya começa ao raiar do dia, quando centenas e centenas de camelos deixam as fazendas em filas, guiados por imigrantes africanos e de outras partes da Ásia. Eles têm o corpo coberto dos pés à cabeça para se proteger do sol escaldante, como se fossem tuaregues a pastorear pelas areias do deserto.

Para distinguir os donos e fazendas, os animais usam sedas com cores diferentes sobre as corcovas — os camelos árabes (dromedários) têm uma só para armazenar gordura, diferentemente das raças da Ásia Central (bactriano), que possuem duas.

Os treinos, bem como as principais corridas, ocorrem nas primeiras horas da manhã . Os camelos chegam a correr cerca de 50 km por hora em provas de até 8 quilômetros e, ao contrário do que vemos no hipismo, por exemplo, os animais competem sozinhos, com um robô controlado remotamente sobre as costas. O equipamento tem uma articulação que puxa as rédeas sob comando dos treinadores, que seguem de carro e caminhonetes na pista de asfalto ao redor das raias de areia.

A adoção desses jóqueis-robôs se deu há cerca de duas décadas.

— Essas corridas eram feitas com crianças e, no início dos anos 2000, os direitos humanos se impuseram porque não pode aliciar crianças como jóqueis. Então, o Catar desenvolveu jóqueis-robôs, que têm um braço giratório, controlado por controle remoto — conta o historiador Dr. Luis Henrique Rolim, que trabalhou no Museu Olímpico de Doha, autor de tese sobre a história sociocultural do esporte no Catar.

Segundo reportagem de 2004 da agência France Presse, os monarcas do Golfo Pérsico, entre eles o Catar, mudaram as regras após grupos de direitos humanos criticarem a exploração de crianças traficadas de países pobres, como Bangladesh, Sri Lanka e Paquistão, que corriam risco de serem jogadas e pisoteadas por camelos três vezes maiores.

Relação com os camelos

Como quase tudo nesta pequena península, o esporte se divide entre antes e depois da exploração do petróleo e gás natural. O futebol se profissionalizou apenas em 1970, um ano antes de o país se tornar independente do Império Britânico, e cresceu nos anos seguintes com a chegada de jogadores e técnicos estrangeiros (muitos brasileiros, como Evaristo de Macedo).

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A corrida de camelos faz parte de um grupo de práticas culturais anteriores à independência, como mergulho (herança dos tempos em que a busca por pérolas era uma importante atividade econômica no Golfo), falcoaria (a caça com falcões é um dos símbolos nacionais) e corridas de cavalos árabes e cachorros saluki (animais esguios e velozes muito comuns no Egito e península arábica).

Os camelos fazem parte do cotidiano da região e movimentam enormes quantidades de dinheiro, já que muitos são criados para venda. Eles correm por prêmios na casa dos milhares de cataris, mas as apostas são proibidas pela religião do país.

— Tudo aqui gira em torno dos camelos: as lojas, as clínicas, as pessoas. É parte fundamental da economia — diz o paquistanês Imtiaz Zahoor, médico veterinário que há um ano abriu sua própria clínica nesta parte do país.