Comores chega à Copa Africana com apenas um jogador nascido no país

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Seleção de Comores participa da Copa Africana de Nações em 2022 pela primeira vez. Foto: Divulgação
Seleção de Comores participa da Copa Africana de Nações em 2022 pela primeira vez. Foto: Divulgação

Há três décadas, Pelé fez a previsão de que uma seleção africana ganharia a Copa do Mundo. Seria no milênio passado, segundo ele. Não aconteceu. Sempre que a Copa Africana de Nações, o principal torneio do continente, está por iniciar, a lembrança da profecia furada do Rei do Futebol volta à tona.

“Vencer a Copa do Mundo? A classificação para a Copa Africana já é um feito incrível para nós. Mas pode ter certeza de que vamos brigar pela classificação para 2026.”

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A frase é do responsável pela grande história do torneio continental que, com sede no Camarões, teve início neste domingo. Amir Abdou, um francês nascido em Marselha, levou a seleção de Comores para a competição africana pela primeira vez em sua história.

A equipe estreia nesta segunda-feira contra o Gabão. Também estão no grupo Marrocos e Gana. Classificam-se os dois melhores colocados. O terceiro até pode avançar pela repescagem, dependendo da campanha.

“Nos chamaram para a festa. Agora queremos aproveitar. O que temos a perder? Vamos fazer as pessoas de Comores se orgulharem de nós”, completa Abdou para o Yahoo Esportes.

Não é apenas a primeira vez que Comores se classificou para a Copa Africana. Nunca havia obtido vaga para nada. O país se tornou membro da Fifa apenas em 2005. Sua primeira eliminatória para Mundial aconteceu para o torneio de 2010, 31 anos depois da primeira partida da seleção, em 1979.

Na campanha de qualificação para a competição deste ano, estreou com vitória fora de casa sobre Togo, em 2019. Foi o primeiro triunfo de Comores como visitante em sua história.

Técnico de Comores, Amir Abdou, tenta achar mais descendentes de Comores no futebol europeu. Foto: Jalal Morchidi/Anadolu Agency/Getty Images
Técnico de Comores, Amir Abdou, tenta achar mais descendentes de Comores no futebol europeu. Foto: Jalal Morchidi/Anadolu Agency/Getty Images

“É um trabalho longo que vai atingir o ápice quando estrearmos na segunda-feira. Eu não sei o que vai acontecer. Se chegarmos longe, pode ser uma surpresa para os outros, para mim, não será.”

O time é modestíssimo. Dos 26 convocados, apenas um (o lateral Abdallah Ali Mohamed) nasceu em Comores. Vinte e dois são franceses e três, moçambicanos. Todos têm ascendência na única nação árabe localizada no hemisfério sul e o quarto menor país africano por área. São apenas 850 mil habitantes.

Nenhum deles atua na liga de Comores, que é totalmente amadora. Dos goleiros convocados, um está desempregado e os outros dois estão na quarta divisão da França. Só quatro jogadores estão contratados por clubes de elite em diferentes países. O maior artilheiro da seleção, o atacante El Fardou Ben Nabouhane (15 gols) é do Estrela Vermelha, da Sérvia.

São fatores que fazem de Comores o principal azarão da Copa Africana. Mas isso pode torná-lo também o maior conto de fadas, apesar das acusações de que é uma equipe defensiva demais, que sempre atua na retranca.

“Não é verdade. Enfrentamos o Egito nas eliminatórias e deveríamos ter vencido. Atacamos a maior parte do jogo. Não vejo dessa forma. Claro que nos adaptamos ao adversário. Você tem de tirar o melhor de cada jogador. Você não precisa de grandes craques para montar um elenco forte e competitivo”, defende o treinador.

A federação local identificou outros atletas, nascidos na França, que possuem ascendência de Comores e poderiam vestir a camisa da seleção. É preciso agora convencê-los. Um bom desempenho em Camarões ajudaria nisso.

“Pode acontecer ou não. Há casos como o de Zayodou (Youssouf, atacante da Saint-Etienne, da França), que é um excelente jogador. Mas precisamos que ele tenha vontade de atuar por Comores. Vamos esperar. Quem sabe nas eliminatórias para a Copa do Mundo?”, almeja Abdou, que assumiu o cargo em 2014 e é o técnico há mais tempo no comando de uma seleção na África.

Chegar à Copa do Mundo é um desafio que parece gigante para Comores. No torneio continental são 24 classificados. Para o Mundial, são apenas cinco vagas.

Após a previsão de Pelé, três equipes atingiram as quartas de final, mas foram eliminadas: Camarões (1990), Senegal (2002) e Gana (2010). Boas campanhas, mas que não confirmaram a análise feita pelo brasileiro.

Se um dia Comores obtiver um lugar no torneio mais importante do futebol, será como um título.

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