Como torcida argentina se tornou uma atração à parte na Copa do Mundo

Virou praxe nos estádios nesta Copa do Mundo. A Argentina joga, Messi arranca, mas os olhos da imprensa internacional estão divididos. Sacam os telefones celulares do bolso e filmam a torcida na arquibancada. No jogo contra a Austrália, no Ahmad Bin Ali, um jornalista libanês perguntou ao argentino sentado atrás dele nas tribunas, com ar de estranhamento: “Por que vocês não fazem a ola?”. A resposta do portenho: “Nós apenas cantamos o tempo inteiro”.

O comportamento da torcida argentina no Catar tem despertado o interesse de quem acompanha a Copa de perto — e uma pontinha de inveja nos brasileiros. Vídeos viralizam, das festas nas arquibancadas e nas ruas de Doha. O estilo sul-americano de torcer viajou milhares de quilômetros para ocupar o epicentro do futebol mundial, e assim ser finalmente notado por pessoas que se limitam a ver Champions League e Campeonato Inglês. E essa surpresa positiva caiu na conta dos hermanos.

A organização da Copa informou que os argentinos ficaram em sétimo na lista dos que mais adquiriram entradas para os jogos (61.083, sem contar os que vivem em outros países). Duas posições à frente do Brasil (39.546).

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Ajuda a dar a impressão de invasão portenha, seja nos estádios, seja nas ruas de Doha, a popularidade que Messi tem entre indianos e paquistaneses, cerca de 25% da população catari. São muitos, por todos os lugares, com a camisa alviceleste e o número 10 nas costas.

Esses torcedores emprestados de outras nacionalidades apenas compõem o cenário — o mesmo tem acontecido nos jogos da seleção brasileira e de Portugal, outras duas equipes muito queridas por estrangeiros. O que tem chamado mesmo a atenção é a atmosfera criada pela torcida que veio da Argentina e sua capacidade de apoiar sua seleção ao longo dos jogos.

— É minha primeira Copa do Mundo e quando vejo a torcida da Argentina, eu sinto que é sobre isso que é o Mundial — afirmou a jornalista Fatemeh Salari, do site Doha News, depois de gravar mais um vídeo da torcida argentina no jogo das oitavas de final. — Essa é a verdadeira experiência de uma Copa do Mundo. Eles cantam muito e todos estão cantando a mesma música.

A que faz mais sucesso no Catar é a que foi criada para a Copa deste ano, homenageando Diego Maradona, Messi e fazendo referência à vitória sobre o Brasil na Copa América do ano passado. Mas o segredo são as outras quatro, cinco canções que marcam presença nos estádios da América do Sul há décadas, que possuem versões cantadas por torcidas de times brasileiros. São curtas, quatro versos no máximo. Qualquer pessoa com uma vivência razoável de estádio é capaz de acompanhá-la. E isso faz diferença.

Existe uma cultura de torcidas organizadas pela seleção na Argentina. É algo que acaba misturando “barras bravas”, como elas são conhecidas no país, de times diferentes, que fazem uma trégua nas rivalidades domésticas quando a partida é da seleção. O auge disso foi a criação de uma ONG, Hinchadas Unidas da Argentina, que funcionou entre 2010 e 2014. Ela tinha como objetivo, ao menos na teoria, diminuir a violência entre os membros das barras. Na prática, serviu para organizar esses movimentos e mobilizar o apoio à seleção em ocasiões especiais — a invasão argentina ao Brasil na Copa de 2014 é um exemplo.

A ONG acabou, mas a articulação segue existindo. Contra a Arábia Saudita, estreia da Argentina na Copa, essa pujança dos hermanos acabou ofuscada pela vitória dos sauditas em campo e sua superioridade numérica na arquibancada de Lusail. Mas a partir do jogo contra o México, quando os argentinos conseguiram impor seus cantos, as imagens dos torcedores argentinos ganharam o mundo.

Rapidamente veículos de comunicação do país conseguiram identificar centenas deles nas arquibancadas do Catar, alguns famosos por seus históricos de violência. Seis mil membros de barras bravas fichados pelas autoridades argentinas ficaram proibidos de entrar no país da Copa. Outros tantos conseguiram viajar para o Oriente Médio, a despeito do alto custo desse Mundial.

Barras e 'comuns'

Esses barras bravas possuem facilidades. Um escritório da AFA comercializa entradas num esquema à parte do da Fifa. Isso sem contar a cota recebida pelos presidentes dos clubes, estreitamente ligados a esses torcedores.

Além disso, eles levantam um grande volume de dinheiro por conta própria, já que possuem participação em diversos negócios como tour dos clubes, estacionamento dos estádios e quiosques. Capital para arcar com a viagem de alguns integrantes não lhes falta.

Mas colocar o grande apoio dos torcedores argentinos nas arquibancadas na conta dos barras bravas é reducionismo. Na partida contra a Austrália, foi possível ver famílias, mulheres com crianças de colo, cantando as mesmas músicas que os membros das barras bravas.

Esse torcedor comum, que não é ligado às barras e nem pertence a uma elite econômica, tem encarado sufocos e mostrado criatividade. Há grupos que trocaram o caro voo direto Buenos Aires - Doha por viagens que envolvem três ou até quatro paradas. No Catar, com seus preços inflacionados pela Copa, encontraram bairros mais afastados que oferecem hospedagens menos caras.

'Sem comparação'

O principal deles é o Barwa Barahat Al Janoub, um complexo de mais de 1,4 mil prédios de três andares criado no meio do deserto. Os apartamentos — básicos e pequenos — foram projetados para abrigar trabalhadores de baixa renda após a Copa. Até lá, é uma espécie de Babel com torcedores de diversos países. Como os argentinos, que formaram sua própria torcida: o Barwargento. Os brasileiros que ocupam o complexo chamam o local de “Cohab”, uma referência aos conjuntos habitacionais de baixa renda que existem no Brasil.

— Fui a dois jogos da Argentina nesta Copa. Eles não têm comparação. Em termos de torcida de estádio, estão anos-luz à frente — afirmou João Carlos Souza, 44 anos, consultor de São Paulo. — Cantam o tempo todo, não importa se é criança, adulto, velho, e ficam de pé na arquibancada. Nessa Copa é difícil, quando você levanta, já vem o segurança pedindo para você sentar. Mas eles não sentam. Frequento estádio desde criança. Culturalmente, eles têm uma maneira de torcer diferente da nossa no estádio. E não devemos ficar comparando. Cada um é do seu jeito.