Como Simeone fez o Atlético de Madrid ser um fenômeno em transferências

Foto: Rui Vieira/AP

Entra ano, sai ano, o Atlético de Madrid chega muito longe na Liga dos Campeões. Sem a mesma pompa e tantos craques quanto seus principais rivais na Espanha, a equipe de Diego Simeone tem duas finais europeias nos últimos três anos e quer chegar a uma terceira. A competência do argentino precisa ser analisada de forma mais profunda.

Nos seis anos em que está no comando do Atlético, El Cholo já foi campeão espanhol, da Copa do Rei e da Liga Europa. Apesar do senso comum dizer que ele dirige uma equipe modesta e que gasta pouco, o saldo de transferências sob seu comando nem sempre terminou no azul. O que se pode dizer seguramente é que ele conseguiu lidar bem com a perda de vários talentos e continuou em evolução. Analisemos então os seis anos da Era Simeone em gastos, lucros e acertos em transferências. Os dados são do site Transfermarkt, uma das fontes mais confiáveis do ramo.

Nomes de peso
Logo na temporada de estreia, quando conquistou a Liga Europa, em 2011-12, Simeone gastou 84 milhões de euros em contratações. Trouxe nomes como Falcao García (40M, Porto), Arda Turan (13M, Galatasaray), Gabi (3M, Zaragoza), Silvio (7M, Braga), Rúben Micael (5M, Porto) Tiago (sem custo, Juventus), Miranda (sem custo, São Paulo) e Diego (empréstimo, Wolfsburg). As saídas também pesaram. Ao todo, o Atleti recebeu 81 milhões de euros pelas vendas de Agüero (36M, Manchester City), De Gea (25M, Manchester United), Elias (8M, Sporting), Forlán (5M, Internazionale), Reyes (3,5M, Sevilla), Ujfalusi (2M, Galatasaray) e Baldé (1M, Osasuna).

Elenco pronto
Na temporada 2012-13, o Atlético levantou a Copa do Rei, contratando pouco. Chegaram Insúa (3,5M, Sporting), Cata Díaz (1M, Getafe), Emre Belozoglu (sem custo, Fenerbahce), Cristian Rodríguez (sem custo, Porto) e Domingo Cisma (sem custo, Racing Santander). Nenhum deles teve grande impacto no elenco. Ao todo, os gastos foram apenas de 4,5 milhões. Por outro lado, saíram Salvio, (11M, Benfica), Álvaro Domínguez (8M, Borussia M’Gladbach), Emre (seis meses depois, de volta ao Fenerbahce), Borja Bastón, Fran Mérida, Paulo Assunção, Antonio López, Luis Perea, Pizzi, Ruben Pérez, Ruben Micael, Leandro Cabrera, Joel Robles e Silvio, totalizando o valor de vendas em 19,3 milhões de euros. Apesar de Álvaro, Salvio e Perea terem sido importantes para o Atlético no passado, os colchoneros só sentiram mesmo a falta de Salvio.

O sonho europeu e a proeza em La Liga
Em 2013-14, a grande façanha. O Atlético rompeu o domínio do Barcelona e venceu La Liga, além de fazer a final da Champions com o Real (perdida na prorrogação, por 4-1). Novamente, Simeone operou no mercado e terminou com saldo positivo. Chegaram nomes como Joshua Guilavogui (10M, Saint Etienne), Toby Alderweireld (7M, Ajax), Leo Baptistão (7M, Rayo Vallecano), Roberto (6M, Benfica), David Villa (2M, Barcelona), José Sosa (empréstimo de 1,5M, Metalist), Diego (que voltou do Wolfsburg por 1,5M), José Giménez (900 mil, Danubio), além de Demichelis (custo zero, Málaga) e Aranzubia (custo zero, La Coruña), para o total de 36 milhões de euros.

Note que desta lista, apenas Giménez continua no clube, provando ser uma excelente contratação. O ponto crítico neste caso são as saídas: o Atleti arrecadou 70 milhões de euros com as vendas/empréstimos de Falcao, Pizzi, Demichelis, Joel Robles, Ruben Micael, e Baptistão. Outros caras como Roberto, Cata Díaz, Borja Bastón, Guilavogui, Silvio, Asenjo, Saúl, Oliver Torres e Ruben Pérez saíram sem custos.

O desmanche e os novos ídolos

Foto: Rui Vieira/AP

Simeone então precisou lidar com uma situação diferente em 2014-15. O grande sucesso em 2014 causou uma debandada e o Atlético passou em branco na temporada (o que não quer dizer que tenha ido mal). Vários clubes grandes levaram jogadores importantes do Vicente Calderón. Mas El Cholo soube se reinventar e apostou em outros craques que hoje brilham com a camisa colchonera. Em dados: chegaram Griezmann (30M, Real Sociedad), Mandzukic (22M, Bayern), Oblak (16M, Benfica), Cerci (15M, Torino), Raúl Jiménez (10,5M, América-Mex), Guilherme Siqueira (10M, Granada), Ángel Correa (7,5M, San Lorenzo), Moya (3M, Getafe), Gámez (2,5M, Málaga), Velázquez (1,1M, Danubio) e Ansaldi (1M, Zenit). Todas essas transferências, em grande parte por reposição, custaram 118 milhões aos cofres atleticanos, mas não foi a maior marca da história do clube. Fernando Torres, ídolo antigo da torcida, veio do Milan por empréstimo e sem custos.

Não, não esquecemos dos que foram vendidos. Saíram Diego Costa (38M, Chelsea), Filipe Luís (20M, Chelsea), Adrian López (11M, Porto), Guilavogui (6M, Wolfsburg, empréstimo), Roberto (6M, Olympiacos), Asenjo (5M, Villarreal), Manquillo (2M, Liverpool) e Ruben Pérez (500 mil, Torino, empréstimo), no total de 89 milhões. Contudo, tivemos vacilos como as saídas de Diego e Villa, sem custo algum. Os emprestados para fora também não geraram custos. Mas refletiram como o Atlético também pode contratar mal: Baptistão, Cerci, Alderweireld, Óliver Torres e Cristian Rodríguez não tiveram o desempenho que se esperava e acabaram gerando prejuízo.

Mais contratações astronômicas
O valor recorde de compras veio em 2015-16, quando o Atleti voltou à final da Champions e conseguiu forçar o Real Madrid jogar as penalidades. Cada vez mais perto da glória, a equipe de Simeone foi forte ao mercado. Mas a grande contratação, Jackson Martínez, saiu seis meses depois, para o futebol chinês, gerando lucro. Esportivamente falando, o colombiano não se deu muito bem em Madri. E como nunca, o clube gastou. Chegaram: Martínez (37M, Porto), Savic (25M, Fiorentina), Vietto (20M, Villarreal), Carrasco (17,2M, Monaco), Filipe Luís (16M, Chelsea), Kranevitter (8M, River Plate), Mensah (6M, Vitória de Guimarães) e Santos Borré (2,5M, Deportivo Cali), totalizando incríveis 136 milhões de euros.

Entretanto, o Atlético sofreu outro desmanche e se desfez de atletas caríssimos. O próprio Martínez, como dissemos, foi para o Guangzhou Evergrande por 42 milhões. Eis a lista completa de vendas: Arda Turan (34M, Barcelona), Raúl Jiménez (22M, Benfica), Mandzukic (21M, Juventus), Alderweireld (16M, Tottenham), Mario Suárez (15M, Fiorentina), Raúl García (8M, Athletic Bilbao) e Miranda (4M, Inter, empréstimo). Com estas transferências, o Atlético arrecadou 162 milhões de euros. Também batendo recorde nas saídas. Novamente, tivemos a caravana dos que foram embora sem custos, que inclui: Insúa, Cebolla Rodríguez, Guilherme Siqueira, Manquillo, Mensah, Baptistão, Cerci, Bastón e Pérez. Borré e Kranevitter, por outro lado, permaneceram por mais um ano em seus clubes de origem.

O papão

Por fim, o Atlético fez novos ajustes para a temporada 2016-17 e com isso, chega com força para as semifinais da Liga dos Campeões. No Espanhol, o início foi lento, mas o time se acertou e voltou a ocupar a terceira posição, ultrapassando o decadente Sevilla. Por falar em Sevilla, foi com a equipe andaluz que o Atlético fez uma grande troca. Kevin Gameiro (32M) chegou, enquanto Vietto (3M), e Kranevitter (2M), ambos por empréstimo, tomaram os rumos do Sánchez Pizjuán, sob o comando de Jorge Sampaoli. Além de Gameiro, desembarcaram no Atleti: Gaitán (25M, Benfica), Vrsaljko (16M, Sassuolo), Diogo Jota (7,2M, Paços de Ferreira) e Axel Werner (800 mil, Atlético Rafaela), totalizando 81 milhões de euros em compras.

Simeone conseguiu se livrar de outros jogadores pouco utilizados e que estavam sendo emprestados. É o caso de Bastón (18M, Swansea), Miranda (9M, Inter), Baptistão (3,5M, Espanyol), Guilavogui (3M, Wolfsburg), além de Vietto e Kranevitter, que foram para o Sevilla. Com estas transferências, o clube recuperou 38,5 milhões de euros, gerando maior discrepância no balanço financeiro. Também tivemos uma turma indo embora sem custo algum, como Gámez e Silvio. Outros como Mensah, Theo Hernandez, Diogo Jota, Manquillo, Werner e Borré foram emprestados. Só Theo é que pode voltar, apesar de estar na mira do Real Madrid.

Em linhas gerais, Simeone não deixou nenhum buraco na equipe. Toda vez que vendeu alguém importante, conseguiu achar substitutos à altura. Griezmann, por exemplo, chegou para o lugar de Diego Costa e está em excelente fase, também virando um objeto de desejo de outros grandes clubes. Não é todo ano que o Atlético esbanja em dinheiro e gasta fortunas com novos jogadores, isso só acontece quando há necessidade. Diferentemente de Real Madrid, Manchester City e outros gigantes que mesmo com elencos já consolidados, fazem grande aporte financeiro para atrair novas estrelas.

O trabalho de Simeone pode ser considerado um sucesso, sobretudo se considerarmos que os colchoneros foram os intrusos em uma era amplamente dominada por Real Madrid e Barcelona, tanto em títulos quanto em contratações. Mas no fim, acaba sempre sendo mais difícil segurar os talentos do que propriamente brigar por títulos. Em que se pese, a consistência e o alto rendimento do Atlético em campo são reflexos da postura de seu treinador e da boa presença de mercado.