Como reforçar o que já é bom: estratégia do Flamengo lembra o Corinthians pós-Mundial

O Flamengo começa a apresentar nesta semana o que tem de novo para mostrar à sua torcida após a excelente temporada de 2019, com reforços pontuais e já razoavelmente provados no futebol. Com Gustavo Henrique, Thiago Maia, Michael e Pedro Rocha, além da base titular quase garantida para a próxima temporada, o clube carioca repete uma estratégia já utilizada pelo Corinthians depois de conseguir o título mundial em 2012.

Hoje, é claro, é fácil falar que o Timão não teve um 2013 dos sonhos, mesmo com o título paulista sobre o Santos de Neymar e a Recopa vencida frente ao São Paulo. Uma eliminação precoce na Libertadores da América e uma campanha ruim no Campeonato Brasileiro, terminando apenas com a décima colocação, deram o tom daquela temporada. Em janeiro, porém, poucos conseguiam prever isso.

Corinthians Club World Cup 2012 Yokohama Japan
Corinthians Club World Cup 2012 Yokohama Japan
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(Foto:Getty)

Todos os titulares do Corinthians na conquista do Mundial foram mantidos, reforçados pelo zagueiro Gil, então no Valenciennes-FRA, o meia Renato Augusto, do Bayer Leverkusen-ALE, e o atacante Alexandre Pato, grande estrela da companhia, vindo do Milan-ITA. O trio todo atuara por seguidos anos na Europa, estava na faixa dos 24 anos de idade e era visto com grande potencial de impacto imediato, melhorando bastante as opções no banco de reservas.

Menos estrelados, mas também donos de boas carreiras até aqui, os reforços flamenguistas também chegam para aumentar o nível de competitividade no elenco carioca, talvez o único ponto baixo do segundo semestre de 2019. Gustavo Henrique foi titular do Santos por mais de cinco anos, Pedro Rocha foi protagonista em parte das conquista recentes do Grêmio, Thiago Maia esteve na seleção olímpica de 2016 e Michael, o mais caro da companhia, foi a revelação do futebol brasileiro no ano passado.

Pedro Rocha Flamengo 2020
Pedro Rocha Flamengo 2020
(Foto:Marcelo Cortes/CR Flamengo)

As semelhanças

Tanto o Flamengo hoje como o Corinthians daquela época não viam nos rivais locais adversário à altura. Para efeito de comparação, as novidades mais caras para a temporada nas outras equipes foram o zagueiro Dedé, contratado pelo Cruzeiro, e o meia Paulo Henrique Ganso, que saiu do Santos em setembro de 2012 para ir ao São Paulo e parecia ter em 2013 tudo para "estourar". Os dois juntos, porém, não custaram 2/3 do que pagou o Timão por Alexandre Pato, por exemplo.

Jorge Jesus e Tite, respectivamente, também estavam assegurados para a temporada seguinte. Nomes cobiçados dos dois lados, como os flamenguistas Arrascaeta e Bruno Henrique e os corintianos Ralf e Paulinho, foram mantidos no elenco por ambas diretorias ao menos para o primeiro semestre. Resta ao Flamengo acertar a sequência de Gabigol, artilheiro do ano, para entrar em 2020 tão goleador quanto terminou 2019.

As baixas ficaram por nomes que tiveram participação razoável na temporada, mas estiveram longe de encantar. Enquanto o Corinthians perdeu Martínez, argetnino negociado com o Boca Juniors-ARG, o Mengão viu Rodinei sair para o Internacional.

As diferenças

Ainda que tenha investido um bom dinheiro na chegada de Michael (R$ 34 milhões), o Flamengo costurou acordos por empréstimo com Thiago Maia e Pedro Rocha, e pagou apenas as luvas de Gustavo Henrique, livre no mercado devido ao final do seu contrato com o Peixe. No Timão, porém, o investimento foi pesado: R$ 40 milhões em Alexandre Pato, R$ 10 milhões em Renato Augusto e mais R$ 10 milhões em Gil, um total de R$ 60 milhões. Em valores corrigidos pela inflação, seriam quase R$ 90 milhões.

O montante pode ser ultrapassado pelos flamenguistas caso haja a compra dos direitos econômicos de Gabriel, hoje vinculados à Inter de Milão. O jogador custaria algo em torno de R$ 70 milhões para os cofres do clube, um investimento sem precedentes para contar com os serviços do artilheiro do Brasil em 2019.

Outro ponto importante se dá pelo calendário diferente do futebol brasileiro na comparação das duas temporadas. Enquanto o primeiro semestre de 2013 reservava toda a disputa da Copa Libertadores da América para o Corinthians, o de 2020 coloca Mengão à prova apenas na fase de grupos do torneio continental, deixando o mata-mata para a segunda metade do ano. Ou seja, enquanto os paulistas conseguiram manter Paulinho para o que seria toda a disputa da competição antes de negociá-lo com o Tottenham, em julho daquele ano, os cariocas precisariam segurar investidas do exterior no meio do ano, principal janela europeia, para manter a base durante todo o torneio.

O que deu errado

Como já foi dito, o 2013 corintiano reserva poucas boas lembranças à torcida por uma série de fatores. É difícil achar alguma equivalência nessa parte, já que os cenários mudam bastante temporada a temporada no Brasil (imagina depois de sete), mas ao menos um pode servir de alerta para os rubro-negros: o ego dos jogadores.

Com muitos jogadores para cada posição, o Corinthians viu atletas de renome, como Pato, ficarem no banco de reservas em momentos importantes. Maior salário do elenco, acima até do teto salarial, ele foi reserva nos dois jogos contra o Boca Juniors, pelas oitavas de final da Libertadores da América. Tudo isso ganhando mais do que nomes bastante utilizados (e cobrados) naquele ano.

"O Pato sofreu um pouco do que é comum no futebol. Quando o jogador vem de fora e ganhando mais do que todos, isso provoca uma reação. Senti que houve isso por parte do elenco em relação a ele", disse Mano Menezes, técnico do Corinthians no ano seguinte, em 2014. Algo para Jorge Jesus ficar de olho diante de um elenco cada vez mais recheado de opções.

pato corinthians
pato corinthians
(Foto:Daniel Augusto Jr./ Corinthians)

Fundamentalmente, porém, dois episódios marcantes foram os que mais contribuíram para a decepcionante performance: a morte do garoto Kevin Espada, na estreia da equipe na Libertadores, na Bolívia, e a terrível arbitragem de Carlos Amarilla, nas oitavas de final, no Pacaembu. Houve, no Corinthians, quem visse uma correlação nos fatos. "Não fomos nós que perdemos, fizeram-nos perder. Seguiremos com o trabalho", concluiu o então presidente Mario Gobbi.

O que pode dar certo

Flamengo Troféu Libertadores 2019
Flamengo Troféu Libertadores 2019
(Foto:Getty Images)

Obviamente o Flamengo já deu certo em 2019 e teve um ano para gravar na memória de todos os seus torcedores, talvez tão grande quanto o mítico 1981. Para que isso continue a dar certo, no entanto, o clube tenta driblar os erros dos seus adversários do passado, controlando gastos e egos, e estabelecer uma rara hegemonia no futebol nacional.

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