Como os “estreantes” São Paulo e Cruzeiro chegaram à final do Brasileiro

Yahoo Esportes
(crédito: Thaís Magalhães/CBF)
(crédito: Thaís Magalhães/CBF)

Neste domingo, São Paulo e Cruzeiro começam a decidir o título da Série A2 do Brasileiro. As duas equipes foram criadas somente no início deste ano, após as novas regras da Conmebol e da CBF que obrigam os clubes de Série A a manterem times femininos. No entanto, apesar do pouco tempo, conseguiram desenvolver um trabalho eficiente e bem estruturado que resultou no acesso à elite em 2020 e na classificação à grande final.

Sob comando de Lucas Piccinato, o São Paulo apresentou seu time feminino com pompa e circunstância ao anunciar também contratação de Cristiane. A atacante da seleção brasileira também negociava com o Barcelona, mas preferiu apostar no projeto tricolor por entender que o clube realmente iria investir no crescimento e na profissionalização da modalidade.

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

“Levamos ela para dentro do clube, mostramos a estrutura onde as meninas iriam treinar, fazer fisioterapia e tudo”, afirmou Amauri Nascimento, diretor de futebol feminino do clube, ao Deixa Ela Jogar. “Ela queria ficar perto da família e viu que poderia ter um futuro bom ali, acreditou no projeto, então escolheu o São Paulo”.

O início da formação da equipe mineira não foi tão animador. Em dezembro do ano passado, o gerente de futebol Marcone Barbosa disse em entrevista às Dibradoras que o clube trataria a modalidade como obrigação e que não havia interesse em investir de fato. Semanas depois, contudo, o próprio dirigente entrou em contato com Bárbara Fonseca, ex-gerente de futebol feminino do América-MG, e ofereceu uma proposta para assinar com o Cruzeiro.

Mais sobre futebol feminino no Deixa Ela Jogar:

Bárbara aceitou e levou parte das atletas e da comissão técnica consigo — inclusive o técnico Hoffmann Túlio — para a Toca da Raposa, onde teve carta branca para trabalhar. “A partir desse momento, não tive nenhuma resistência para montar toda a estrutura necessária. A diretoria me deu total liberdade para trabalhar dentro do orçamento aprovado e buscar profissionais. E o trabalho até aqui superou todas as nossas expectativas", contou a dirigente ao blog.

“Quando montei a comissão, lembro de falar da importância de traçar metas. Nossa principal meta era trabalhar pontualmente cada adversário para poder chegar até a final, e cá estamos”, acrescentou Bárbara. “Mas de certa forma, se você pensar no trabalho que foi feito desde o primeiro dia, não poderia ter um resultado diferente. Trabalhamos demais. Temos uma excelente comissão técnica e atletas que treinam entenderam o que representa vestir a camisa do Cruzeiro.”

Cabulosas eliminaram Pinheirense, Ceará e Grêmio no mata-mata (Vinnicius Silva)
Cabulosas eliminaram Pinheirense, Ceará e Grêmio no mata-mata (Vinnicius Silva)

No São Paulo, a classificação para a elite também era vista como “obrigação” devido ao apoio do clube. “Era o mínimo que a gente podia devolver por todo investimento e por acreditarem na gente. Conseguimos a vaga na final e ainda classificamos para a segunda fase do Paulista, onde a briga é contra Santos, Corinthians, Ferroviária e outros times que já fazem um trabalho de anos”.

Nos dois projetos finalistas, a profissionalização foi levada a sério: todas as jogadoras do elenco principal têm carteira assinada com direito aos mesmos benefícios dos atletas homens. No São Paulo, elas treinam na grama sintética da sede social do Morumbi, mas fazem trabalhos esporádicos na estrutura da base, em Cotia, e no CT da Barra Funda. Já no Cruzeiro, Bárbara preferiu encontrar um espaço exclusivo para o futebol feminino para não ter que dividir horário com as diversas equipes que treinam na Toca da Raposa.

Para aproximar o time feminino da torcida, os departamentos de marketing desenvolveram estratégias, sempre usando a paixão pela camisa como motor.

“No começo a gente jogava em Cotia, mas levamos os jogos para o Pacaembu, o que facilitou a aproximação dos torcedores. Quando não precisamos dividir a atenção com jogos do masculino, a torcida nos acompanha. Claramente teve aumento do interesse após a Copa do Mundo e parece que está se criando uma nova cultura. Além disso, colocamos bastante conteúdo do futebol feminino nas redes sociais do clube", explicou Amauri.

Tricolor bateu Botafogo-PB, Taubaté e Palmeiras para ir à final (Rubens Chiri)
Tricolor bateu Botafogo-PB, Taubaté e Palmeiras para ir à final (Rubens Chiri)

A pedido da torcida, e com autorização de Leco e Raí, o São Paulo tentou levar o jogo de ida deste domingo para o Morumbi, mas isso só seria possível se a CBF mudasse a data da partida, já que o masculino joga contra o Ceará às 16h. Porém, a TV Bandeirantes, detentora dos direitos de transmissão do Brasileirão Feminino, não topou a mudança. Assim, o jogo será mesmo no Pacaembu.

No Cruzeiro, Bárbara avalia que a estratégia para aproximar os torcedores das “Cabulosas” deve ser diferente da usada com a equipe masculina, entendendo as particularidades do futebol de mulheres. “Tem coisa que não cabe no feminino, como esse distanciamento entre elenco e torcedor. Desde o início incentivamos as atletas a se aproximarem, a responderem os fãs nas redes sociais e a compartilharem momentos de como é a vida de uma jogadora do Cruzeiro. Essa metodologia tem dado certo.”

Tem dado tão certo que a diretoria conseguiu levar a finalíssima da A2, marcada para o dia 25 de agosto, às 14h, para o estádio do Mineirão. Geralmente, a equipe manda seus jogos no Sesc Venda Nova, com capacidade para 3 mil pessoas, mas a mobilização causada pela final fez a diretoria mudar o palco. Os resultados agradam tanto que clube planeja aumentar o investimento na modalidade a partir da próxima temporada.

“Quando o torcedor está identificado com a equipe feminina, ele começa a ser um consumidor, o que capitaliza o futebol feminino, gera receita e ajuda a melhorar a estrutura como um todo”, acrescenta Bárbara. “Mas a gente não pode deixar de considerar o aumento da visibilidade que o esporte teve esse ano nos meios de comunicação. É isso que está movendo o crescimento do futebol feminino de maneira tão célebre.”

Para o jogo de ida da final, o São Paulo ainda não poderá contar com Cristiane. A atacante sofreu uma série de lesões nesta temporada e soma apenas uns poucos minutos com a camisa tricolor, mas tem tentado ser um pilar no vestiário para passar sua experiência às jogadoras mais jovens.

Leia mais:

“Ela tem uma dedicação exemplar. Quando estiver pronta, vai voltar, mas por enquanto tem participado dos bastidores. Após a derrota para o Taubaté (no jogo de ida das quartas de final), ela foi muito importante. O time estava invicto e as jogadoras ainda não sabiam lidar com a derrota, mas ela esteve lá, e, juntos, conseguimos buscar a virada”, lembrou Amauri.

“Quanto à final, a gente respeita bastante o Cruzeiro. É uma grata surpresa, uma equipe que a gente monitorou e que já tem essa base do América, um grupo que se conhece, diferente do nosso que está se conhecendo agora. Então é uma equipe que não vem para brincar. A gente está atento para poder fazer dois belos espetáculos que o futebol feminino merece", projetou o dirigente tricolor.

“Espero um grande jogo", ecoou Bárbara. “Nosso treinador foi para Vinhedo ver a semifinal, e apesar dos erros de arbitragem que, na minha opinião, prejudicaram o Palmeiras, quiseram os ‘deuses do futebol’ que nosso adversário fosse o São Paulo. É um grande time, muito competitivo, mas nossas meninas querem demais e estão trabalhando todos os dias em dois turnos, muito focadas nessa disputa. Espero uma final em alto nível para todo mundo ver que a gente também consegue fazer futebol arte.”

Onde assistir?

A transmissão das finais da Série A2 do Brasileiro fica por conta da TV Bandeirantes. A ida será domingo (18), às 14h, no Pacaembu, e a volta será no próximo domingo (25), também às 14h, no Mineirão.

Leia também