Como o IDH da cidade natal e o semestre de nascimento aumentam a chance de jogar na Série A do Brasileirão

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PEDRO DO ROSARIO, BRAZIL - NOVEMBER 19:  Residents of the Imbiral quilombo play football in their community, which they say is being heavily encroached upon by illegal logging and cattle ranching, in the Amazon basin on November 19, 2014 in the Pedro do Rosario municipality of Brazil. Quilombos are communities usually made up primarily of descendants of escaped slaves who fled to rural areas in Brazil and formed autonomous communities.  Residents of the Imbiral quilombo say illegal logging and ranching has rapidly depleted their ancestral territory and some community members have received death threats for resisting deforestation. Imbiral residents live  off the land but say their livelihoods are severely threatened by deforestation. The non-governmental group Imazon recently warned that deforestation in Brazil's Amazon basin skyrocketed 450 percent in October of this year compared with the same month last year. The United Nations climate conference is scheduled to begin December 1 in neighboring Peru. (Photo by Mario Tama/Getty Images)
Residentes de quilombo em Pedro do Rosario, nas margens do Rio Amazonas (Mario Tama/Getty Images)

Contexto é uma palavra que jamais pode ser negligenciada quando se fala no potencial de jogadores de futebol. Um determinado atleta pode mostrar diversos pontos de aptidão, mas uma série de circunstâncias trabalham e constroem qual nível de fato ele alcançará. Levando em conta tais fatores, um trabalho do Núcleo de Pesquisa e Estudos em Futebol (NUPEF), da Universidade Federal de Viçosa, se debruçou em como a taxa demográfica, o Índice de Desenvolvimento Humano e a data de nascimento são decisivos para a identificação e evolução dos futebolistas no Brasil.

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“São inúmeros fatores que influenciam no desenvolvimento de um jogador”, explica o Prof. Dr. Israel Teoldo, coordenador do curso de especialização em Futebol da Universidade Federal de Viçosa, idealizador do NUPEF e um dos autores do estudo, ao lado de Felippe Cardoso. “Desde os aspectos do jogo em si, técnicos, táticos, físicos e psicológicos, como também os aspectos relacionados ao meio ambiente. Relacionado à parte social, de onde ele veio, que o estudo mostra muito. Em que condições ele veio, quando nasceu. Ter treinadores com qualidade, que permita fazer o desenvolvimento dentro das etapas latentes de evolução deste jogador. E ter avaliações ajustadas ao período de desenvolvimento, condizentes com as metodologias e conteúdos que são desenvolvidos ao longo da formação”.

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A realização do estudo contou com uma amostra composta por 5.359 jogadores do Campeonato Brasileiro de Futebol da Série A entre 2003 e 2019. Também foram coletados dados de data e local de nascimento dos atletas, bem como o IDH de suas cidades. Os resultados indicaram que nascidos no primeiro semestre do ano, em cidades municípios com uma taxa demográfica de até 100 mil habitantes e IDH acima de 0,501, são mais propensos a jogar na primeira divisão do futebol brasileiro.

“Com esses dados, falamos da probabilidade de encontrar, ou de um ambiente mais favorável ao desenvolvimento do talento, o que não implica que esse talento não possa se desenvolver num ambiente mais hostil. Só que isso é um pouco mais difícil. Em relação ao processo formativo, se você não detecta esse talento com qualidade, o seu processo formativo estará todo enviesado. Você estará trabalhando talvez com um atleta que não tem o seu máximo potencial”, pontua Teoldo.

Mapa dos talentos de acordo com região brasileira (Israel Teoldo & Felippe Cardoso)
Mapa dos talentos de acordo com região brasileira (Israel Teoldo & Felippe Cardoso)

Segundo o estudo, baseado em considerações de diversos outros pesquisadores, há três aspectos que facilitam a identificação e desenvolvimento de jovens jogadores de futebol. O primeiro é o ambiente social em que o atleta nasce e é criado; o segundo, as condições biológicas e a aquisição de habilidades tática, técnica, física e psicológica, necessárias para o jogo; e, por fim, as experiências gerais dentro do próprio esporte, relacionadas ao alcance de atributos por meio de treinamento. O primeiro ponto precisa de atenção especial, devido à sua relação com características que não podem ser controladas pelo clube. Ou seja, a data e local de nascimento do jogador, sua estrutura familiar, condições de saúde, educação, etc.

“Um apontamento muito importante que a gente vê é que essas idades, antes da criança ou adolescente chegar ao clube, são decisivas”, reforça o coordenador do NUPEF. “Então, para isso, precisamos desenvolver ambientes ricos esportivamente, mas também socialmente melhores no desenvolvimento humano, para que essas crianças tenham oportunidade de ter acesso à prática esportiva. Isso deveria fazer parte das políticas de desenvolvimento do nosso Governo Federal, Estadual e Municipal. As entidades públicas deveriam pensar nisso porque eles precisam fomentar o esporte, fomentar o acesso à prática esportiva, fomentar o acesso das crianças à uma prática qualificada, sobretudo. Isso deveria ser uma preocupação de todos nós. Propiciar melhores condições para que as crianças, em especial nas primeiras idades até os 13 anos, tenham acesso a uma orientação de qualidade no esporte e espaços adequados para praticar esse esporte.”

Outros detalhes do estudo

Dentre os 5.359 jogadores identificados entre 2003 e 2019 no Campeonato Brasileiro da Série A, 454 eram goleiros; 1.725, defensores; 1.840, meio-campistas; e 1.340 atacantes.

Os resultados também indicaram que 34,3% dos jogadores são de cidades com até 100 mil habitantes; 33,6%, entre 100.001 e 1 milhão; e 32,1% com mais de 1.000.001 em população. Entre os 27 estados brasileiros, seis se destacam como as principais fontes de atuação: São Paulo (26,6%), Rio de Janeiro (13,5%), Minas Gerais (9,0%), Rio Grande do Sul (8,6%), Paraná (7,2%) e Bahia (7,1%).

Os resultados relativos às datas de nascimento dos jogadores indicaram que os nascidos no primeiro semestre representam cerca de 61,2% dos que jogam, ou jogaram, na elite do Campeonato Brasileiro.

Com relação aos IDHs de locais de nascimento, 49,6% dos jogadores nasceram em cidades valor entre 0,501 e 0,700. Além disso, 42,8% nasceram em cidades com IDH entre 0,701 e 0,820. Cidades com IDH inferior a 0,500 contaram com apenas 7,7% dos que se tornaram profissionais. Os estados brasileiros com o maior número de jogadores de elite foram São Paulo (0,71 ± 0,04), Rio de Janeiro (0,69 ± 0,05), Minas Gerais (0,66 ± 0,06), Rio Grande do Sul (0,68 ± 0,05), Paraná (0,78 ± 0,06) e Bahia (0,55 ± 0,09). Entre parênteses, a média do IDH dos estados, com “±” caracterizando desvio padrão.

Mapa do IDH no Brasil (Israel Teoldo & Felippe Cardoso)
Mapa do IDH no Brasil (Israel Teoldo & Felippe Cardoso)

Título do artigo: Israel Teoldo & Felippe Cardoso (2021), Talent map: how demographic rate, human development index and birthdate can be decisive for the identification and development of soccer players in Brazil.

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