Como o esporte ajudou a diminuir o uso de drogas na Islândia

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Estádio Nacional em Reykjavik. (Foto: Diogo Bercito/Folhapress)
Estádio Nacional em Reykjavik. (Foto: Diogo Bercito/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Se você praticar esportes durante a infância e a adolescência, provavelmente vai ser bom. Se não, pelo menos se salvará da adicção em substâncias. O que poderia ser melhor que isso?"

Com certa dose de humor, é assim que a pesquisadora Inga Dora resume um dos motivos da Islândia ter conseguido resultados importantes em competições esportivas recentemente: um programa para combater o uso de drogas.

A iniciativa, hoje chamada Planet Youth, começou em 1997, quando um grupo de pesquisadores percebeu que a tradicional estratégia de ensinar às crianças que as drogas fazem mal à saúde não estava funcionando.

O grupo iniciou estudos para entender os fatores que contribuíam para o consumo de entorpecentes. Desenvolveu estratégias com foco em pequenas comunidades, integrando crianças em atividades coletivas.

"Se você perguntar a uma criança de 7 anos o que ela quer ser quando crescer, ela dirá professor, piloto, bombeiro. Não 'usuário de drogas'. Atualmente, aqui os jovens de 18 anos bebem menos que os de 15 bebiam há 20 anos. Porque nós conseguimos retardar o momento que eles tomam o primeiro gole", diz Inga Dora à reportagem.

Em 1998, 42% dos estudantes de 15 e 16 anos haviam ficado bêbados nos últimos 30 dias. O número desceu para 7% em 2020. Desse mesmo grupo, 23% fumavam diariamente. Em 2020, apenas 1%. O uso de maconha caiu de 17% para 6% no período.

E nesse processo, o grupo descobriu que o esporte é uma das ferramentas mais eficientes. Inclusive com efeito especialmente positivo em crianças que convivem em ambiente familiar violento --fato diretamente relacionados ao uso de substâncias.

"Se você me perguntasse dez anos atrás, diria que não é possível afirmar que há uma relação de causa e efeito entre a prática esportiva e a redução do uso de drogas. Após nossos estudos, posso confirmar que sim, há uma relação de causa e efeito", afirma.

Paulo Silveira, do Observatório das Adições, explica que a chave está na compreensão de que a dependência não é química, mas causada por fatores sociais.

Cita, por exemplo, o estudo de Bruce Alexander, que separou dois grupos de ratos e colocou um em gaiolas individuais e o outro em um ambiente livre. Ofereceu cocaína a todos. Os enjaulados quase se mataram; os outros mal a tocaram.

Ou a pesquisa que descobriu que, dos soldados dos EUA que consumiam heroína no Vietnã, apenas 12,3% teve dificuldade em parar de usar a droga após voltar para casa -4% desses militares tiveram problemas para interromper o consumo mesmo com ajuda profissional.

A questão, conclui Silveira, é integrar o indivíduo na sociedade.

"O esporte funciona, primeiro, porque ele trabalha com todas as idades e todos os indivíduos. Ele integra o indivíduo no seu coletivo e reproduz a própria vida, com regras, com reconhecimento do desempenho individual ao mesmo tempo que o indivíduo funciona em seu coletivo", diz.

"Não é o esporte isoladamente, é o esporte com consciência social. Para que uma pessoa tenha o desempenho desejado, precisa de dedicação. E aí outros hábitos, como uso de drogas lícitas ou ilícitas, ou alimentação não saudável, começam a atrapalhar", completa.

De quebra, a adesão maciça ao esporte desde a juventude tem trazido resultados expressivos para a Islândia.

Na Eurocopa de 2016, por exemplo, a seleção foi a grande sensação e chegou às quartas de final. Subiu das últimas posições para a 18ª no ranking da Fifa. Na Copa de 2018, a nação de 330 mil habitantes se tornou o menor país a disputar um Mundial.

É importante lembrar que o foco do programa é o combate às drogas, não o esporte.

O segredo, explica Silveira, é criar espaços de prática esportiva que fujam da ideia dos clubes privados e se aproximem do conceito de escola cidadã de Paulo Freire.

"São escolas que deixam de ter como função exclusiva a transmissão de conhecimento para ter um sentido de aglutinação da sociedade, onde a comunidade que frequenta a escola vai discutir seus problemas e elaborar soluções", diz.

A Islândia criou espaços de encontro da comunidade onde, entre outras coisas, há o esporte.

"Não é sobre procurar um potencial novo Ronaldo. É sobre dar escolhas às crianças. Se elas puderem, vão escolher o esporte e é mais provável que virem atletas se praticarem futebol, basquete e natação de forma prazerosa e organizada", afirma Inga.

"Crianças não planejam usar drogas, mas somos seres sociais. Nós, pais e governantes, somos responsáveis por criar circunstâncias nas quais elas não precisem usar drogas."

Hoje, o Planet Youth atua nos mundo todo. Segundo Inga, a iniciativa é aplicável à realidade brasileira, uma vez que seu princípio metodológico é trabalhar em pequenas comunidades, de forma adaptável às particularidades locais--e nesse sentido poderia se aproveitar da paixão futebolística.

Silveira destaca, primeiro, um obstáculo geográfico: a Islândia é uma ilha do tamanho da cidade de Ponta Grossa (PR), enquanto o Brasil é quase do tamanho da Europa.

"Nosso regime socioeconômico só sobrevive porque nós todos somos educados para sermos adictos, ou seja, nós temos que consumir permanentemente para que a economia cresça", acrescenta.

Mas na ponta do lápis, lembra que um preso no Brasil custa ao Estado 13 vezes mais que um estudante. E o Brasil tem mais de 160 mil presos por tráfico de drogas.

No entanto, entende que há uma cultura enraizada da chamada guerra às drogas, que atende a interesses financeiros e dificulta o convencimento da população e dos governos de que a estratégia islandesa é eficiente --o tema já foi debatido no Congresso Federal, mas nunca andou.

Em termos globais, Silveira destaca que o país é um dos principais consumidores do bilionário mercado de drogas mundial.

Finalmente, destaca que a Covid-19 fez o número de adicções subir em todo o mundo. Na edição especial de pandemia do Global Drug Survey (GDS), o Brasil teve aumento de 17,2% no consumo de maconha; 7,4% de cocaína; 12,7% de benzodiazepínicos (como Diazepam) e 13,1% de álcool.

Isso prova que o atual combate às drogas precisa mudar, diz. Atualmente, o Observatório negocia parcerias com prefeituras ou conglomerados, como o Consórcio Nordeste.

"Pretendemos oportunizar a realização desse tipo de programa aqui no Brasil. Como? Trabalhando com comunidades interessadas para a implantação de um programa, organizado pela população junto a nós, que podemos fazer a captação de recursos financeiros, profissionais e tecnológicos."

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