Como funciona a impulsão no corpo dos atletas?

Cristiano Ronaldo, ainda na Juventus, disputa bola com goleiro do Sassuolo em jogo da Serie A (Foto: Jonathan Moscrop/Getty Images)
Cristiano Ronaldo, ainda na Juventus, disputa bola com goleiro do Sassuolo em jogo da Serie A (Foto: Jonathan Moscrop/Getty Images)

Ser um atleta completo envolve dominar distintas valências. Notável artilheiro, Cristiano Ronaldo, por exemplo, reúne qualidades técnicas, táticas e também motoras. Com muito treino e favorecimento biológico, alcança o que outros não conseguem. Literalmente. Com o passar dos anos, demonstrou de diversas formas que ganhar uma bola dele pelo alto é tarefa complexa, algo restrito a um número não tão extenso de jogadores. Bastam exercícios para ser tão bom quanto neste quesito? Há diferentes tipos de saltos? O que acontece no nosso corpo no momento em que pulamos?

A fim de entender melhor como se desenvolve a impulsão, e particularidades de diversos saltos, conversei com o fisiologista Prof. Renato Tavares Fonseca, doutor em Ciências do Exercício e do Esporte pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Leia também:

“Na verdade, na impulsão vertical, o que está envolvido não é apenas o treinamento, mas sim as características morfológicas e biomecânicas do atleta, para que ele possa realizar o salto da melhor maneira possível”, explica Renato. “Ou seja, é preciso ter coordenação motora para poder desenvolver a sua impulsão vertical. Dentre os músculos que são mais acionados, destaco todos que passam pelo tronco, membro superior, atuando de forma concêntrica e excêntrica, cada um no seu momento do salto. Tudo faz parte desse processo.”

No dia 11 de janeiro de 2021, numa partida da Juventus contra o Sassuolo, pelo Campeonato Italiano, uma imagem específica impressionou. Ainda no início do jogo, Cristiano Ronaldo alcançou, num salto, 2,57cm. O português superou, inclusive, o goleiro adversário, que estava com os braços esticados. Vale explicar a altura total obtida: estes 2m57cm incluem a estatura do atacante (1m87cm) e resultado é baseado no diâmetro da bola (22 cm). Precisamente, e não menos notável, o salto foi de 66cm.

“O tipo de treino é muito importante hoje para fazer com que um atleta salte alto, seja em qual modalidade for. Existem treinamentos concorrentes, em que são envolvidos, por exemplo, uma valência física. Há também um tipo de modalidade como a pliometria. Existem pesquisas que falam sobre o treinamento de força como melhor resposta para que o atleta possa desenvolver o salto. Existem variáveis biológicas e anatômicas. Por exemplo, os tipos de fibras musculares estão diretamente envolvidos nesse processo. Quando a pessoa tem fibras do tipo de explosão, características de fibra do tipo IIB, principalmente, tem uma vantagem biológica interessante nesse sentido. E assim como também a própria biomecânica da sua anatomia. Por exemplo, quando ele tem uma boa coordenação motora e tem uma boa capacidade de desenvolver as passadas para a realização do salto, isso também ajuda bastante na impulsão vertical”, detalha o especialista.

Esportes diferentes exigem diversos tipos de saltos. Consequentemente, músculos diversos são acionados. Tavares esmiúça.

“Tem dois tipos de saltos muito utilizados no treinamento. Um é chamado de salto com contramovimento. É aquele salto que utiliza as duas fases da contração a nível dos músculos relacionados aos membros inferiores. Ou seja, tem a fase excêntrica (alonga o comprimento dos músculos) e logo depois a concêntrica (realiza a contração). Dependendo do mecanismo do tipo do movimento utilizado, os músculos são diferentes na utilização e se contraem de momentos e formas diferentes. O outro salto, chamado squat jump, é feito apenas utilizando a fase concêntrica. Ou seja, você não tem a ação excêntrica que preconiza a ação concêntrica. No futebol, o salto é mais vertical. principalmente pela importância de, na maioria das vezes, alcançar a bola na maior altura possível. No salto em distância, há uma projeção do corpo para a frente. Isso é caracterizado por uma ação de músculos que vão atuar na biomecânica diferente para essa execução. Você tem por exemplo a ação maior de músculos envolvidos com essa técnica do salto horizontal. No basquete, os saltos realmente são executados muitas vezes sem a execução de passadas. Utiliza-se muito o salto com contramovimento, mas sem a realização de passadas anteriores. Isso exige muito mais força e potência do atleta para que ele possa atingir uma altura maior.”

Cuidados necessários

É comum que atletas ou praticantes de atividades físicas que se utilizam muito de saltos busquem diversos exercícios para melhorar o movimento. Mas a ânsia pelo melhor desempenho no quesito pode acarretar problemas importantes.

“Utilizar sobrecarga não apenas a nível do tornozelo, com caneleiras, ou com cintas, a nível da coluna vertebral, é uma característica que realmente leva a um ganho para realização da impulsão vertical. Entretanto, é preciso ter alguns cuidados. Principalmente no que diz respeito à sobrecarga de treino e às chamadas dores musculares de início tardio, que podem levar a uma diminuição da capacidade de performance do atleta.”

O controle do volume e intensidade da carga é fundamental, e os malefícios que podem ocorrer são muitos. “Por exemplo, existem saltos que são feitos chamados drop jumps, salto feito de uma altura maior até o solo, que tem que tomar cuidado nesse impacto no chão. Então o contato no chão tem que ser feito o mais rápido possível e ser feito com um treinamento prévio para que o atleta possa desenvolver esse tipo de treinamento, o chamado salto em profundidade”, descreve Renato. “É muito importante que o atleta, ou o praticante de atividade física, possa realizar avaliações diagnósticas para que saiba na verdade em que nível de força ele se encontra, se possui algum desequilíbrio muscular do membro inferior direito comparado ao esquerdo. Isso é importante para que se previna lesões. O acompanhamento de profissionais especializados na área é muito importante.”