Como foi feito o documentário de Pelé, que se encaixa em estratégia de marketing do Rei do Futebol

Colaboradores Yahoo Esportes
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Documentário do Pelé. Foto: Divulgação/Netflix
Documentário do Pelé. Foto: Divulgação/Netflix

Com produção iniciada em outubro de 2018 e lançamento em 23 de fevereiro deste ano, o documentário "Pelé", exibido pelo Netflix, foi oferecido ao protagonista como a possibilidade de manter o seu legado. Principalmente perante às novas gerações que têm como referência as carreiras de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi e nunca viram o camisa 10 do Santos e da seleção brasileira jogar.

Capitaneado por Joe Fraga, CEO da Sports 10, empresa que detém os direitos sobre a marca Pelé, o marketing do Rei do Futebol tem passado por uma transformação recente e discreta, mas já perceptível. Segundo pessoas próximas ao ex-jogador e ouvidas pelo Yahoo Brasil, o objetivo é fazer com que a imagem de Pelé fique acima de qualquer polêmica e seja sempre conciliadora.

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Antes reticente, Pelé tomou gosto pelo uso do celular e passa o dia a mandar mensagens para amigos e familiares. Também gosta de ver vídeos no aparelho. Mas não toca em suas redes sociais. Estas são administradas pela Sports 10.

O filme foi lançado no meio de uma controvérsia em que o personagem mergulharia com gosto nas décadas passadas: a contagem dos seus gols. Em vez de contestar ou reclamar, ele parabenizou em suas contas as marcas obtidas por Lionel Messi e Cristiano Ronaldo em partidas oficiais, teoricamente superiores as de Pelé.

Ele não postou nada da discussão sobre os seus gols em jogos amistosas. Mas seu perfil no Instagram lembra, em inglês, que ele é o maior artilheiro da história, com 1.283 anotados.

A ideia apresentada a Pelé foi produzir um documentário para mostrar ao público atual o que era ser o Rei do Futebol entre as décadas de 1960 e 1970, tanto no aspecto esportivo, quanto político e social. A inspiração para os diretores David Thyhorn e Ben Nicholas foi o filme "Maradona", dirigido por Asif Kapadia. Tanto pelo uso, ao máximo possível, de imagens da época, e de bastidores, quanto no recorte de um período específico da carreira.

No caso do Argentino, foi seu tempo no Napoli. Para o brasileiro, os 12 anos da Copa de 1958 ao Mundial de 1970. Por isso que eles rejeitaram ideias de entrevistar personagens atuais, que não viveram no período retratado no roteiro.

A produtora do documentário foi a Pitch Productions, empresa que tem contrato (em sua matriz Pitch International) com a CBF para comercializar amistosos da seleção brasileira. Também foi responsável pela série All or Nothing, que retrata os bastidores da equipe na Copa América de 2019 e está disponível no serviço Amazon Prime.

As sete entrevistas feitas com Pelé foram espalhadas por dois anos porque produtores e diretores tiveram de se adequar aos compromissos publicitários do ex-jogador, que cada vez viaja menos por causa de suas restrições físicas, e aos problemas de saúde.

Pelé, hoje com 80 anos, se submeteu à cirurgia para implantação de quadril em 2012. Ele continuou a reclamar de dores e ouviu de especialistas nos Estados Unidos ter sofrido erro médico. Roberto Dantas, responsável pela operação, afirma não ter havido qualquer equívoco no procedimento. O ex-jogador passou por mais duas intervenções a partir de 2016.

Como começou a forçar a perna esquerda para andar, teve problemas no joelho, também operado. A amigos, reclama que suas coxas de atleta, que sempre foram grossas, hoje estão muito finas. Ele continua fazendo sessões de fisioterapia, mas é um paciente indisciplinado, que às vezes se revolta com a rotina. As variações de humor também eram levadas em conta para produzir o documentário.

Uma das maiores discussões no roteiro foi a posição de Pelé sobre a ditadura militar brasileira nos anos 1960 e 1970 e mostrar os dilemas que ele passou no período. Era a situação ideal para mostrar o lado humano em vez do ídolo, mas sem radicalismos.

Um dos primeiros, claro, a ver o documentário em sua versão final, Pelé o aprovou. Não ficou convencido com os segundos em que aparece se locomovendo com andador até a cadeira antes de uma das entrevistas, mas achou que o filme fez jus à sua história. E à sua imagem.