Como empresários brasileiros compraram time da 10ª divisão inglesa

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Ikeda e Decca com a camisa do Wakefield (Foto: Arquivo Pessoal)

Foi da paixão pelo futebol em geral que Guilherme Decca, CEO da VO2 Capital, resolveu comprar um clube de futebol. Já tendo morado na Inglaterra em dois intercâmbios, ele decidiu que precisava ser lá o investimento.

Os ingleses, como ele percebeu in loco, valorizavam o esporte pelo esporte e os clubes de divisão menores também tinham um bom número de torcedores, assim como movimentavam a cidade em que ficam.

Um exemplo disso é justamente a série Ted Lasso, que trata do cotidiano do Richmond AFC. Na primeira temporada, o time está na Premier League e é rebaixado, mas se conhece a cidade, as influências e a paixão.

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Na segunda temporada, o time volta a Premier League. A Apple, responsável pela série, até fechou uma parceria com a liga inglesa e também utiliza a série como vitrine para os seus produtos.

Por conta da aptidão no mercado financeiro, do qual faz parte há mais de 20 anos, Decca resolveu dar um passo bem mais atrás entre as divisões inglesas. Foi na 11ª que encontrou o Wakefield AFC, localizado na cidade de mesmo nome e que tem cerca de 300 mil habitantes.

“Era o meu desejo pessoal e fui conhecendo um pouco mais dos clubes e suas estruturas até chegar ao Wakefield. Vimos times com dívidas e pouco estruturados, então passamos algumas oportunidades até chegar nessa, que se mostrou um bom case, com uma boa cidade e uma torcida apaixonada por trás”, disse em vídeo-chamada.

O empresário mora nos Estados Unidos, em Connecticut, mas mantém as operações do time sempre em dia. Faz chamadas com os diretores todos os dias, acompanha os processos e desdobra o tempo para fazer o planejamento dar certo. Em tom de brincadeira, até diz que espera ficar mais 40 anos no cargo.

“Eu tenho 44 anos, mas espero ficar aqui para sempre. Criamos um projeto de longo prazo e de uma forma que tenhamos uma boa relação com a cidade e as pessoas. É uma operação de futebol com programas de educação, times masculinos e femininos, base para atletas e, no futuro, um intercâmbio cultural. Temos 20 anos para subirmos de divisões e chegarmos ao profissional”, revela.

Para ele, a experiência no mercado financeiro é proveitosa porque traz para si o conceito de sustentabilidade. ‘Um dirigente não pode tomar decisões baseadas na emoção das vitórias ou derrotas’, disse. Por conta disso, os investimentos no clube seguem à risca o que foi estabelecido na pré-temporada.

Na temporada 2021-2022, por exemplo, o Wakefield venceu duas partidas, depois perdeu duas e voltou a vencer no último fim de semana. Na ocasião das derrotas, já se pensava em fazer modificações dentro do clube, mas Decca manteve o pensamento inicial.

“É preciso que tenhamos calma. O planejamento dura 20 anos justamente para que não precisemos apressar os processos desse jeito, querendo fazer investimentos demais em pouco tempo. No momento, nem temos investidores de fora. A ideia é colocar nosso modelo de gestão, organizar o clube como um todo, para que depois estejamos abertos a essa possibilidade”.

Decca é sócio majoritário do clube desde setembro de 2021 e divide o posto com André Ikeda, seu sócio na VO2 Capital. Segundo ele, a ideia é que o lucro gerado para o clube não se torne parte da empresa, mas que seja recolocado dentro da estruturação do projeto. Há, inclusive, uma tendência de aprendizado das duas partes: os brasileiros aprendem com os ingleses e vice-versa.

“Nós criamos um departamento de análise e performance no clube, tentamos trazer um estilo de jogo que funciona mais, mas também precisamos entender o contexto. É um processo que se ganha a confiança das pessoas, da cidade. Também estamos começando a criar conteúdo com o clube, como podcasts, highlights. É investimento em história, para falar a verdade”, complementou.

O time, inclusive, foi comprado na Inglaterra por conta do motor do país ser a relação com o esporte. O investimento em outros países, como os Estados Unidos, onde vive, seria um pouco menos prazeroso por conta do modelo de negócios do esporte americano.

“Há muito business, mas é uma liga que está começando. Na Inglaterra, há essa paixão sempre, o engajamento dos fãs e da torcida. Há também a possibilidade de rebaixamento, de promoção, que dá alegria, tristeza, mexe com todo mundo. Nós temos planilhas e cartilhas que explicam a importância de nos conectar com as pessoas”.

“Nosso tom é de fazer o clube crescer. O futebol está cansado de empresários ou investidores que usurpam do clube e depois o deixam. Aqui nós temos fila de pessoas para se tornarem voluntários. É uma coisa que motiva cada vez mais. As pessoas estão curiosas com o projeto, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, e isso mostra que podemos ir mais além”, concluiu.

A empresa, VO2 Capital, fica em Connecticut, nos Estados Unidos, e é uma boutique family office que oferece soluções de gestão de patrimônio com ênfase em investimentos imobiliários e alternativos no Brasil e nos EUA.

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