Como é participar da criação e manutenção da base de dados do Football Manager?

Yan Cavalcanti é um dos editores da base de dados do Football Manager no Brasil (Foto: Arquivo Pessoal)
Yan Cavalcanti é um dos editores da base de dados do Football Manager no Brasil (Foto: Arquivo Pessoal)

Não é difícil encontrar os mais diversos elogios ao modelo de construção do Football Manager. Fidelidade à base de dados é o mais recorrente. O enaltecimento deste trabalho é o resultado da árdua colaboração de diversas pessoas ao redor do planeta – o que pouca gente sabe. E para entender todo o rigor no método, critérios para atributos de jogadores, desafios e outros pormenores, fomos conversar com quem está no miolo da coisa.

"Comecei a colaborar com a base de dados em 2016 e foi uma mescla de senso de responsabilidade com uma sensação quase mágica de estar participando de algo que eu gostava tanto", revela Yan Cavalcanti, 33 anos, desenvolvedor de sistemas que trabalha integralmente com análise estatística de futebol e vôlei – e um dos editores da base de dados do Football Manager no Brasil. "Sempre tive a mania de customizar bastante o jogo antes de começar a jogá-lo. Então, basicamente, o meu trabalho hoje é o que antes eu fazia apenas pra mim depois que o jogo saía."

O início de tudo foi lá no Championship Manager 98-99, o primeiro simulador jogado por Yan. “Fiquei sabendo que havia uma versão mais completa de um game estilo Elifoot, fui atrás e apaixonei. Só não gostei quando dispensei Romário por engano”, lamenta, com bom humor.

Basicamente, o trabalho do Yan, natural de João Pessoa-PB, consiste em ajustar completamente todos os clubes paraibanos, e auxiliar com outras regiões do Brasil. Nacionalmente, a equipe de editores conta com outras quatro pessoas, além de um chefe de edição. O intuito deste grupo é deixar o jogo o mais atualizado possível, sempre.

"Tentamos fazer com que a base seja robusta e fiel. Mas claro, podem acontecer falhas, como algum jogador ser bem avaliado em anos anteriores e não passar por atualizações que acompanhem o seu desenvolvimento real, que pode não ter sido bom como o inicial. Em termos de transferência, sempre esperamos um jogador entrar no BID (Boletim Informativo Diário, da CBF) ou ser uma transação muito notória. São muitas regrinhas e padrões a serem seguidos. A relação entre nós que jogamos e os atletas do game são bem realistas. O fora de campo influencia e afeta cada jogador de modo diferente. A personalidade de cada jogador tem influência. Esse nível de realismo não se vê em outros jogos. Mas também sabemos que esse nível de detalhes pode ser difícil para jogadores de primeira viagem."

Quando a versão do Football Manager está próxima de ser fechada, a equipe chega a ajustar dados de cerca de 150 jogadores por dia. Geralmente, os clubes maiores, e alguns estados, têm pesquisador próprio. Há voluntários que auxiliam e acabam "adotando" um time, o que permite um detalhamento minucioso de atletas e staff. Naturalmente, os menores representam mais dificuldades. "Não dá para ser 100% perfeito, mas os clubes das primeiras três divisões do Brasil ficam próximos disso. Também é raro um jogador ser convocado para Seleção Sub-20 e não estar no jogo."

O que ainda dá para melhorar no Football Manager?

"Falando como fã, falta o Futebol Feminino. É o próximo passo, e um bem importante. Espero que um dia aconteça. Também gostaria de ver os clubes brasileiros oficialmente no jogo. Há um interesse deles por fazer uma liga para substituir o Campeonato Brasileiro e isso pode ajudar. Outra coisa que acho que o jogo não acaba sendo perfeito é que a simulação é muito focada no futebol inglês, então há situações que não conseguimos tornar 100% realista no futebol brasileiro. Há uma cultura de futebol completamente diferente. Lá, os treinadores que fazem bons trabalhos em divisões inferiores acabam subindo para as ligas maiores com maior facilidade. Aqui, os treinadores de clubes menores ficam muito presos às suas regiões. Um treinador que faz sucesso no Nordeste acaba tendo que ir para clubes gigantes da região para poder ter chances em clubes gigantes de outras regiões, e o jogo não simula perfeitamente isso, fazendo com que haja mudanças de treinador inacreditáveis."

Como definir o nível (0 a 20) dos indicadores de cada jogador?

"Alguns quesitos são complicados para avaliar. Em geral, temos que comparar os atributos e usar como base a divisão que os clubes estão. Por exemplo, em 2021 o Botafogo-PB estava na Série C e o Campinense estava na Série D. Os plantéis e jogadores não eram tão discrepantes, mas por causa da padronização das divisões, acabei deixando uma margem considerável entre os clubes. O ponto de partida era o seguinte: um jogador titular do Botafogo seria consideravelmente superior ao do Campinense, mas também não podemos deixar tão diferente da realidade, então temos que ficar sempre buscando um equilíbrio.

Alguns atributos são bem específicos e não é preciso tanta análise, como a impulsão, que temos de levar em conta, também, a altura do jogador. Outros são bem subjetivos, vide “bravura” e “jogos importantes”, e esses têm de ser ter mais atenção, especialmente porque cada pesquisador pode analisar de forma diferente.

Mas, depois de ver tantos jogos e analisar tantos jogadores, você acaba observando tudo com mais facilidade: Hoje em dia, consigo ver claramente quando um jogador não tem confiança com o pé ruim, quando ele não tem tanta visão de jogo ou o posicionamento defensivo dele é ruim, coisas que fazem parte de uma análise mais profunda."