Como a briga de Serena na final do US Open pode mudar uma antiga regra do tênis

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No tênis não é permitida a comunicação entre o jogador e seu treinador durante uma partida (Getty Images)
No tênis não é permitida a comunicação entre o jogador e seu treinador durante uma partida (Getty Images)

Por Marcelo Laguna (@MarceloLaguna)

A cena, até surpreendente para quem estava assistindo a final feminina do US Open, da áspera discussão entre a tenista americana Serena Williams e o árbitro português Carlos Ramos, pode indiretamente ajudar na mudança de uma das mais antigas regras do tênis.

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Na final contra a japonesa Naomi Osaka, no último dia 8 de setembro, o treinador de Serena Williams, Patrick Mouratoglou, tentou passar uma orientação para sua atleta.

O gesto foi flagrado pelas câmeras e o árbitro Carlos Ramos, considerado um dos mais rígidos do circuito, imediatamente advertiu a americana. Inconformada, ela negou que tivesse recebido qualquer orientação e partir daí, já em desvantagem no marcador e vendo Osaka cada vez melhor no jogo, começou a discutir com Ramos.

Como uma avalanche de indisciplinas, Serena quebrou a raquete após um erro, que lhe custou um ponto, e após chamar o árbitro de “ladrão”, perdeu um game. Tudo começou após a marcação do “coaching”, como a regra define a orientação passada por um técnico ao tenista.

Ao contrário de outras modalidades, no tênis não é permitida a comunicação entre o jogador e seu treinador durante uma partida. Raras exceções são permitidas em competições específicas, como a Copa Davis ou sua similar feminina, a Fed Cup, ambas disputas por países.

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Em determinados torneios da WTA, que organiza o circuito feminino de tênis, é permitida a entrada do treinador ao final dos sets. Nos demais torneios, incluindo o Grand Slam, que reúne os quatro maiores torneios de tênis do mundo – Aberto da Austrália, Roland Garros, Wimbledon e US Open -, a prática é proibida.

“Faltou um pouco de falta de bom senso da Serena, a falha ali foi dela. Ela exagerou nas suas alegações, o árbitro estava cumprindo a regra, pois percebeu a tentativa do coaching pelo treinador”, afirmou João Zwetsch, treinador e capitão da equipe brasileira na Copa Davis, além de ser um dos coordenadores da Academia Tennis Route (RJ).

Para Zwetsch, toda esta situação poderia ser evitada se a regra que impede a orientação de treinadores aos tenistas fosse revogada definitivamente do esporte. “De modo geral, acho que as regras do tênis são adequadas, mas precisávamos avançar na participação dos treinadores em relação aos jogos. Obviamente com algum tipo de regulamentação, não o tempo todo, não toda hora”, disse o treinador brasileiro.

Zwetsch admite que a prática do “coaching” é comum nos torneios e que os treinadores estão sempre tentando se comunicar com seus jogadores, seja por sinais, gestos ou mesmo até tentando falar alguma coisa.

“Eu faço coaching em todos os jogos, sempre tento estabelecer alguma comunicação com meu jogador. Todos os técnicos fazem. É uma coisa comum no circuito, até por isso se cogita permitir a participação do treinador nos jogos”, explicou Zwetsch.

O conturbado episódio, no qual Serena Williams reclamou ter sido vítima também de sexismo pelo árbitro português, poderá mudar na próxima temporada, justamente no mais tradicional dos torneios do circuito.

Em entrevista ao jornal britânico “The Independent”, o presidente do All England Law Tennis Club, Philip Brook, admitiu repensar a regra que proíbe a instrução dos técnicos a seus atletas no torneio de Wimbledon.

“A situação é muito confusa para todos. Wimbledon e outros (torneios) pensam que chegou a hora de uma conversa adulta sobre o esporte para ver para onde estamos indo. O que gostaríamos de aprender com aqueles que realizam os testes é: ‘OK, nos persuadam por que é uma boa ideia’”,
disse Brook.

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