Como as empresas podem combater o racismo no Brasil?

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A man holds a ripped Carrefour sign during a march in Sao Paulo on National Black Consciousness Day and in protest against the death of Joao Alberto Silveira Freitas, a Black man beaten to death at a market in Porto Alegre, Brazil, November 20, 2020. REUTERS/Amanda Perobelli
Um homem segura uma placa rasgada do Carrefour durante uma marcha em São Paulo no Dia Nacional da Consciência Negra e em protesto contra a morte de João Alberto Silveira Freitas, um homem negro espancado até a morte em um mercado em Porto Alegre. (Foto: REUTERS / Amanda Perobelli/ 20 de novembro de 2020)

Sou Tom Mendes, gerente geral do Instituto Identidades do Brasil – ID_BR. Nosso principal objetivo é acelerar a promoção da igualdade racial no mercado corporativo.

Utilizamos de processos e ferramentas, como o “Selo Sim à Igualdade Racial”, para auxiliar empresas na construção de políticas internas e externas que sejam efetivamente produtivas e propositivas na construção de um planejamento estratégico voltados a diversidade, com foco na igualdade racial.

Muitas empresas entendem que temos um problema estrutural, mas não sabem como dar início a mudança. Nós as apoiamos nisso.

Metas, métricas, prazos e investimento. Isso poderia ser uma receita básica para iniciar qualquer projeto, mas quando falamos de igualdade racial esses pontos são ainda mais importantes. E na maioria das vezes não são executados e/ou priorizados.

Não queremos desculpas, precisamos de ações concretas e justiça.

Gostaria de comemorar aqui os feitos, resultados e a própria data ou mês da Consciência Negra que é novembro, mas não é possível. Não há descanso.

A pauta racial no mundo corporativo brasileiro chega com atraso de alguns séculos. Apenas nos últimos anos, iniciativas estruturadas para contratação, sensibilização e treinamentos têm sido implementadas. Estamos longe de um cenário ideal, e declarações de lideranças políticas acabam por atrasar ainda mais este processo que já é tão demorado, doloroso e desgastante.

Após o episódio de George Floyd — um caso internacional —, movimentações ocorreram em todo o Brasil, sendo que o número de assassinatos de homens e mulheres negras por aqui é muito maior do que nos Estados Unidos. A comoção é literalmente seletiva.

Quantos mais precisam morrer para que ações não reativas, e sim preventivas e restaurativas sejam tomadas?

Empresas têm sim responsabilidade sobre o que acontece dentro e fora de suas dependências. As lideranças precisam se posicionar efetivamente pensando em um processo perene e não pontual pela igualdade racial.

Uma agenda de ações e atividades que ocorram invariavelmente no longo prazo e que a temática racial esteja pautada em toda estrutura das empresas, da presidência a ponta. Discutir sanções econômicas e financeiras com instituições reincidentes é obrigação.

Inclusive, a criação de uma área especifica para tratar de igualdade racial é ponto básico.

O QUE AS EMPRESAS PARCEIRAS PODEM FAZER?

Empresas fornecedoras compartilham, no mínimo, solidariamente da responsabilidade do que acontece. Afinal, são seus produtos sendo comercializados nesses estabelecimentos, são seus funcionários repondo produtos nas gondolas e estantes dessas instituições.

O Carrefour tem responsabilidade jurídica e trabalhista. Seus funcionários e terceirizados, mesmo com alguns treinamentos, ainda refletem uma cultura que possui reincidência. E as empresas parcerias precisam cobrar efetivamente um resultado e dar prazos para que isso ocorra.

Precisamos de uma mobilização nacional de empresas para termos o devido valor a pauta e tendemos a valorizar o que vem de fora do país. Essa é hora de provarmos que podemos fazer diferente e, definitivamente, colocar em prática o brado de tantas vozes com o #VidasNegrasImportam.

O Carrefour tem responsabilidade jurídica e trabalhista. Seus funcionários e terceirizados, mesmo com alguns treinamentos, ainda refletem uma cultura que possui reincidência. E as empresas parcerias precisam cobrar efetivamente um resultado e dar prazos para que isso ocorra. Tom Mendes

Citando um pequeno trecho de Ad Junior nas redes sociais, executivo no ramo de comunicação e influenciador digital: “Pena que o nome dele é João Alberto Silveira Freitas e morreu em POA. Se tivesse morrido em NYC e se chamasse John Albert, você estaria postando “Black Lives Matter” e saindo as ruas cobrando justiça”.

Esse pequeno trecho nas entrelinhas coloca em voga todo nosso sistema brasileiro, onde o mito da democracia racial se faz presente. O fato de algumas das principais lideranças — como o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, e o próprio presidente Jair Bolsonaronegarem de forma veemente a existência no racismo no Brasil reforça o discurso que a pauta não é importante.

Esse negacionismo coloca em um lugar de não existência o que hoje deveria, já com atraso, ser a principal pauta a ser discutida, trabalhada e combatida, que é o racismo estrutural e institucional.

O silêncio ou soluções vazias e desestruturados talvez sejam um dos piores posicionamentos que alguém ou uma empresa possam fazer. Este é um momento muito oportuno, e não oportunista, para se começar a fazer ações voltadas à igualdade racial que sejam relevantes e verdadeiramente assertivas.

O BOICOTE FUNCIONA? SIM E NÃO

Muitos têm levantado o boicote a empresa como uma medida de protesto, afim de atingi-los financeiramente e economicamente. Mas no final do dia, isso é efetivo?

De certa forma, sim.

A mobilização de pessoas mexe com as estruturas e normalmente é o primeiro passo para uma movimentação cada vez maior, só precisamos entender o que e de quem cobrar.

Sabemos bem que grandes corporações possuem um capital econômico gigantesco e esse tipo de ação pontual pode funcionar no curto prazo, mas não são perenes. Grande parte da população não tem a opção, intenção ou condição de boicotar toda uma rede e todas as empresas que fornecem para ela.

Reforço que os parceiros institucionais dessas empresas precisam cobrar ações efetivas de reparação no curto, médio e longo prazo. Jurídicas e institucionais. Não apenas com comunicados e posts nas redes sociais, mas nas conversas entre lideranças, colocando na mesa todos os pontos. E caso contrário, o real boicote precisa vir delas.

Residents protest against racism, after Joao Alberto Silveira Freitas was beaten to death by security guards at a Carrefour supermarket in Porto Alegre, Brazil, November 20, 2020. The sign reads: "Boycott of Carrefour."  REUTERS/Diego Vara
Moradores protestam contra o racismo depois que João Alberto Silveira Freitas foi espancado até a morte por seguranças em um supermercado Carrefour em Porto Alegre. (Foto: REUTERS / Diego Vara)

Evitar isso é fácil. É só ouvir que as vozes das ruas e as principais autoridades no assunto estão colocando como soluções plausíveis. É ter humildade para assumir que erraram e que a mudança é possível, basta querer e fazer.

Precisamos focar em alguns pontos urgentes:

  • Letramento racial em massa;

  • Investimento em instituições e projeto voltados a temática racial;

  • Cobrar juridicamente os fatos ocorridos-violência desmedida precisa ser banida;

  • Cuidar da família das pessoas afetadas pela violência de forma vitalícia;

  • Investimento para educação de crianças negras e filhos de funcionários;

  • E exigir o posicionamento de lideranças nacionais e globais.

Nota de repúdio não gera mudança, é apenas o básico, queremos justiça.

Empresas, vocês têm ou não o poder de fazer a mudança para além das hashtags? A hora é agora! Vamos?