Como Arthur Elias levou o futebol feminino do Corinthians ao topo

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Arthur Elias foi eleito melhor técnico do Brasileirão 2018 (Flavio Hopp/Gazeta Press)
Arthur Elias foi eleito melhor técnico do Brasileirão 2018 (Flavio Hopp/Gazeta Press)

Comandado por Arthur Elias, o time feminino do Corinthians fechou a primeira fase do Brasileirão na liderança, com a melhor defesa e o melhor ataque da competição, acumulando atuações de encher os olhos até de quem repete da boca para fora que “futebol feminino é chato”. Além disso, a equipe teve a melhor campanha na primeira fase do Paulista Feminino, com 30 pontos, seis a mais que o vice-líder Santos.

O sucesso no clube alvinegro, aliado à experiência com a modalidade, levou diversos jornalistas, treinadores e torcedores a apontarem Arthur como o principal nome para substituir Vadão no comando da seleção. A CBF acabou optando pela sueca Pia Sundhage, mas Arthur se diz honrado por ter sido lembrado.

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“Fiquei bem contente por saber que meu nome foi cotado para um cargo de tamanha responsabilidade como a seleção, principalmente pelo apoio de pessoas que estão no futebol feminino e conhecem meu trabalho”, afirmou o treinador ao Deixa Ela Jogar.

“A gente sabe que as decisões são tomadas dentro da visão interna da CBF, e acho que o nome da Pia contempla aquilo que vejo como pré-requisitos para assumir o cargo: ter experiência e ser vitoriosa. Acho que eu também cumpria esses requisitos, assim como Pia indiscutivelmente os cumpre.”

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Experiência e conquistas é o que não falta no currículo de Arthur, que começou cedo no futebol feminino. Depois de jogar bola na base, ele decidiu estudar o esporte a fundo, e aos 20 anos de idade já assumiu sua primeira equipe no futsal feminino universitário. Em 2006, aos 24, criou um projeto de futebol de campo feminino na USP.

“Ali, tive o primeiro conhecimento da modalidade: quais eram as principais equipes, como funcionava, quem eram os profissionais envolvidos. Foi quando tomei a decisão de trabalhar com isso, porque vi que no futebol feminino havia espaço para trabalhar em alto rendimento com uma estabilidade maior. O que vislumbrei naquela época é que a modalidade ia realmente crescer e eu poderia me destacar”, disse.

Diante das dificuldades estruturais, Arthur tinha que ir além do papel de treinador. Também precisou ganhar noções de gestão e ter uma visão mais macro da modalidade. “Isso me tornou um profissional mais completo. Foi muito importante para minha carreira”.

Em 2012, Arthur foi trabalhar no Centro Olímpico, em São Paulo, e no ano seguinte conquistou pela primeira vez o Campeonato Brasileiro Feminino. Em 2016, ele assumiu o projeto do Audax/Corinthians e já na primeira temporada venceu a Copa do Brasil. No ano seguinte, ganhou a Copa Libertadores, e após o fim da parceria entre as equipes, no final de 2017, foi convidado para seguir no comando do clube alvinegro. No ano passado, venceu novamente o Brasileirão — e de quebra foi eleito o melhor técnico do torneio.

Timão liderou primeira fase do Brasileiro e do Paulista (Renato Gizzi/Gazeta Press)
Timão liderou primeira fase do Brasileiro e do Paulista (Renato Gizzi/Gazeta Press)

Nesta temporada, o técnico segue consolidando seu trabalho: na elite nacional, o Corinthians teve 93,3% de aproveitamento na primeira fase, com 52 gols marcados e apenas cinco sofridos, e só teve uma derrota, para o Santos, ainda na segunda rodada. É certamente um dos favoritos para se tornar o primeiro time bicampeão brasileiro feminino.

“Foi muito positivo porque a equipe conseguiu colocar em prática todo nosso trabalho desde a pré-temporada. Tivemos um período bom de preparação dentro de um elenco não muito numeroso, mas com bastante qualidade e dentro do perfil que a gente entende como ideal para defender o Corinthians e nossas ideias de jogo. As atletas conseguiram colocar tudo em campo e fomos evoluindo ao longo da competição”, avalia Arthur Elias, orgulhoso da forma como o time conseguiu a liderança tanto no Brasileiro como no Paulista.

“Não só a primeira colocação e as vitórias, mas a forma como a gente venceu que me deixou muito satisfeito. A gente criou mais chances do que os adversários em quase todos os jogos, teve grande volume de jogo, sofreu pouco e conseguiu fazer um futebol de imposição, bem jogado, como eu gosto. Com um calendário tão difícil como o nosso, com duas competições difíceis ao mesmo tempo, a equipe manteve o desempenho aliado com resultado e eu fiquei bem satisfeito”.

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Na segunda fase do Paulista, que funciona em sistema de grupos, o Corinthians estreou com vitória sobre o Juventus da Mooca. Já o adversário nas quartas de final do Brasileiro será o São José, velho conhecido de Arthur, que superou a Águia do Vale na final do Brasileiro de 2013 e na Copa do Brasil de 2016. O jogo de ida está marcado para quarta-feira (14), às 15h, no estádio Martins Pereira. A volta, na Fazendinha, ainda não teve a data divulgada pela CBF.

“É um adversário que a gente já enfrentou três vezes esse ano, e fomos felizes nas três, mas que foi crescendo ao longo da competição. O São José é uma equipe bem organizada, que venceu o Santos na última rodada, e a gente sabe da tradição e força que eles têm no futebol feminino. Mas, acima de tudo, da qualidade do trabalho e das jogadoras. A expectativa é a gente ir ao Martins Pereira e conseguir impor nossa maneira de jogar para buscar a vitória fora de casa”, projetou Arthur Elias. “A gente pensa em ser campeão e para isso precisa pensar jogo a jogo, para fazer melhor trabalho e vencer as partidas”.

Leia a entrevista completa com Arthur Elias:

Para você, o que é prioridade no desenvolver o futebol feminino no Brasil?

O mais urgente é investir nas categorias de base. Nosso processo de formação ainda é pequeno, já tem clubes que trabalham com isso, mas precisa massificar esse processo. É algo que não depende só das instituições do futebol, também é preciso pensar em modos de atingir nossa sociedade, trazer uma cultura para que as meninas comecem a praticar futebol desde cedo — mas isso é um processo paralelo. A curto prazo, é preciso investir na formação de atletas e em um calendário mais organizado para a categoria profissional. É fundamental que as equipes trabalhem com mais seriedade, e com o aumento do número dos “times de camisa", aumenta o potencial de desenvolver a modalidade, mas precisa de um calendário mais bem pensado, que ajudaria na qualidade técnica do trabalho. Outro pontos que vejo é visibilidade e o lado econômico. Em termos de visibilidade, passa por um momento bastante interessante, e acho que isso vai se manter, o que também atrai patrocinadores. Tem também a questão do mercado de atletas e do interesse geral do público.. Os clubes precisam se organizar para oportunizar a estrutura para aproveitar esse mercado crescente que a gente vê no mundo do futebol feminino, se organizar para pensar em receitas, para que possa ser sustentável. A gente tem essa possibilidade nas mãos de organizar e ter uma modalidade bem mais estruturada dentro de alguns anos.

O que achou da maratona de seis jogos em dez dias no Brasileiro Sub-18?

Eu vi que teve certa repercussão esse assunto do modelo que foi feito o sub-18, mas minha opinião é um pouco divergente. As meninas dessa faixa etária precisam jogar, praticar o futebol de competição. Isso traz crescimento e faz parte do processo de formação. Se tivesse mais recursos, eu ainda colocaria mais jogos para elas, talvez não na mesma sequência, mas usaria esse recurso para levar mais jogadoras e poder fazer um rodízio para dar oportunidade para essas meninas participarem. No Centro Olímpico as meninas treinavam diariamente, muitas vezes tinha três jogos no mesmo final de semana, e ninguém morreu por isso. Pelo contrário, hoje, dos 16 clubes da elite nacional, 13 têm atletas formadas no Centro Olímpico nesse processo que deu muito certo. A gente proporcionou muitos jogos, minutagem muito grande e experiência de jogo de viver cada partida, de competir, de ganhar, de perder. Por isso minha visão desse assunto foi um pouco diferente dessas criticas em relação a jogar com jogos acumulados. Penso que deveriam jogar mais.

Apesar da evolução, houve muitas goleadas na Série A1. O futebol feminino ganha com a chegada de quatro clubes grandes à elite? (Cruzeiro, Grêmio, São Paulo e Palmeiras foram promovidos da Série A2)

Não tenho nenhuma dúvida. A gente passa por um momento de transição, que está se encerrando nesse ano ou no próximo, para chegar em um momento de colocar o futebol feminino em outro patamar em termos de nível competitivo. O Brasil sempre teve grandes clubes, fortes, “de camisa”, que podem proporcionar para o feminino o mesmo equilíbrio técnico que nós temos no masculino. O poder econômico dos clubes é parecido, as estruturas são boas. Vejo os clubes levando o futebol feminino de maneira organizada, mais profissional. A gente sabe que ainda precisa de mais, mas isso vai elevar o nível técnico da primeira divisão, e consequentemente da segunda, dos estaduais, isso vai acontecer. O que eu volto a dizer é que para isso ocorrer de maneira ainda mais qualificada, nós precisamos de um processo de formação de atletas para conseguir dar conta da demanda que teremos de alto rendimento em nível profissional, agora que tantos clubes se prontificaram fazer o futebol feminino acontecer.

O Corinthians tem Érica, Mônica e contratou Tamires. O São Paulo trouxe Cristiane. O que significa o retorno dessas grandes jogadoras ao Brasil?

Sem dúvida a participação dessas atletas em campeonatos nacionais é ótimo para nós, mas a gente entende que, assim como qualquer outro mercado esportivo ou profissional, há muitas possibilidades de jogar em grandes clubes mundiais, ainda mais agora com tanta gente investindo. Não é um ponto de acharmos que estamos bem ou mal porque há atletas da seleção jogando aqui ou não. Acho que a gente pode ter um campeonato muito interessante da maneira como está, com algumas jogadoras que escolheram estar aqui se os clubes tiveram condições de trazê-las, e outras atletas mostrando a qualidade que temos no futebol pelo mundo afora.

O que espera de Pia Sundhage na seleção feminina?

Ela é muito experiente e vitoriosa. Acho que vai ter algumas dificuldades naturais de entendimento do futebol aqui no país, dentro e fora de campo, mas terá apoio de muita gente inteligente e capaz de facilitar esse processo dela para poder ter sucesso na seleção, que é o que todos esperamos. A seleção brasileira é algo que leva o trabalho de todos que estão na modalidade, então a gente torce muito para que tenha êxito. Com Pia, não será diferente, assim como Vadão tinha toda minha torcida.

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