Como ação social leva crianças do Complexo da Maré à final da Libertadores

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Sete crianças moradoras do Complexo da Maré vão viajar a Guayaquil, no Equador, para torcer pelo Flamengo na final da Copa Libertadores. Todos os custos da ação social foram bancados por uma agência turística parceira do clube, e o voo decola do Rio de Janeiro na madrugada de sábado (29), dia da decisão contra o Athletico.

Toda a logística da viagem foi organizada por Fábio Justino, que tem expertise em ações do tipo. Ele mantém desde 2017 o projeto Futuro da Nação, que leva a jogos do Flamengo várias crianças que não têm condições de comprar ingresso por conta própria. Foi por esta atuação que a agência parceira do Flamengo procurou Justino.

A ideia inicial seria partir de projetos sociais de toda a cidade do Rio de Janeiro, mas a logística se mostrou impossível no tempo curto que Justino teve para colocar a viagem de pé. Então, a Maré foi escolhida para concentrar esforços junto a iniciativas que acontecem lá.

"Quando eu não tive tempo para ir, tive suporte de pessoas que trabalham lá, em outros projetos", explicou Justino à reportagem.

Em Guayaquil, as crianças flamenguistas serão acompanhadas por dois professores da escola municipal em que estudam, a Escritor Bartolomeu Campos de Queirós, localizada na Maré (zona norte do Rio de Janeiro). As crianças foram sorteadas com base no desempenho escolar, pois precisavam ter comportamento, frequência e notas excelentes. Neste colégio, os magistrados perceberam que grande parte dos alunos tem suas vivências dentro dos limites da comunidade, com raras possibilidades de sair daquele espaço.

"Algumas dessas crianças que vão [ao Equador] nunca foram ao Maracanã, ou à praia, ao teatro, porque têm pouco acesso. Isso chamou minha atenção quando surgiu a possibilidade de fazer [a ação] a partir de uma escola. O conhecimento é libertador, e levar essas crianças de 11 ou 12 anos para outro país pode gerar uma ebulição na mente delas, servir de ponto de partida daqui para frente", projeta Justino.

BUROCRACIA FOI UM DESAFIO

A parte mais difícil de toda a ação foi conseguir todos os documentos necessários para as crianças. São menores em uma viagem internacional sem os pais, por isso foram necessárias autorizações autenticadas em cartório para cada um deles.

No caso de uma das crianças, que é órfã, a avó responsável tem mais de 70 anos. Em casos assim, é preciso que um médico que tenha firma reconhecida assine um laudo de sanidade mental, comprovando que a pessoa idosa tem realmente condições de 'liberar o(a) neto(a) para uma viagem' do tipo.

VIAGEM DAS CRIANÇAS CUSTARIA MAIS DE R$ 100 MIL

A própria agência que bancou a ação social, a Outsider, vendeu pacotes para a final da Libertadores com preços a partir de R$ 13 mil -incluindo voo, ingresso, transfer e hospedagem. Em uma conta básica, nove pessoas (sendo sete crianças e dois responsáveis) teriam que desembolsar R$ 117 mil em um bate e volta do Rio para o Equador, sem contar os custos burocráticos.

A agência tem sido alvo de críticas por cancelamentos e atrasos de voos rumo a Guayaquil, mas promete que todos que compraram vão embarcar no máximo até sábado de manhã.