À distância, clubes se aproximam com reuniões virtuais e negociações em conjunto

Colaboradores Yahoo Esportes
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Presidente do Fluminense, advogado Mário Bittencourt liderou as negociações sobre férias e salários de jogadores (Lucas Merçon/Fluminense FC)
Presidente do Fluminense, advogado Mário Bittencourt liderou as negociações sobre férias e salários de jogadores (Lucas Merçon/Fluminense FC)

Por Afonso Ribeiro (@afonsoribeiro_)

O período de isolamento social no Brasil em razão da pandemia de covid-19 aproximou os clubes de futebol. Geograficamente – e, muitas vezes, ideologicamente – distantes, as principais equipes do país se uniram capitaneadas pela Comissão Nacional de Clubes (CNC) com auxílio da tecnologia para promover reuniões virtuais e motivadas por temas em comum, que passaram a ser discutidos e negociados de forma conjunta.

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A partir da paralisação completa do futebol brasileiro, no início da segunda quinzena de março, as agremiações sentiram a necessidade de debater alternativas e procurar soluções sobre finanças, calendário, contratos com atletas e o futuro dos campeonatos, por exemplo. Foi então que a CNC, órgão estatutário da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) com atuação independente, entrou em ação para reunir os dirigentes dos clubes.

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O processo de mobilização foi puxado principalmente por Mário Bittencourt, presidente do Fluminense, e Guilherme Bellintani, mandatário do Bahia, apurou o Yahoo Esportes. Maurício Galiotte e Sérgio Sette Câmara, presidentes de Palmeiras e Atlético-MG, respectivamente, também têm participação ativa na linha de frente. Além das comunicações usuais por e-mail e WhatsApp, os dirigentes passaram a se falar por aplicativos de videoconferência – Skype e StarLeaf, por exemplo – para promover conversas em tempo real e facilitar votações em temas em comum.

A maioria das pautas envolve os clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro em razão dos contratos de TV e formato da competição, com 38 rodadas, mas equipes das Terceira e Quarta Divisões também são representadas em alguns encontros. Os dirigentes também já tiveram conversas virtuais com membros da CBF e do Grupo Globo.

A primeira discussão conjunta do grupo foi acerca da situação contratual dos jogadores durante a paralisação. A ideia inicial era dar férias coletivas em abril – o que de fato ocorreu – e acertar reduções salariais nos meses sem jogos. A proposta, porém, foi recusada pela Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf), e os dirigentes decidiram realizar as negociações de forma individual.

"A gente tentou fazer uma negociação coletiva, todos os clubes, para fazer um acordo geral, mas acabamos não tendo êxito e definimos de colocar todos os jogadores de férias. Isso foi justamente para que a gente pudesse preservar o calendário, porque senão não teria condição de alongar o calendário até o final de dezembro. Foi uma decisão em conjunto dos clubes. E aí ficou determinado que cada clube iria negociar individualmente com seus elencos", explicou Mário Bittencourt, em entrevista ao Fox Sports.

Guilherme Bellintani, mandatário do Bahia, tem papel ativo na aproximação dos clubes de futebol (Felipe Oliveira/EC Bahia)
Guilherme Bellintani, mandatário do Bahia, tem papel ativo na aproximação dos clubes de futebol (Felipe Oliveira/EC Bahia)

Depois da decisão em bloco de férias gerais no mês de abril e as discussões individuais por reajustes salariais com jogadores, a CNC tomou a frente na negociação dos direitos de transmissão internacional das duas principais divisões do Brasileiro. André Sica, advogado, e Roberto Trinas, da área de marketing, ambos com serviços prestados ao Palmeiras, foram designados pelo órgão para realizar análise técnica das ofertas das empresas.

"Os clubes vão ter que caminhar para negociação coletiva de direitos de televisão. Hoje, só Brasil e México negociam individualmente os campeonatos nacionais. Nas melhores ligas do mundo, as negociações são coletivas, vale mais, consegue negociar melhor. O exemplo que deram agora a CBF e os clubes, depois de muito tempo falando em direitos internacionais, conseguiram fechar um acordo com uma empresa séria coletivamente. E esse vai ser o caminho: negociação coletiva, respeito e união em prol dos nossos produtos, em prol do futebol, falar primeiro da competição. O que é melhor para a competição? Segundo passo: o que é melhor para cada um? O todo sempre vai ser muito mais forte", opinou Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), à TV Gazeta.

No último dia 17, a CBF anunciou que foram escolhidas a "Global Sports Rights Management (GSRM) para direitos internacionais para TV aberta, TV fechada, Pay Per View, internet e OTT/streaming; e pela proposta conjunta das empresas Zeus Sports Marketing e Stats Perform para direitos internacionais para streaming for betting". De acordo com a Máquina do Esporte, os dois contratos renderão U$ 27,2 milhões (R$ 148 milhões) aos clubes, que ratearão entre Séries A (75%), B (20%) e C (5%).

"Foi feita uma análise de quais empresas poderiam fazer e se dividiu em direitos de transmissão e betting, que é a parte de apostas. Então, a princípio, uma empresa vai fazer a parte de transmissão para fora e uma outra empresa vai fazer essa parte de apostas. Esse é um contrato que tende a ficar interessante. Na medida em que tenham muitas apostas, esse valor vai aumentando e sendo distribuído para os clubes. Mas o principal, na minha opinião, foi o grande salto que o futebol brasileiro deu ao fechar esse contrato de transmissão para fora do Brasil porque nós vamos colocar na vitrine internacional os nossos atletas, e isso faz com que eles se valorizem", ponderou Sérgio Sette Câmara, em entrevista ao canal do jornalista Breno Galante, no YouTube.

"Não é um valor significativo nesse momento. O mais importante nesse contrato é plantar para o futuro o futebol brasileiro lá fora. Plantar a semente para, no futuro, daqui a quatro, cinco anos, ter o futebol competitivo lá fora, com grande visibilidade", ratificou Guilherme Bellintani à Máquina do Esporte.

União é fator positivo na paralisação

A aproximação dos clubes é vista como principal notícia positiva nos bastidores em meio à crise financeira e paralisação do mundo da bola. As videoconferências superam a barreira da distância física e as poucas oportunidades que os dirigentes têm para encontros presenciais ao longo da temporada. O objetivo é manter contato durante a quarentena para fortalecer os laços quando o futebol for retomado.

Presidente Sérgio Sette Câmara, do Atlético-MG, também enaltece a união das equipes em meio à pandemia (Pedro Souza/Atlético)
Presidente Sérgio Sette Câmara, do Atlético-MG, também enaltece a união das equipes em meio à pandemia (Pedro Souza/Atlético)

“Uma reunião quase histórica. A experiência de organização no futebol, às vezes, é um pouco distante. As entidades de organização do futebol, os clubes, cada um realiza o seu trabalho. Nesse momento, está todo mundo junto, seja por conta da epidemia, seja porque estamos vivendo um outro momento. Um momento de uma CBF muito democrática, muito compartilhadora, que abre seu espaço, sua tecnologia, seus assessores, para encontrarmos juntos as respostas para esse crise e esse novo momento do futebol", destacou Walter Feldman, secretário-geral da CBF, ao Esporte Interativo.

"Os presidentes de clubes e a CBF estão unidos como nunca estiveram", resumiu Bellintani. "A gente tem encontrado, entre os presidentes, o entendimento de uma luta conjunta. É lógico que cada clube tem sua realidade, cada presidente tem uma opinião a respeito das coisas, mas a gente tem procurado ao máximo constituir a discussão do seguinte jeito: vamos exaurir as divergências na discussão, mas, na hora de decidir, vamos decidir coletivamente. Isso tem sido positivo em vários aspectos, desde a discussão do tema dos direitos internacionais, que está em uma reta final, a temas como calendário, negociação de salários de atletas, férias... Isso tem sido muito firme uma experiência muito boa", completou o mandatário do Bahia.

"Eu fiquei muito feliz porque nós fizemos uma história muito bacana. E, talvez, se não fosse por conta do coronavírus isso não tivesse acontecido. Isso é extremamente curioso e bacana de falar. Por quê? Porque nós conseguimos fazer, através dessas salas de reuniões, a reunião de 30, 35 presidentes de clubes de futebol e mais de uma vez, umas quatro ou cinco vezes. Sabe quando nós conseguiríamos fazer um negócio desses em outros tempos? Nunca. Porque, em outros tempos, as reuniões eram sempre lá na CBF, tinha um almoço, depois tinha uma reunião, aí um tinha voo mais cedo, outro, o voo mais tarde... Não. Nas salas de reunião, o camarada está passeando com o cachorro, está cuidando do filho, está na sede, na hora que chegou o horário, ele entra e participa da reunião", falou Sette Câmara, presidente do Galo.

Os diálogos também servem para os clubes trocarem experiência sobre protocolos médicos no retorno das atividades, negociações com atletas e patrocinadores e a situação dos cofres. Devido ao impacto mundial causado pelo coronavírus, os dirigentes já aguardam cifras menores em negociações de jogadores – inclusive em caso de propostas do exterior – e acreditam que será necessário baixar o patamar dos valores do mercado nacional.

"Vamos ter que imaginar um grande impacto na sociedade. Não vai ser diferente para os clubes também. Vamos ter que entender o momento que vivemos e tentar ceder alguma coisa. Não vai ser possível, principalmente no futebol... Uma folha de pagamento não é algo desprezível. As cifras no futebol são fora do padrão de qualquer organização. Isso serve até de uma grande reflexão para a gente, para frente, repensar os valores que hoje circulam dentro do futebol, especialmente salário de atletas e treinadores, que são totalmente incompatíveis com a realidade social que o nosso país tem", frisou Robinson de Castro, presidente do Ceará, em entrevista à ESPN Brasil.

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