Com público incerto, mais de 800 flamenguistas já compraram pacotes para final da Libertadores

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RIO - Antes mesmo de o Flamengo entrar em campo contra o Barcelona (EQU) pela semifinal da Libertadores nesta quarta-feira, mais de 800 torcedores rubro-negros haviam adquirido pacotes para a decisão do torneio continental, prevista para o Estádio Centenário, na capital uruguaia Montevidéu, em 27 de novembro. A Conmebol ainda não confirmou oficialmente a presença de público, que depende de autorização do governo local, mas a procura vem crescendo nas últimas semanas em operadoras de turismo.

Até o momento, cinco aviões fretados foram disponibilizados por duas agências especializadas consultadas pelo GLOBO. Em ambas, flamenguistas superaram 90% das vendas, enquanto a procura por parte de torcedores de outros clubes ainda é inferior a 10% dos contratos firmados. Os acordos preveem a possibilidade de reverter o crédito em outra viagem caso a equipe não chegue à final, troca de titularidade com antecedência e reembolso se não houver público. A prática é permitida pela legislação brasileira, embora requisite contrapartidas caso o serviço não possa ser realizado.

— A torcida do Flamengo realmente foi a mais empolgada. A gente vendeu para mais de 700 rubro-negros, já temos quatro aviões fretados. Para outros times, foi numa quantidade muito inferior. Uns 30 a 35 torcedores de Palmeiras, Atlético-MG e outros que foram eliminados — afirmou Fernando Sampaio, diretor operacional da Outsider Tours, que inclui o ingresso em seu pacote, como parte de acordo com patrocinadores do evento.

A Conmebol afirma que por ora não há empresa autorizada a comercializar ingressos para a final já que não há confirmação do governo uruguaio. A entidade permitiu em julho o retorno gradual de torcedores a partir das oitavas da Libertadores conforme a legislação dos locais das partidas. O secretário de Esportes do Uruguai, Sebastián Bauza, afirmou em entrevistas recentes que a decisão deverá ter torcida "por contrato" e expôs intenção de contar com um mínimo de 50% da capacidade.

O presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou, anunciou, em agosto, a reabertura das fronteiras a estrangeiros completamente vacinados contra a Covid-19 a partir de 1º de novembro. Até o momento, consulados uruguaios no Brasil não receberam orientação formal do governo e aconselham turistas a esperar as definições. A embaixada em Brasília não retornou até esta publicação.

Com mais de 73% da população completamente vacinada, o Uruguai está entre os países com imunização mais avançada no mundo, segundo dados da plataforma Our World in Data. Na pandemia, a nação registrou quase 388 mil infectados e pouco mais de 6 mil óbitos em decorrência da Covid-19.

Venda precoce

Os pacotes, alguns com oferta de ingressos para a decisão, começaram a ser comercializados ainda durante a fase de grupos, logo após a Conmebol confirmar o Uruguai como sede. Mesmo sem confirmação da presença de público, especialistas afirmam que é legal celebrar contratos visando eventos futuros e incertos, desde que seja efetuado o reembolso caso o serviço não seja viabilizado.

— Se não for prestado o serviço, o consumidor tem o direito de reembolso integral. Qualquer coisa além disso é ilegal. Se houver essa previsão de reembolso, é totalmente lícito vender o que não se tem para entregar. Isso é o normal no mundo de hoje - disse Gustavo Kloh, professor de Direito do Consumidor da FGV.

O servidor público Tiago Rocha, de 41 anos, já havia garantido sua vaga para Montevidéu antes mesmo da troca de data da final — adiada em uma semana em relação à previsão inicial. Ele e mais três amigos adquiriram seus pacotes quando o mata-mata da competição estava em vias de começar.

— Se eu fosse perder o dinheiro, talvez esperasse um pouquinho mais. Eu fui em Lima, gostei muito do que vivi lá e não podia ficar de fora de outra final de Libertadores. Passamos 38 anos só com vexames e resultados ruins. Após 2019, acho que vou seguir em todas as finais possíveis em que o Flamengo for — disse Rocha.

As vendas começaram a aumentar em meio às quartas de final, mas dispararam logo após a eliminação do Fluminense, que acabou com a chance de clássico na competição. Na Outsider Tours, o quarto avião fretado encheu em pouco mais de 48h, com todas as vagas reservadas até o dia seguinte à desclassificação tricolor. Já na agência Turista FC, as buscas cresceram 60% na semana subsequente à partida.

— O Flamengo ficou numa chave relativamente mais fácil, então a procura já aumentou, principalmente depois das quartas de final. Depois que se oficializou a eliminação do Fluminense, a procura cresceu bastante. Na semana seguinte, houve o pico — afirmou João Paulo Fernandes, sócio-fundador da Turista FC, que vendeu mais de 100 pacotes. — A gente também tem muita consulta de palmeirense e atleticano, mas eles estão segurando um pouco mais, naturalmente pelo confronto mais difícil que têm pela frente.

A agência ofertou inicialmente 30 ingressos prometidos por meio de acordos com patrocinadores da competição. Após essa cota, a operadora retirou os ingressos dos pacotes e comunicou em suas redes que aguarda o anúncio oficial para orientar seus clientes na compra. Se o torcedor não conseguir a entrada, a agência permitirá a conversão do crédito em outra viagem.

Torcedores otimistas

O advogado Osmar Berardo Filho, de 47 anos, foi um dos que optou por adquirir após a vitória por 4 a 1 sobre o Olímpia (PAR) no jogo de ida das quartas. Também presente na final contra o River Plate (ARG), em Lima, ele viajará ao lado da esposa, dos irmãos e de amigos.

— Acho que o Flamengo tem um time muito melhor que o Barcelona e resolvi comprar o pacote. Não é um cheque em branco. Se não se classificar, recebo crédito na operadora de turismo. Se por acaso tiver algum imprevisto, o Uruguai tiver um surto de Covid e fechar suas fronteiras, eles me devolvem o dinheiro. Não é tão arriscado — disse.

Segundo Pedro Barbosa, professor de Direito Civil da PUC-Rio, prestações de serviço no exterior sempre apresentarão risco. No caso da Libertadores, explica, o público consumidor tem capacidade econômica e acesso a informação, motivo pelo qual podem ser feitos contratos dessa natureza com cláusulas de suspensão.

— O contrato pode ser feito, mas tem uma condição suspensiva em que uma parcela dos efeitos do contrato fica contida para evento futuro e incerto qual seja a aprovação do governo uruguaio. Isso é um elemento que introduz mais risco ao contrato e tende a impactar no preço. Se não houver realização do evento aberto ao público, não tenho a menor dúvida de que esse consumidor vai receber o dinheiro de volta se a empresa não falir — afirmou Barbosa.

Apesar das indefinições, a corrida pelos pacotes também se justifica pelo preço. Na Outsider Tours, o valor mais que dobrou desde que foram lançados. Os primeiros a pagarem desembolsaram em torno de R$ 6 mil. Agora, com a demanda em alta e o aumento dos custos de fornecedores, a estimativa é de R$ 13.990. Na Turista FC, a variação foi menor. Os pacotes saltaram de R$ 7.100 a R$ 7.980 pelo fato de haver apenas um avião fretado por ora. As passagens de ida e volta em voos comerciais para a véspera da final, saindo do Rio, não são encontradas por menos de R$ 3.500. A depender do horário e da escala, os valores excedem R$ 8 mil.

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